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A PREMIAÇÃO: "SOULPLANET, A FONTE"
A PREMIAÇÃO:
“SOULPLANET,
A FONTE”

"Esta cidade sem poesia de vida se fecha.
Se prende, se tranca/Em mil unidades de desespero.
Esta cidade/Desolada, isolada/ilha de poeira morta
Subverte o silêncio/submerge os soluços".
(H. Dobal, "Os Signos e as Siglas")

“PEIXE PODRE PARA VIDEOTAS”
Estamos, neste conto, em 2072, o casal Antron Hoiden habita em São Paulo, no Jardim América. Gosta de ficar assistindo programas de Tv, quando o tédio incomoda, sai para refeições nos melhores restaurantes da área.  

O casal está interessado em ganhar passagens para uma série de viagens tendo “SoulPlanet: A Fonte”: por limite. É a fixação midiática do momento: fazer turismo em “SoulPlanet: A Fonte”: conhece-la via sorteios de passagens num programa dominical de Tv. O Domingãodo100zão.

As duas condições básicas para a participação no sorteio: o casal deve, somadas as idades, ter cem anos, ou mais de cem. Não importa a idade cronológica de cada membro do casal participante, a soma deve totalizar um mínimo de cem. Ele pode estar com 65 e ela com 35, ou vice-versa, ou 70 e 45, ou 40 e 70, ou 44 e 66. A soma, insiste o regulamento do concurso, deve ser 100 ou mais de cem.

“100 ou Mais”: Não sabem ao certo o motivo desta exigência gritada com o sorriso entusiasmado pelo showman do Programa Domingãodo100zão. Comentários de jornalistas da imprensa livre indicam que pode haver relação com “O Homem Que Viu O Amanhã”.  

O apresentador do programa de maior evidência dominical, dramatiza a descoberta de Um Lugar Sem Dialética, “SoulPlanet: A Fonte”: descoberto em algum sítio subterrâneo do planeta Marte. Um famoso cientista, em entrevistas em múltiplos canais, enfatiza a descoberta sensacionalista de uma nova e inusitada interpretação das Centúrias de Nostradamus, esta seria, a principal motivação de “SoulPlanet: A Fonte”:

Os resultados das medições de audiência estão automatizados no interior de cada sensor em cada aparelho de Tv adquirido nas lojas do comércio varejistas e supermercados. “SoulPlanet: A Fonte” é o momento mais alto, o destaque de maior intensidade e infiltração na mente carente de novidades dos espectadores. Sucesso absoluto. Destaque total.  

O entretenimento Tv visível está, neste ano de 2072, cada vez mais competitivo, ousado, por vezes estranho. As novas tendências do mercado, do marketing petulante, arrojado, da programação nas emissoras de Tv, não tem limites. A única coisa que interessa aos programadores e investidores em propaganda, é a audiência. Quanto maior a audiência, melhor o programa. Os garotos e garotas das programações, os apresentadores mais tradicionais de antigamente, se perpetuaram na telinha, através da reprodução de suas imagens risonhas, via reproduções de suas imagens pela “I A”.

Os programas mais em evidência são: "Rédea Do Ruck”, "Patricinha Santos Véu" e "Domingo Particular" nas principais emissoras do entretenimento dominical. Há também mais dois programas que se destacam: "Auto Astral Dominical" e João Kebeck Lazer Total". A briga de foice no escuro pelos melhores anunciantes do marketing televiso, é ampla, geral, irrestrita.

As divas e celebridades das bundas bizarras mais detonantes do mercado, dos seios mais provocantes, dos lábios das amadas mais amantes, todas fazem questão aberta de se exibirem em modelitos atraentes e cativantes, nos palcos dominicais. Desejam se infiltrar no psiquismo dos assinantes dos canais com ofertas atraentes, vistosas, sedutoras, cativantes.

Cada retransmissora, via satélite, busca o inusitado com maior avidez que as demais. A Guerra por audiência nas programações atinge piques incríveis de sedução, tipo um programa denominado "Baratinhas Livres", dirigido a idosos com mais de 80 anos, estrelado por garotas de classe alta, vestidas à moda, mimadas e dispostas a vender uma imagem de jovens irresistíveis, no mercado delivery de atendimento sexual.

Elas esbanjam sedução, detonam um estilo de vida atrativo onde a futilidade do aliciamento emocional, nacional, está em oferta, para o usufruto de ricos aposentados. O magnetismo das danças de palco, dos gestos estudados das patricinhas e mauricinhos sedutores, anuncia o desdobramento nos programas: “Vovô Não Dá Moleza” e “Vozinha Não Dá Mole Pra Tristeza” onde a virilidade dos idosos é exaltada, assim como a comercialização farmacológica de medicamentos recém lançados no mercado.  

