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CONTINUUM
CONTINUUM

Maíra, descalça, caminha sobre a areia úmida em direção à pousada. São três quilômetros. Sem pressa, em menos de uma hora chegará. Nove e trinta da manhã, sábado nublado. Raios mornos de sol abrem uma brecha de luz nas nuvens. Seu corpo jovem é aquecido na parte superior do tronco. Os seios levemente aquecidos.

Muitas coisas passam em sua mente. O raciocínio ligeiro, como se quisesse sair das mandalas da subconsciência. A situação inusitada. Poderá solucionar essa coisa que a sobressalta??? Trazer-se à paisagem visual da praia, decifrar o enigma. Cainhar despreocupadamente, ajuda. Certamente não é grave estar grávida. Por que se sente culpada. Tensa. Pressionada por culpas antecipadas pelas quais será, certamente acusada ??? Como Lucas, o pai da criança, aceitará isso??? Vai assumir a cria, sim. Não vai Sair fora.

Não vai faltar quem diga que deve abortar. Esse negócio de parir é tão antigo como Eva. Muito mais arcaico ainda. Parir existe desde os confins dos tempos mais antigos. Recusa a si mesma fazer drama. Querendo Lucas, ou não, a criança vai nascer. Após três meses de gestação, não vai abortar.

Existe, vive, vai nascer e fazer nascer, futuramente. Essa, a lei da vida. A praia deserta exceto pela conversa consigo mesma. Sente-se empoderada pela responsabilidade. Ela agora sabe, pode mandar na própria vontade, no corpo.

Como é boa e suave essa sensação de estar sozinha até onde alcança o olhar. Estar prenha. Ir até os nove meses. E depois saber como vai ficar sem apoio, possivelmente, de ninguém... Está pronta para rebater a rejeição da mãe, da irmã, do irmão.

Mãe solteira é dose. Deixa sangrar. Criança não é brinquedo, desde cedo as exigências: chora, come, sorrir, conquista, suja fraldas, pode adoecer, gripar, achaques do bebê, sentir dor, vacinar no posto médico. Precisa de teto, educação, carinho, recursos para crescer. Vicejar. Ter força.  Uma companhia. Alguém para quem se dedicar. Vê crescer. Dedicar-se.

Quer ser mãe, tem direito, faz parte da natureza, está curiosa. Quer saber como rola essa coisa de embarrigar. Ter na intimidade do corpo alguém estranho com quem vai conviver na intimidade do se desenvolver. Um ser nascendo dela. Que tipo de espírito na criança vai-se aconchegar??? Uma alma desconhecida, talvez imprevisível. Desenvolver, ficar maior que ela. Sim, depois, por que antecipar??? Depois é depois. Medo da solidão.  Alguém para lhe acompanhar. Pegar pela mão. Gostar. Quem sabe também ser gostada. Amada até. Tudo é possível. Vai saber.

Quer se convencer a se aceitar. Aceitar-se. Sentir-se menos só. Ter a quem se dá. Ceder. Doar-se. Pegar no pé. Aborrecer-se.
Fazer deslisar a palma da mão na cabeça, no rosto, nos ombros. Mamadeira. No crescente da idade, passar mais tempo até saber como vai ser. Pentear, lavar, enxugar prestar atenção. O depois sempre há de chegar no tempo certo. Amanhã, ninguém controla como as coisas vão ficar. Alguém por quem zelar, acompanhar nessa viagem pelo mundo.  Estar ao lado, chamar pelo nome. Será Carlos ou Joana??? João ou Mariana???

Estar dentro da vida, sem noção do que vem depois. Quer alguém pra cuidar. Ligação de estar no mundo dos corações solitários. Amparar. Sente-se demasiada, empoderada.  Sente antecipadamente a realidade da criança. Já está a imaginar pegando-lhe pela mão. Como vai ser na real. Esse percurso daqui a mais sete anos. Olha para ela, a filha, ao lado. Sorrir.  Os pés descalços molhando no aquecido das ondas ainda espumando. Voltando para a maresia tornar.

As nuvens apostam corrida. Os raios de sol surgem na memória daquele dia. Longínquo. Recordações. Fazendo cumprir a lei do eterno retorno das idas e vindas da memória. As imagens não esquecidas. Aquelas lembranças que mantêm viva a ferramentas da vida. O vento sopra, vem de onde??? Vai para onde??? Em qual direção a vida da criança vai seguir, rimar???

Quais lembranças ficarão enquanto existir esse memorial solar, esse sal. Olha a maresia. O branco das ondas. Os bancos de areia. A fermentação agitada da espuma. As bolhas na água desaparecendo na areia. Um corpo cresceu tanto, do ontem.

As bolhas de sal pipocam na margem do grande oceano. Os passos aquecem os pensamentos. Balbucia lembranças sem achar ritmo na fala. A cadência do pensar é rápida, irmana, mas não pode mantê-la senão até o final dessa jornada. A boca quer falar mas não acompanha a cachoeira das metáforas na tela resiliente da mente. Os nascimentos rápidos das ondas que vêm e vão. Maíra, essa extensão ao alcance da mão. Mãos dadas, no tempo da praia. Esses passos. Como se fosse ontem.

(At.: A ideia deste conto surgiu ao me lembrar dos tempos de estrada, quando me deparei com uma adolescente grávida. Ela caminhava entre dois lugares na região de São Pedro da Aldeia, interior fluminense. Segurava duas sacolas de pano pelas alças. Pareciam pesadas. Sugeri acompanhá-la, dividir o peso do fardo. Aceitou. O lugar ermo. Na conversa o volume não mais pesava. Caminhávamos na areia fina, de repente surge da vegetação, uma garota, sua filha, apesar da idade pouca da mãe. Seguimos a canção das ondas. A maresia em movimento. Envolvimento. A surpresa do desvendar a paisagem do lugar interno e externo. Descobrir o desconhecido descobrindo o desejo na paisagem. Na idade, acontecimento inusitado).
DECIO GOODNEWS
Enviado por DECIO GOODNEWS em 21/03/2026
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