BODAS VINTAGE REPTILIANAS
BODAS
VINTAGE
REPTILIANAS
A noiva estava bela, vestida com tecido Tela Imperial/Fishnet, tecido do inovado vestido, no padrão de “furinhos” de noivado no formato de diamantes. Feito de fibras sintéticas spandex para maior elasticidade, resistência e durabilidade. Um tecido leve de visual moderno e ousado, transparente, um toque sensual e despojado. Glamoroso e fascinante visual.
— Querida, disse o noivo, você motivou minha vida. Antes de você eu invejava quem namorava uma alma gêmea. Com você reencontrei a ficção feliz na realidade do casamento.
Neste mesmo momento ouviu-se uma voz engasgada, presa, perturbada, a dizer, vinda da sacristia da pequena ermida, onde o padre guarda os paramentos: uma arara, que nem um papagaio, falava:
— “Parabéns paisano, vale tudo no ânus. Craaahahah, Quackre, Craaahahah”, fraker, crahaque”.
O sacristão enrubesceu. Ele havia comprado a ave na feira, preço módico, para presentear o padre que oficiava na paróquia de Nossa Senhora dos Partos. Não sabia, nem de longe, que o bicho falava coisas pouco edificantes. Monsenhor estava de aniversário, completava 69 anos. Ele caminhava em direção ao altar, mas voltou-se surpreso ao ouvir a ave falar. Desviando os olhos da sacristia, caminhou em direção à liturgia. O noivo, elegante e perfumado, querendo agradar a escolhida, responde à pergunta do padre: — “Sim, eminência”. Mais que tudo mais na vida.
Nesse instante um jegue soltou zurrado alto e longo, como se estivesse zombando do sagrado evento. O zurro do brito durou um tempão e se repetiu duas, três, quatro vezes. Quando todos tinham certeza de que o jegue tinha parado de surtar, ele começou a zurrar outra vez, com a mesma disposição de antes.
Madona Aldenora, mãe do distinto noivo, a custo não conteve o riso e ao mesmo tempo a vergonha do vexame. O burro, mostrando acintosamente os dentes, parecia estar em surto, não parava de zurrar, escoicear, talvez numa crise de vera felicidade sem explicação racional. Exceto pelo mal-estar que causava. Ameaçou recomeçar a série de zurrados, mas seu Mundico, tio da noivinha e zelador do patrimônio da fazenda, tinha pegado um cipó de ayahuasca e lenhava no lombo do bicho com vontade de tangê-lo o mais para longe possível. O burrico, escoiceando e peidando, bicho esconjurado.
— Toma tento, criatura, se acalma animal dos infernos, para com esse bafafá, estrupício. Mundico tangeu o animal para longe da capelinha onde se casava o casal, agora, um tanto quanto agastado.
Após a cerimônia nupcial, o casal e o núcleo do evento festivo se posicionaram num cercadinho enfeitado de flores, fora da capela, donde recepcionavam os convidados. Dali atendiam os convivas e seus presentes. Para cada conviva, uma rosa vermelha perfumada artificialmente com odores de Chanel Five.
O quintal do casarão fervilhava em festividade. Os pais de Daniela, a noiva, apartaram, com a ajuda de dois ou três peões de galinheiro, a baderna que um filho de uma égua causou ao espalhar o boato de que a noiva não era mais aquela. A dupla sertaneja “Xôtãozinho & Procotó”, vendo tudo de longe, parecia estar divertindo-se, sentada numa mesa próxima ao palco montado para o show musical em homenagem aos convidados.
Um cavalo preto, chamado Afrodescendente, apareceu em meio às mesas frente ao palco, galopando, desembestado. De quando em vez parava o galope e escoiceava o ar, como se estivesse com ciúmes da atenção de todos para o casal cerimonial. Estaria sentindo-se excluído??? Pouco tempo depois o animal, a escoucear o ar, foi contido e levado à baia da qual se distanciara. O bicho exibia, para o desconforto das famílias supostamente conservadoras presentes, o enorme pênis vascular desembainhado. O tônus erótico do garanhão não ficava flácido facilmente. Algumas madames, admiravam o pênis do bicho com as mãos levadas à boca, outras tapavam os olhos em atitude de pasmo envergonhado.
Os relinchos intermitentes finalmente pararam quando a dupla sertaneja “Cabritinho e Carijó”, começou a cantar, programada para anteceder a apresentação de “Xotãozinho & Procotó” e da dupla “Matraca & Matriarca”. A dupla ocupava os microfones enquanto os amplificadores levavam o som dos músicos para os confins das mesas dos convivas mais distantes do palco. Marília Mendonça seria a próxima na programação.