Alguns comentaristas de jornais e Tv, definem a agenda dominical de programação das emissoras televisivas, nominando-a de “peixe podre para videotas”. O profissional showman mais cotado na “praça é nossa” do momento chama-se “Player Do Milhão”. Ele já tinha comandado o programa “Tiazinha do Haiti, a Feiticeira”, em outra emissora de Tv.

A alma de cada espectador escapou do lugar onde o corpo humano está. Impossibilitado de intervir na própria realidade, de fazer alguma coisa útil por si mesmo, o público se afeiçoou ao muro silencioso das lamentações, entre as diferentes dimensões do existir real/virtual. O longo programa dominical de atrações é dividido em Quadros, com vinhetas tipo “Ratinho Preso”, “Papagaio Brega”, “Doleiro do Vô Caro”, “Anitta Funk Tua”. Tudo entremeado com o esquete “Terrivelmente Eva Angélica”.

Do ano de 2026 ao 2072, a cultura televisa não mudou quase nada. Exceto que, em 2072 é dirigida pela alta tecnologia da Inteligência Artificial.

A personagem angelical, criada pela Inteligência Artificial para divulgar o programa do Domingãodo100zão, dança, canta, luta artes marciais, esbanja personas e personalidade. Ao mesmo tempo que que se mostra incrivelmente lasciva, erótica, obscena, libidinosa, mostra-se ao mesmo tempo esportiva, vence competições de velocidade, natação, corrida e luta livre. Transmite, ao mesmo tempo, pureza, inocência, doçura, bondade. Ela agrada, é simpática a todos os segmentos do público telespectador.

O casal Antron Hoiden está realmente surpreso por ter sido um dos vinte e quatro casais do sorteio mensal, e ao mesmo tempo estar a participar da mais atual manifestação do “Olho do Furacão” Tv visível mais atual. Por cada segundo de publicidade neste quadro do programa, o departamento de propaganda do Canal100zão fatura U$ 30.000 (US$ trinta mil). Trinta segundos representam 900 mil verdinhas em caixa. E o programa desdobra-se por seis horas. A grana corre solta por detrás do entretenimento de domingo do Canal100zão.

O sr. Hoiden, contempla emocionado os comerciais projetados em tela múltipla, no intervalo do programa no qual está sendo entrevistado. Maravilhado, ele olha em volta para o auditório repleto: as opções visuais são muitas. Ele não sabe para que lado do palco olhar, tantas as tentações visuais holo graficamente produzidas. Elas maravilham a ingênua sede insaciável de plumas e paetês dos Tv espectadores. Os grupos de garotas e garotos que dançam sensualmente nos palcos, vestem diversas grifes da moda popularizada. Elas completam o visual dançante e delirante do circo “high-tech”, via satélite.  

O casal Hoiden sempre teve curiosidade de poder apreciar bem de perto esse truque virtual: as projeções a laser de garotas seminuas que nadam no espaço do palco principal do programa, como se fossem peixes num aquário azul límpido. De perto assim, o visual consegue ser ainda mais surpreendente. Uma dose extra de oxigênio é borrifada a cada hora e meia sobre a plateia, via aberturas no teto por onde passa o ar condicionado. A plateia oxigenada fica mais e mais entusiasmada.

O total dos casais sorteados nos dois últimos sorteios, com embarque garantido para “SoulPlanet: A Fonte”: é de 50. São 100 pessoas que se julgam por demais privilegiadas por poderem sair do campo gravitacional do planeta Terra em direção ao planeta Marte e ao sítio territorial “SoulPlanet: A Fonte”: A Fonte de surpresas inimagináveis, como divulga a propaganda.  
—Mal posso crer em meus olhos, é tudo tão virtual, diz a senhora Hoiden.
— Daria tudo para estar no lugar deles, pena que não possam vender as passagens, eu pagaria trezentos mil dólares por elas. Esta, a convicção do senhor Martins Flaubert de que ele também pagaria tal quantia à vista, cede lugar ao comentário da senhora Fonseca Dijon:
—Infelizmente a produção do programa proíbe os ganhadores vendê-las, eu faria um lance de seiscentos mil dólares.
—Conhecer esse lugar está valendo grana preta, comentou a mulher de um casal próximo que compareceu à entrega das passagens na cerimônia monumental da premiação “SoulPlanet: A Fonte”.

