A HISTÓRIA FANTÁSTICA DE ESDRAS ESFELUNTES
A HISTÓRIA FANTÁSTICA
DE ESDRAS ESFELUNTES
TUDO COMEÇOU com uma passeata de aposentados e pensionistas do INSS. Eles reivindicavam ter de volta os valores que foram roubados deles nos esquemas de fraudes em empréstimos consignados, supostamente por eles, em milhares de contratos sem autorização ou conhecimento dos mesmos. O esquema de fraudes começou com descontos indevidos no pagamento dos salários. As parcelas dos empréstimos fantasmas, não solicitados, eram descontadas do, por vezes minguados salários, sem o consentimento ou desconhecimento dos servidores públicos.
Os golpistas usavam documentos roubados ou clonados visando obter crédito consignado. Eles movimentavam o dinheiro roubado dos pensionistas e aposentados, ao transferir os valores para as contas dos fraudadores, enquanto a dívida ficava com as vítimas. Os idosos aproveitaram a passeata de protesto contra O INSS/Banco Master para reivindicar também aumento nos salários das aposentadorias.
A passeada ocupou nove quadras na Avenida Paulista, num domingo ensolarado. A imprensa noticiou e mostrou grande pasmo pela iniciativa. Afinal, comentou uma jornalista, falando no programa noticioso da GloboNews, “Em Pauta”. À pergunta de Sandra Coutinho, seguiu-se:
— “Como foi que eles ganharam energia física, coletiva, para sair às ruas e compartilharem suas aflições, mágoas e angústias???
— Eles são idosos, mas não são velhos, comentou Flávia Oliveira.
— Eles provaram que idosos podem ser ativos, estão muito vivos e sabem, quando preciso, ser belicosos, ironizou o jornalista Demétrio Magnoli.
— Sem dúvida foi uma beleza brasileira de manifestação coletiva. O Brasil está muito vivo, está aí. Todos viram. Pena de mim não precisava. Comentou Ariel Palácios.
— O momento mais interessante, no dizer de Marcelo Lins, foi quando aquele idoso de nome esquisito, Esdras, Esféfé, és fé, és fé, como é mesmo???
— “Esfeluntis”, complementou Guga Chacra... Isso aí, disse Lins, ele começou o discurso dele dizendo, do alto do caminhão ressoou a fala:
— “Idosos de coragem não ficam no chão, nem querem que a politicagem dos Zé Manés venha lhes dá a mão, reconhecem a queda, e não desanimam. Levantam, sacodem a poeira, dão volta por cima”.
Aplausos dos Matusaléns na plateia da Paulista. Houve risos gerais, animado pela aceitação da fala, Esfeluntis continuou o imprevisível discurso que continuou a ecoar pelas caixas de som.
Na contagem dos órgãos de imprensa havia mais de 400 mil longevos. A PM divulgou um total de 40 mil pessoas.
Os idosos estavam realmente revoltados com a falta de poder aquisitivo de suas aposentadorias, dos salários quase sem dinheiro. Esdras pontuou o discurso sob certa expectativa:
— "Descobrimos afinal, meus caros amigos, que podemos conseguir algumas coisas quando unidos. Sozinhas, nossas ideias e ideais são frágeis folhas de outono conduzidas sem rumo ao sabor do vento levou".
Quem conhecia Esdras não esperara ouvir dele nenhuma proposta inusitada. Algumas pessoas de seu conhecimento se perguntavam:
— Por quê, logo ele, pediu a palavra???
— É, Esdras normalmente é de falar pouco.
— "Por que temos de implorar para fazer valer nossos direitos??? Por que não são reconhecidos naturalmente pelas instituições que deveriam nos proteger??? Estamos sempre empenhados em lutar contra injustiças, mentiras e excessivos privilégios de poucos que sentem prazer em nos escravizar. Por que sentem prazer em nos humilhar"???
O discurso ganhou certo interesse surpreendente na plateia:
— "Mesmo agora, depois de aposentados, temos de vir às ruas clamar pelo mínimo. Por que até o pão, o feijão com arroz, e o café com leite nos é roubado??? A picanha e a meia cervejinha querem que nos falte. Por que temos de nos contentar em ser sistematicamente satanizados"???
— Aonde está querendo chegar o Esdras, meu Deus do céu”, comenta uma senhora dirigindo-se ao marido ao lado.
— "Vamos exigir mais, recuperar mais. Muito mais que migalhas materiais. Vamos contestar a injustiça mais vil de todas, aquela que nos lança na sórdida incerteza da mortalidade".
Desta vez ouviram-se sorridentes zombarias abafadas risadinhas. Incontidas, sorrisos amarelos, e interjeições de surpresa pipocaram na multidão:
— Que quer ele dizer com isso???
— O Esdras pirou??? Que que é isso!!!
— Ingeriu quantas doses a mais???
— Ele nem mesmo é alcoólatra. Só bebe leite ninho com açúcar.
— "Não compreendem? Emociona-se Esfeluntis, unidos podemos mudar a história, impedir o declínio de nossas vidas. Quem estará contra nós na greve geral contra a morte"???
A multidão aplaudiu, como se estivesse levando a sério.
— Chega de morte, diziam alguns.
— Abaixo a sinistra, gritou alguém.
— Queremos viver: viva a vida, disseram outros.
Em poucos dez minutos começaram a aparecer cartazes com slogans nunca vistos antes em movimentos sindicais, ou aglomerações coletivas de ruas. Os meios de comunicação marcaram presença. Fotógrafos, jornalistas curiosos e as câmaras dos jornais Tv visíveis mostravam certo interesse.