Seu Mundico, zelador do sítio, zelava pela saúde dos animais de quatro patas, aproximou-se de Tarik, o Afrodescendente, e o acalmou com palavras berradas de repreensão, e ao mesmo tempo de alento, como se ele, trata dor, soubesse o que havia causado essa mostra de inquietação e fúria no corcel. Havia um código de comunicação entre eles: o cavalo e seu trata dor. O corcel Tarik, uma vez acalmado, seu Mundico pode laçar o animal, encabrestá-lo, e sair da proximidade do palco ao ar livre, continuava a dialogar com ele, ainda parecendo repreendê-lo, enquanto caminhava a puxar firme o cabresto.
Madona Aldenora sempre a observar as conversas do trata dor com o garanhão, buscava, mais que ouvir, assuntar, aprender como Mundico fazia para ser ouvido pelo animal, como se as conversas entre eles tivessem uma afinidade que ela não conseguia explicar: Aldenora assuntava a comunicação, a prosa de conversa telepática, que parecia haver entre eles: os cavalos e Mundico. A amizade entre ele e o garanhão Branco não passava despercebida de Aldenora, lhe parecia ainda mais íntima, cordial e estranha.
No momento, ela tinha de prestar atenção no desenrolar da celebração do casamento do filho: a receptividade, os convivas, as badalações distrativas, as conversinhas de pé de ouvido entre as comadres e a parentela da noiva, agora mulher de Miguel. Ela queria prever, mas não previa totalmente, os desdobramentos do casamento, até a lua de mel. Aldenora facilmente se entranhava na alma do filho, aprofundando-se nos sentimentos dele.
“Lua de Mel”. Essa pronúncia ecoava longe, na profundidade distante do psiquismo mais longínquo dela. A noiva de seu filho dele se apossara. Ela, que o carregara por nove meses no ventre e o criara, não teria mais como tê-lo sempre perto, na intimidade dela para consigo mesma. Ensimesmada, ela guardava certa mágoa por ter sido trocada por outra, pela noiva. Mesmo sabendo que, com o passar dos anos, o amadurecimento teria de levá-lo para longe dela. “É, são coisas da vida”, murmurou de si para consigo mesma.
Madona Aldenora pensava: de alguma forma ela também era a noiva, a mulher nobre que parira o filho e merecia dele toda dedicação. Sem ela, ele não existiria. A melhor vitalidade dele, deveria ser dela. Deveria ser dela o big-gang orgasmo da noite de núpcias. Lembrou-se da amizade entre Mundico e o corcel Branco. A transmissão telepática que os unia nas conversas na baia, ou quando o montava no passeio matinal. Ela estava a assuntar na cavalariça subjetiva de sua mente de mãe e nubente. Mas ela sabia, não poderia ser a esposa sempre ao lado do filho. Mesmo sabendo que, onde quer que ele estivesse, sempre seria ele, o menino dela. O homenzinho dela. Sempre por ela rastreado. Sempre por ela dominado em suas percepções de mãe, mulher dedicada.
Não haveria na mente de Aldenora paz, nem céu azul, se o produto da criação dela, o filho, o noivo, o marido, não pudesse satisfazê-la, mais e melhor, do que a qualquer outra fêmea. Ela, a mãe, ela, a noiva, ela, homenageava, desde sempre o nome do deus Alden. Ela, a mais nobre das mulheres da família dos quatrocentões: seu nome tinha peso social, econômico, político: Aldenora Leme do Prado Furquim Almeida Castanho Freitas Cunha Gago, herdeira, por parte de mãe, dos Dias Arruda Botelho.
Ela se julgava a mais nobre da espécie. Elas, as outras, nunca poderiam usufruir do lugar memorial no qual se encontrava. Agora. Aqui. Nos confins significativos da libido, da percepção aberta em sua mente, no portal ancestral do tempo perdido, proustiano, ela vivia dele, no tempo supostamente glorioso do passado. Aprendeu, com leituras absorvidas de Proust, a memorizar-se.
As pessoas, os convivas, as autoridades judaicas, jurídicas e políticas, as demais mães e suas filhas, falsas sibilas, sem o poder da profecia, do conhecimento e da iniciação que ela, Aldenora prezava. Ela observava as mulheres viventes no mundo supostamente casto da contenção, da miúda mente da burguesia que se queria herança da realeza europeia, realeza dos piratas vindos nas caravelas e fundadores da monocultura do café.