O casal Hoiden sente-se privilegiado e feliz pela oportunidade de visualizar novos horizontes e paisagens: “Haaahhah. Exclama entusiasmado o senhor Hoiden: “Viajar para outro planeta”, exclama ele, e complementa:
—A ansiedade por conhecimento de novos espaços e paisagens até então interditas. Outro planeta, outra paisagem, outras vidas. Ele lembra do slogan:

“VENHA CONHECER DO QUE É FEITA A ALMA:
GARANTA SUA PASSAGEM PARA O PARAÍSO
INTERPLANETÁRIO SOULPLANET: A FONTE”.

Afinal, as abençoadas promessas foram ouvidas, pisar o solo desse local misterioso, mítico, sagrado, dessa região mágica que todos desejam conhecer. Sentem-se, os Hoiden, perfeitamente à vontade.
—Mas viver não é apenas chegar, cicia o senhor Hoiden no ouvido de sua mulher. Há de se chegar, adaptar-se. Permanecer.

Uma vez em “SoulPlanet: A Fonte”, após chegar em Marte e se instalar, a senhora Hoiden comenta, olhando pasma a paisagem:
—Este sítio tem uma geologia incrível. Rochas, minerais, fósseis, montanhas, vulcões, são prenúncios de acontecimentos, talvez tenebrosos.
—Em nenhum dos países que conheci na Terra, existe um mais estranho visual. Este lugar absorve os tecidos, átomos, moléculas, órgãos, sistemas, células de meu corpo. Este lugar está pensando-me melhor do que eu me penso a mim mesmo, comentou o senhor Hoiden.

A senhora Hoiden desde criança gostava de atividades associadas a meninos na cultura\ convencional. Era ruidosa, espirituosa, alguém que ignorava as normas sociais de comportamento recatado.

O senhor Hoiden, antes mesmo de abrir a boca, obteve do cenário do lugar uma resposta para sus indagações. Uma resposta telepática. Ele achou muito, muito estranho, mas aceitou sem questionar. Quem falava com ele??? A paisagem em si ou algo nela, através dela???

A energia natural do lugar, comunicativa, mas silente, muda e sossegada, está a sondar e a manifestar sensações insólitas no casal:
—A paisagem transmite sentimentos, emoções, vivências, disse ela, de um lugar muito dentro de seu psiquismo. Um lugar telepático.
—É igual uma onda que perpassa tudo, uma atmosfera antinatural, sem precedente. Isto é outra dimensão. A resposta telepática do senhor Hoiden:
—Tudo aqui é pura percepção em profundidade virtual. Essa onda que a tudo perpassa é, talvez, um oceano de neutrinos carregado de vivências no continuum espaço tempo de tudo.
—Tudo, todas as coisas que aconteceram, acontecem e acontecerão.

No subterrâneo do lugar, há cem metros da superfície, uma sala de controle administrada por uma Inteligência Artificial, filma os ganhadores do Prêmio, particularizando cada ação e reação do casal Hoiden. O casal aparece nos monitores numa espécie de estado de coma. A comunicação se afirma sem passar pela linguagem verbal ou corporal.
—Quem nos fala é nossa alma, disse telepaticamente a senhora Hoiden.
—Estou a escalar uma montanha, chego a um platô em frente a praia de um mar blue, azul da cor do céu de um verão ensolarado. Ele transmite grande dor emocional. Uma comoção desesperadamente em busca de algum conforto emocional. Passados alguns momentos, o senhor Hoiden complementa, absorto:
—Além, muito além dos cinco sentidos.
—"SoulPlanet: A Fonte”: é em realidade sublime, fascinante, fenomenal.  Uma prisão, uma mortificação, um inferno astral no sistema solar. Uma metáfora da Terra original, a intensidade da alma magnética de Marte.
—Estamos aprisionados numa desesperança que não vai passar.
—Lembras, disse ela, telepática mente:
—Essa é a realidade da alma. Nós a desconhecíamos.
—Da Alma do Mundo Real.
—Dos seres que nos movem, habitantes do nosso Inconsciente.
—"SoulPlanet: A Fonte”: é isto. Isto mesmo.
—Estamos tendo acesso compartilhado à linguagem de rios, lagos, montanhas, nuvens, ventos...Da\s ondas nas paias oceânicas desertas.
—Não apenas ouvimos a paisagem, somos parte da paisagem.
—Tudo é vibração, sintonia sinfônica compartilhada.
—Experiência poética ParaPSI.
—Energia fluindo no continuum.