Aquela estranha intervenção do Esdras poderia gerar alguns segundos de notícias a mais, numa reportagem dos jornais noturnos. O faturamento por minuto de propaganda poderia aumentar nas emissoras. Os programas de mesas redondas, com comentaristas das diversas alas partidárias e opiniões conflitantes, aumentariam o índice de audiência.
A reivindicação Esfeluntis, em pouco tempo de divulgação se tornou nacional. Em alguns dias, da Global de Milão, na Itália, surgiu o refrão:
— "Mudará, mudará a nossa sorte. Não queremos, não queremos mais a morte". Não queremos, não aceitemos mais a morte.
O protesto ganhou mundo via noticiários. E um “site” na Internet: “Morte, a Aziaga, Nunca Mais”.
Idosos de todos os lugares que há alguns dias passa\dos mal podiam andar, dançavam agora, em plena rua, ao som de músicas estilo “trench-town” e “rock paulisteria”. Nos hospitais, doentes terminais, levantavam-se como se movidos por inusitada e misteriosa energia, magicamente revitalizados. As farmácias e os abrigos da terceira idade foram perdendo clientes. A indústria farmacêutica, que vive de doenças, preocupou-se.
A indústria e o comércio de produtos geriátricos faziam promoções com descontos absurdos, de até oitenta por cento no preço dos genéricos, na esperança de terem seus consumidores de volta à caixa registradora.
As empresas funerárias fechavam as portas por falta de mais clientes. As 150 mil mortes diárias, caíram um terço, para 50 mil. Os quase moribundos saíam dos leitos pedindo uma birita para abrir o apetite, e devoravam iguarias refinadas, ou simplesmente feijoadas, picadinhos à paulista, mãos de vaca, tutus à mineira, angus à baiana, churrascos à gaúcha, ou buchadas de bode, conforme os condicionamentos alimentares regionais. Os Matusaléns revigoraram-se e adquiriram novas forças. Era impressionante.
A morte, flagrada num banco de uma pracinha de subúrbio, de madrugada, procurava, em vão, lê a página dos obituários, sob a luminescência precária das luzes da pracinha. Nenhum anúncio de mortos. O obituário estava fraco. Dia seguinte a sinistra pagou uma agência de publicidade para criar uma mensagem de página inteira, publicada nos principais jornais, cancelando seus ruinosos compromissos por trinta dias.
Em São Paulo conhecido político demagogo, para obter votos dos eleitores com mais de setenta anos, prometia em campanha eleitoral, um virtual metrô especial: "O fura avenidas matusalêmico", com horário só para os idosos que se estendiam até as quatro da manhã. Enquanto isso, os jovens universitários se mobilizavam no sentido de impedir que “essas malditas criaturas, cheias de cãs”, prosseguissem impedindo a natureza de cumprir suas determinações naturais. Até a teoria da evolução de Darwin, por várias vezes foi invocada.
Os jovens dissentes da União Nacional dos Estudantes, através de sua liderança maior, alegavam que eles tinham direito à chance de sobreviver, ter empregos e se reproduzir. A competição por empregos e recursos estava se tornando insuportável.
Alegavam os supostos mancebos, que a população cresceria horrores, não haveria recursos naturais capazes de alimentar toda essa gente ancestral. Os haveres do Estado, em franco processo de escassez, estariam em vias de decretar "Estado falimentar", devido a inflação de pessoas idosas, cheias de vitalidade e concorrendo com suas vagas de emprego no mercado.
Um programa de debates Tv visível marcou data para uma mesa redonda com representantes dos dois grupos. Na porta da emissora alguns jovens agitavam faixas com dizeres:
— “Gagás FDP, vão se danar”.
— “Vão queimar no inferno”.
— “O capeta está sentindo a falta de vocês”.
— “Parem de viver, agora é nossa vez”.
Esfeluntes, meio desanimado, tentava levantar o moral dos companheiros, que, com suas faixas repetiam os “slogans” contra a Senhora da Foice.
Mas aquele pessoal bem vestido, roupas de grife padronizadas, tênis com tríplice palmilhas acolchoados, alguns visivelmente drogados, outros barbudos, cruéis, bonitinhos, mas ordinários e malvados, porém impetuosamente jovens, queriam as coisas como sempre foram. Eram conservadores por opção de sobrevivência. Eles acusavam os aposentados de pretenderem esvaziar os recursos públicos com o pagamento prolongado de aposentadorias. Acusavam-nos de inflacionar o mercado de trabalho. Eram moços, tais mudanças entravam em conflito com seus interesses de ofertas de trabalho.
A Ceifeira aproxima-se, curiosa de uma movimentação de grupo. Esfeluntis, chamando-a respeitosamente de Senhora, estende-lhe os braços enquanto abre caminho em meio ao grupo ouriçado de estudantes. Aproximando-se dela, da Sinistra, ele pede. Ou melhor, implora:
— "Por favor, leve-me daqui".
Nesse momento a Aziaga estende-lhe o braço direito e o corpo de Esdras parece, aos olhos estupefatos dos presentes, esticar-se em direção a ela, como se fosse de elástico. Logo depois se distanciou, sumindo numa luminosa esteira em direção às nuvens. A vida, os sonhos, a carne ilusória da rotina: tudo e todos eles voltaram ao hábito condicionado da normalidade. Ao procedimento habitual.
Pouco depois, uma senhora sexagenária, com ares de simulada preocupação, comenta com um senhor ao lado, provavelmente o marido:
— Mudar algo nesse mundo, é mesmo muito difícil. Ao que o cidadão em resposta, pergunta: — “Meu Deus, aonde estará o Esdras agora”???!!!
DECIO GOODNEWS
Enviado por DECIO GOODNEWS em 22/03/2026
Alterado em 22/03/2026