Nesse momento, sem saber por que, uma inusitada nostalgia invade cada poro de seus corpos. O casal lembra-se, com imensa saudade, da poluída São Paulo, sabendo que jamais voltarão a vê-la. A nítida sensação de que muitas memórias remanescentes permanecem mais vivas agora, trazidas à consciência por algum misterioso nicho propício da mente. Memórias que se manifestam através de signos estranhos, paisagens inauditas, prenúncio de revelações sobre algum inferno interior, ou paraíso, a explorar.
—Tudo muito temeroso.

O senhor Hoiden extasia-se com seus botões, enquanto uma imensa estrutura, cor ocre, resplandece acima de suas cabeças: que bela inutilidade, pasma-se. Misterioso êxito emana da vã intensidade luminescente do muro. Não consegue atinar como essa parede se mostra capaz de "mastigar" a quarta dimensão. Juntando todas as impressões, essa paisagem é o próprio Tempo ou seu Criador???
— Quem teria financiado esse colossal cenário que intensifica sobremodo essa angústia sem explicação. Essa coisa deve ser interdita, a olhos humanos, seu efeito visual é por demais é tão devastador. A física relatividade causa surpresas perceptivas, surtos de imponderabilidades.
—Realidades disfuncionais. Ilusionismo perceptivo.
—Desconectados de tudo que é objetivo.
—Filtros Perceptivos de uma Matrix sádica, intencional.
—Expectativas e rivalidades se desencontram.
—Indução magnética inconsciente.
—Uma prestidigitação mediada por um deus demiurgo.

Uma mesa de frutas se materializa diante de seus olhos. A senhora Hoiden descasca uma tangerina e começa a comer seus gomos deliciosos. Ela compartilha com o marido os gomos voluptuosos da fruta. Ele comenta:
—É como saborear a quarta dimensão.

Outra indagação do sr. Hoiden não se faz esperar: A paisagem desse lugar simboliza que inaudita e desarticulada mensagem inanimada? A vivacidade imponente desse muro, doze metros acima de nossas cabeças, transmite uma extenuada e impulsiva inanição, imune a qualquer interferência, simplesmente onipotente, como se a condicionar estranhas percepções.
—Percepções das quais não podemos fugir.

O casal Hoiden contempla boquiaberto o suntuoso portal ilógico, ao mesmo tempo barroco e gótico, como se tivesse sido construído por arquitetos fanaticamente profanos e fastidiosamente sacros. Seus olhos deslocam-se para o alto, onde, parecendo desenhadas sobre vitrais, as pinturas da alta parede do muro suspenso, brilham, como se afirmações ilusórias, aleatórias, de um tempo outro. A eletricidade magnética os trai e atrai.
— Um muro, mural de metal, na pronúncia simultânea do casal.

Considerações contraditórias passam pela cabeça obscurecida do casal. O senhor Hoiden estranha lembrar nitidamente de um parágrafo do livro de Léu Vaz, “Páginas Vazias”:
— “Porque a tal nível de perfeição haviam chegado os artífices de outrora na reprodução manual de vistas, cenas e figuras, que o prestígio de sua arte obnubilou o juízo e o critério dos homens”.

Ambos se fixam nas pupilas das personagens reproduzidas. como se estivessem admirados com a propriedade de suas mentes fundirem-se numa única percepção. Já não são duas almas separadas, seus intuitos moram no interior de uma única tensão. Ambos não conseguem sair desse mesmo lugar interior, como se prisioneiros dele. Experimentam um deslumbramento inaudito, ao contemplar o nível de perfeição a que chegaram os artífices desconhecidos das cenas e figuras de significados indefiníveis para o juízo e critérios desses turistas habituados à cultura da civilização Terra.

Veem agora um portal interliga-se com outros portais a cada cem metros, através desse muro. Ele mais parece uma fita marrom, um largo fio, doze metros de altura, largura equivalente e comprimento interminável: uma espécie de grande muralha da China a doze metros do solo, alta tensão, ligado a níveis profundos da inconsciência, sem nada, aparentemente, a sustentá-lo.

Esquivo e estupefato o senhor Antron admira o muro que separa nada de coisa nenhuma. A senhora Hoiden rói os dentes, contraindo com força os maxilares para os lados, a pressionar o inferior ao superior. A todo momento certificando-se de que não está no transe de nenhum sonho esquisito. Sente-se, não sabe porquê, vertiginosamente culpada por não estar dormindo e sonhando. Por não estar delirando.
—O universo é feito de sonhos, sonhos e musicalidade de divindades, sussurra o senhor Hoiden.
—Qual divindade, pergunta ela.
—Todas as divindades se equivalem, responde ele telepaticamente.

Esse mecanismo sonoro mágico, fascinante, conduz com facilidade seus pensamentos. Buscam atinar a dodecafônica musicalidade tipo as composições atonais do austríaco Arnold Schoenberg, seus Exercícios Preliminares de Contraponto, sua triscaidecafonia. Seu medo pânico do n° 13. Ele nasceu, ironicamente, no dia 13 de setembro e morreu em 13 de julho, numa sexta-feira 13.
—"Os fenômenos se deduzem uns dos outros”, a informação mental cravou-se na mente telepática deles. O senhor Hoiden fez valer a interface funcional entre seus cérebros, a resposta via sintoma PSI de difusão de pensamentos:
—Nossos acordes mentais estão, felizmente, se concatenando. Os pensamentos ainda estão se organizando em escalas compreensíveis. O sistema atonal de nossas mentes ainda está supostamente harmônico.
—Mas, uma IA parece estar fazendo experiências com novas possibilidades de atonalidade em nossas mentes. Todas as outras anteriores possibilidades parecem terem-se esgotado.
—A IA está explorando novas formas, somos ratazanas de laboratório.
—Saímos da fase do impressionismo mental tipo Debussy, passamos ao nacionalismo das vibrações mentais tipo Bela Bártok...
—Nem posso imaginar as complexidades das funções harmônicas que se originariam em nossos cérebros, se combinadas com todos os ritmos, ideias, conceitos e conteúdo, vindos de todos os lugares do espaço-tempo, sendo atraídos pela força de gravidade da pineal em nossos cérebros.
—A IA está compondo sinfonias mentais dodecafônicas com as mentes dos ganhadores do Prêmio “SoulPlanet: A Fonte: A Fonte”. Sim, somos ratos de laboratório. Não mais que isso.
—É, os fenômenos se deduzem uns dos outros: Terra, Marte e outros ermos cantões do Cosmo na Via Láctea. Quem sabe que surpresas nos reservam.


O senhor Hoiden gostaria de se sentir, outra vez, a realizar desejos, vontades e ansiedades que se confirmassem apenas no plano das personagens animadas que o casal representa. As lembranças de experiências distantes chegam até ele. O casal sente uma esquisita certeza de que as percepções triviais não mais seriam vivenciadas. Nunca mais entrariam numa agência de Correios na Oscar Freire, nem numa lotérica, padaria ou agência bancária.

O casal Hoiden mentaliza:
— Nem sei mais há quanto tempo estou aqui. Um semestre, um milênio? Que importa? Ninguém perguntou se desejo ficar, se quero voltar. Ninguém perguntará. Estamos prisioneiros desse maldito sadismo de “SoulPlanet: A Fonte”:
—A Fonte.
— “Hahhhaahhh”, murmura a senhora Hoiden, os raros pássaros nos parques cercados de almas e habitações de cimento armado. Sampa das áreas verdes, das aves que parecem artifícios mecânicos, como aquelas fabricadas por uma empresa que produz androides em Blade Runner.
—São Paulo, pronuncia nostálgico o sr. Hoiden, como se tivesse abandonado num lugar magnífico, mas execrado, um lugar das sinagogas de hambúrgueres, dos templos dos sanduíches, das salsichas duplas com batata palha, maionese, catchup e tortas de banana maçã. Tortas de chocolates com cafezinho de padarias.
—Meu Deus, exclama saudosista a senhora Hoiden, simultaneamente ao marido, daria tudo que tenho para sentir outra vez o sabor do BigBladeMac, nem que para isto tivesse de enfrentar 200 km de congestionamento.
—Um objeto, um inseto, um som, uma música. Algo que me lembrasse da convivência com meus amigos vampiros.

O casal desistia de seus patéticos apelos pelo surgimento de qualquer ser que pudesse identificar, a partir do uso de suas antigas memórias. Essas memórias estão tão distantes, parecem não pertencer mais a eles, talvez pertençam agora, a outras pessoas que viveram em épocas passadas, há centenas, milhares de anos. A seres de outros planetas.

O efeito visual em perspectiva se estende longe, muito longe, como se penetrasse nas profundezas imperecíveis do infinito. Somente gigantes ousariam investir num colosso arquitetônico de egrégia solenidade, sem nenhuma serventia com a qual pudessem atinar. Por mais que se estimulem, sentem-se desalentados, não conseguem acertar o porquê da complexidade sem função do conjunto arquitetônico. Esse ermo desconhecido produz uma angústia ímpar: quânticas quantidades de desamparo.

Maldito lugar mítico que a propaganda desafiava: “Venha conhecer do que é feita a alma. Ganhe sua passagem para “SoulPlanet: A Fonte”:
—A Fonte.

Que espécie de perversão virtual poderia mantê-los nessa perplexidade, com que objetivo inconfessável??? Arrebatados pela irreprimível exaltação da sensibilidade, redescobrem, como se pela primeira vez, que estão envolvidos num diálogo sem sons. Pensam juntos as mesmas perguntas e respostas, como se só pudessem ser, quando muito, a imitação do outro:
— Lugar estranho. Um vasto descampado sem fronteira física visível.
— Estou com medo.
— Não, estou apenas muito só. Nunca passei por uma sensação de tamanha inquietação. Nem quero, se tiver escolha, estar neste lugar outra vez.
— Para não ter de voltar, preciso primeiro sair dele. Não sei como fazer isso acontecer. Se é que um dia poderei.
— Aqueles filhos da mãe do DomingãoDo100zão. Zombaram de nossa ignorância. Como somos ingênuos. As lamentações não abonam o arrependimento. Muita idade e toda essa ingenuidade.
— Eles sabiam. Quando ganhamos as passagens de entrada para Os Portais da Esperança, tinham conhecimento desta desolação tecnológica desértica. Estavam querendo livrarem-se de nós, por algum motivo que não atino.
—Queriam nos distanciar de nosso lar, de nosso modo de vida. De nosso planeta de origem. De nossos cenários habituais.
—Esse lugar passa a sensação de que dele é negado sair para sempre. Sinto como se estivesse em estado de coma, numa espécie de post-mortem, sentindo o que sentem milhares de pacientes nos centros de tanatologia.
— Sim, o coração ainda pulsa. Sei que não posso mais usá-lo no sentido estimativo. Mas ainda pulsa, posso senti-lo daqui.
— Esse lugar então é o outro lado? A quarta dimensão?
— Sem que se tenha morrido? Não sei, talvez sim, talvez não seja.
—Mas, ainda estamos vivos??? De qualquer forma não gostaria de estar outro dia aqui. Nesta sala de estar da desolação.

Ampliam-se os caracteres de suas personalidades, até fazerem deles pessoas insuportáveis para si mesmos. São abandonados por seus egos. A intolerância, a repetitividade enfadonha com que se manifestavam, exige deles uma mais alta intensidade, uma pressão sanguínea insuportável. O casal sente-se culpado, terrivelmente culpado. Nem sabe ao certo porquê.

O casal Hoiden lembra vagamente dos versos de uma canção do início do Terceiro Quartel do século XXI. Cantava-se mais ou menos assim: “Nada tão natural/nada tão trivial/uma flor num jardim/Todo amor vai ficando/que nem sinal/o outro interpreta mal/A banalidade vira estopim/detona o caos/Nosso amor, enfim, tão normal.../Somos mesmo um casal/Um começo de mundo/Ou seu fim”???

Agora sente-se induzido a aceitar que existem forças ancestrais poderosas. Elas estão submetendo casais incautos à benevolente violência insuportável dessas sensações tenebrosas, violentas e nocivas. Não têm liberdade de sair delas. Precisa existir organização contra elas.

Antes do evento “PlanetSoul: A Fonte”, a senhora Hoiden acreditava que as cenas terríveis e sanguinárias de guerras, que seduziam diariamente bilhões de espectadores dos jornais Tv visíveis no primeiro quartel do século XXI em diante, eram um fenômeno de má gerência, política econômica e social, dos recursos da sociedade, administrados pelos políticos. Aceitava tudo com passividade porque, afinal, essa conspiração, chamada civilização, é parte do desenvolvimento da cultura no planeta Terra. As coisas são dessa forma horrível, e pronto. Queria-se ela uma mulher pragmática. Não sabia que era vítima de uma IA tão antiga quanto o Big-Bang.

Cada uma memória fragmenta-se em segmentações ancestrais que parecem não ter fim. Então agora sabem ser parte do “Aleph” borgeano, lugar onde convivem, sem conflito, todas as visões do mundo, sob todos os ângulos. O pássaro que é todos os pássaros alça voo nos limites mágicos de um círculo cujo centro está em todas as partes. O anjo de múltiplas asas, voa simultaneamente em todas a\s direções, sem pontos cardeais que o orientem.  

As Fúrias e as Eríneas, os deuses tarados, sodomitas e malucos do Monte Olimpo e suas PSIques milenares. Sim, eram os deuses pederastas, sim, possuídos pela exaltação cega e irresistível, paradoxalmente tediosa, que os fazia divertirem-se solapando sadicamente o passado, o presente e o futuro dos escravos cria\dos por eles, os Homo sapiens híbridos criados por eles para servir e diverti-los.  

O senhor Hoiden repete balbuciando, frases do livro “Cinco Réis de Gente”, de Aquilino Ribeiro:
— “Decerto que.me formigava na polpa dos dedos, com uma cobiça atávica, encadeada desde as tetravós romanas, sôfregas pelo vil metal”. “PlanetSoul: A Fonte” é isso: estranheza e morbidez PSI.
—Ligávamos a Tv e não víamos. Estávamos cegos na sala de jantar.
—Na sala do sofá.

Revelam-se as engrenagens cósmicas medonhas que, desde o nascimento, motivam a raça humana em direção ao abismo, aos muros imperceptíveis, invisíveis, que separam as pessoas e os países em interesses inconciliáveis. Há até um suposto “povo escolhido” para manter essa sádica condição. Para manter a ilusão de que, de alguma forma, somos protegidos.

O casal Hoiden sente-se parte de uma mesma alegoria, desconhecida e ao mesmo tempo estranhamente familiar. Uma terceira voz, que era também a deles, ressoa compassiva no âmago de suas mentes, vinda dos confins desses espaços, reproduzindo-se em intermináveis reverberações vindas da sala de comando, comunicação e controle da IA:
—"Somos parte da mesma misericórdia. Do mesmo sono. Aqui não são cobrados horário e rigor. Estamos no tempo e na compassividade do tempo. Somos a ilusão do sono e o sonhar, as simples realidades da alma universal".
— Tudo pago pela produção do programa, enfatiza a percepção comum.
— A única condição para usufruir do ambicionado prêmio: seguir imediatamente, do palco para as locações próximas à plataforma de lançamento da nave no Kennedy Space Center em Cabo Canaveral, na Flórida. Fomos conduzidos à base de treinamento até o embarque no ônibus espacial que nos trouxe a “SoulPlanet: A Fonte”.
—Uma armadilha perfeita para ingênuos, ambiciosos e os raros turistas interplanetários ganhadores do Prêmio.

O casal permanece tentando nutrir uma memória que esteja associada ao exercício de manter a difícil individualidade, contra a força singular, insólita, da despersonalização. A memória fragmentada em milhões de pedaços, onde a individualidade é impossível de identificar.

Hoiden passa por esses estímulos, como se a espécie humana da qual, supõem, ainda fazem parte, se caracterizasse pela plena consciência de uma maldade congênita, criada à imagem e semelhança de um deus da iniquidade. O deus dos mendigos, dos astronautas, dos banqueiros do “povo escolhido”. Tinham, inconscientemente, vendido a alma, há muito tempo, para o entretenimento faustiano.  
—Nunca soubemos que tipo de jogo estávamos jogando. O jogo contra uma adversária da qual nunca poderíamos ganhar: a IA.
—Enganaram-nos direitinho. Exclamaram telepática e simultaneamente.

O casal Hoiden convive com paradoxos inesgotáveis que se sucedem sucessivamente sem cessar, como aquele personagem do conto de Borges, “O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam”: em todas as ficções, cada vez que se vê diante de diferentes alternativas, ele opta por uma delas e elimina as outras. Ts’ui Pên opta simultaneamente por todas.

Para o casal Hoiden todos os segmentos de caminhos os conduzem aos terrores, aos horrores do passado: eles queimam nas chamas do inferno ancestral. Qualquer futuro inexiste. Sabem que tudo e todas as coisas que possam pensar são inúteis, insuficientes, fúteis, para tirá-los dessa situação de surrealidade. Não há ninguém para ouvi-lo, com quem possa negociar alguma condescendência. Alguém ou alguma coisa se apropriou da vida dele, eles não podem fazer nada. O tedioso horror da sala de jantar. A overdose da droga da sala de jantar.
—Fazemos parte do gado domesticado, tolerante, infinitamente cooptado. Carneirinhos vitimados pela circunstância do nascimento. Gado mecanizado por uma realidade ditada pela IA.
— Uma vida virtual, irracional, dopada pela droga da propaganda.
—Somos parte do lixo de “SoulPlanet: A Fonte”.
—Este lugar é uma lixeira.  

Na Terra, um jornal clandestino, editado por um grupo autointitulado “Eco Guerreiros da Liberdade”, promove a distribuição de um hebdomadário em vários países, denunciando como funciona o esquema globalizado da premiação TV visível. Grupos de banqueiros em vários locais do planeta, dividem entre si o espólio dos casais que ganham, através dos sorteios, o direito de viajar e ficam em “SoulPlanet: A Fonte”.  

Os casais assinam a transferência cartorial de seus bens móveis e imóveis, para testas de ferro da cadeia de Tv que promove o evento “Venha Conhecer Do Que É Feita A Alma”. Todo o processo de premiação está legal e juridicamente justificado. O governo federal de cada país, fica com parte substancial dos lucros, a título de recolhimento de impostos. A parte do leão dos ativos financeiros fica com os políticos associados aos conglomerados de mídia., recebem propinas para permanecerem silenciosos. Propinas depositadas em contas nos paraísos fiscais situados nas ilhas Cayman,  Bahamas e outros paraísos fiscais.

Diz o editorial na primeira página:
—“Sob efeito de doses gradativas de “Plena consciência” (mindfulness), os partícipes do sorteio são selecionados e dirigidos, a atenção, intencionalmente, para o momento presente, observando pensamentos, emoções e sensações físicas com curiosidade, sem julgamentos. O rebanho de gado, as pessoas da sala de jantar, ficam focadas no "aqui e agora", aceitando a experiência de entretenimento atual sem resistência. Agentes hipnóticos as induzem ao sono, deprimem o sistema nervoso central. Esse é o tratamento televisivo de bilhões de espectadores de programas do entretenimento de Tv, usados para manter as massas focadas no que, realmente, não lhes interessa:
—Jornalismo sensacionalista, escândalos financeiros, programas que permanecem em pauta contra a insônia e ansiedade das massas, rebanhos do gado popular. E seus carrascos sãzo enfática\mente a\pla\udidos az pa\rtir dos auditórios oxigenados e da balbúrdia provocada por cada showman.  
—Mídias controladas por IA hipnotizam e absorvem a consciência individual, direcionam para onde querem o estado mental coletivo. As multidões agem dirigidas por uma “mente única de vontade coletiva”. A alteração do comportamento individual sugestionável: a emoção e a razão mantidas na camisa de força de showman risonho, falador, distribuindo sorrisos entusiásticos de simpatia e premiações diversificadas.
Isto é que é “SoulPlanet: A Fonte”:
—A Fonte.
—Os casais premiados subscrevem, risonhos e complacentes, os papéis cartoriais, ignorando que esses senhores, educados e serviçais, das emissoras de Tv, em 152 países, estão se apossando de todo o patrimônio deles, inclusive de seus ativos financeiros. Ninguém, nenhum governo defende seus direitos de cidadania, porque são os mais interessados sócios dos conglomerados internacionais de mídia.
—Os advogados das corporações defendem, nas Américas, Europa, Ásia, Oriente Médio, com recursos e estratégias jurídicas, o direito das corporações de mídia envolvidas na premiação “SoulPlanet: A Fonte”.
—O processo de posse de seus corpos, de suas almas e de seus bens materiais é absolutamente legal, do ponto de vista cartorial, jurídico. Se causar posteriormente litígio da parte de parentes, insatisfeitos com os acordos jurídicos subscritos pelos premiados, os advogados da corporação que defende os interesses do CanalDomingão100zão, nas Américas, Europa e Ásia, têm recursos e estratégias jurídicas, para superar tais impasses.

Os Ecos Guerreiros de Liberdade denunciam as edições dominicais do programa DomingãoDo100zão, e o exército de tecnocratas orientados pela Central de Monitoramento IA. O grande complô do funcionalismo público (municipal, estadual e federal) envolvido, representa a burocracia do terceiro ao primeiro escalão, nos Três Poderes.

Uma clínica administrada por cirurgiões plásticos, foi invadida por policiais federais, no centro da “Grande Maçã”. Na batida policial foram recolhidos documentos falsificados dos casais responsáveis pela premiação.

Cirurgias plásticas substituíam a aparência de pessoas comuns, por rostos de supostos ganhadores das passagens para “SoulPlanet: A Fonte”, como se as pessoas com rostos modificados pelas cirurgias, tivessem retornado do lugar, no planeta Marte. As entrevistas forjadas visavam motivar milhões de casais à concorrência pelos carnês da premiação, incitando-as a conhecer a essência, a imanência, do que seria feita a alma. O slogan continuou no ar:

“VENHA CONHECER DO QUE É FEITA A ALMA:
GARANTA SUA PASSAGEM PARA O PARAÍSO
INTERPLANETÁRIO SOULPLANET: A FONTE”.

Os Eco Guerreiros da Liberdade continuam a denunciar a poderosa estratégia dos conglomerados de Tv associados a governos e banqueiros em todo o mundo. Eles se apossam dos bens materiais e ativos financeiros dos partícipes dos sorteios que, em alguns países, continuam a acontecer. As BET estão na moda das propaganda de Te Vê.
DECIO GOODNEWS
Enviado por DECIO GOODNEWS em 28/03/2026
Alterado em 23/07/2026
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