A hipocrisia plugada na fixação das ventosidades silenciosas. A criação das condições para o surgimento do ser esconso, oculto nas mentes, pesquisado na ciência oculta dos doutos, badalado no silêncio e na gnose dos cultos ocultos da tradição, pertencentes à erudição da ordem dos estultos. Esse ser, filho dela, Aldenora, saído, a tantos mil anos se reproduz de suas entranhas emprenhadas pelos Caídos, no mundo físico do armazenamento na nuvem de sua mente. A tecnologia dos aflitos não teria, nunca, acesso à memória imemorável dela. Ela, fêmea no convívio de anjos deprimidos, seres celestes, de notação histórica bíblica.
Seu Mundico, o cavalariço. de seu pequeno mundo pessoal, espreitava a ânsia dos que vinham de outras cidades. Pareciam sempre atazanados, partícipes da alimentação antropofágica do tempo, pareciam devorar a passagem das horas, o latido dos cães raivosos, ávidos por posse, por ter mais e mais e mais. Seu Mundico acreditava encontrar-se num lugar de calmaria, donde podia exercitar a percepção do 3° olho. A partir dele, a todos via e ouvia, sexto sentido aguçado, talvez pela telepatia com cavalos, com quem se comunicava no silêncio e na azáfama das baias na estrebaria.
Nas baias separadas da cavalariça estava a presença insubmissa da mais natural das tecnologias primitivas, intuitivas: a força arrasadora dos nervos, dos músculos e do físico, do espírito insubmisso desse animal, Grano, o Cavalo Branco, que lhe segredava segredos do insuspeito mundo das mulheres humanas. A imaginação e a memória de Aldenora reveladas no trato com equinos lhe revelava muitas coisas. Os equídeos eram telepatas emissores. Ele, seu Mundico, um telepata receptivo. Também emissor de mensagens em direção às mentes equinas, com as quais mantinha diálogo.
Grano, lhe tinha dito que Aldenora guardava no mundo, quase inacessível para a maioria das mulheres de seu conhecimento, a memória milenar dos relacionamentos físicos com os Caídos que deram origem aos Nefilins. Ela se julgava uma mulher humana com acesso ao tempo bíblico citado em Gênesis, Números, no Livro de Jó, no livro apócrifo de Enoch e em outros alfarrábios. Manuscritos em sumério e hebraico. Sua memória prodigiosa a conduzia em meio ao tempo longínquo, à sexualidade daqueles povos.
Os Nefilins, seres antediluvianos, que um dia dominaram terrivelmente a Terra habitada por elas, mulheres humanas cooptadas. Elas, as fêmeas humanas eram facilmente sodomizadas por eles, como se fossem animais, brinquedos abusados, por nefilins com força física de cavalos. Os machos humanos, nem de longe, poderiam competir com eles, eles, eles filhos dos Anjos Caídos com madonas terrenas. Aldenora, no fundo de seus quereres, ainda guardava a memória daqueles seres. Com uma dose cavalar de sadomasoquismo nas emoções desumanas, nos nervos.
A memória milenar da posse de seu corpo desejoso e indefeso. Como poderia reagir à pegada desproporcional deles, filhos dos Anjos Caídos??? Deles, filhos gigantes do conluio bestial entre Anjos Ets e fêmeas da espécie humana. O Grano, inquieto na baia, dizia, diretamente à mente do tratador, seu Mundico, por meio de entranha forma animal de telepatia, que a memória de Aldenora desses eventos, anteriores ao Grande Dilúvio, voltava a surgir em seus momentos de fruição erótica da relação sexual presenciada por ela, entre cavalos e éguas no cio.
Aldenora adaptara a memória daqueles eventos bestiais entre os filhos de Anjos Ets Caídos, com mulheres humanas, à sua própria realidade de mulher sedutora e seus desejos intrujões. Sedutora e fêmea, à revelia deles, se servia, desses seres humanos, tão menos eroticamente capazes. O desejo sexual nela se acentuava, quando sentia as mensagens telepatas do Grano, o Cavalo Branco, ganhar sua mente e inundar seu corpo de um desejo mórbido e desproporcional, advindo dos tempos antediluvianos. A telepatia emissora do Grano, lhe dizia, na quietude dos rápidos relinchos, que ela lembrava da posse dos corpos das mulheres antediluvianas, posse de seus corpos indefesos, diante da investida desigual dos Nefilins e seus órgãos sexuais não mencionados no Livro de Enoque.
Grano em sua baia, esperava tranquilo o momento de realização maior da mágica façanha desejada por Aldenora. Ela se imaginara sendo possuída pelo membro ereto de 50 cm do cavalo. Seu filho que se unira na cerimônia de casamento com a noiva Angelita, singela donzela, não tão virginal, estava longe de saber que seu noivo tinha sido produto do sêmen e da mórbida relação sexual dela, Aldenora, com o garanhão Branco na baia, numa madrugada chuvosa e sombria, apesar dos relâmpagos e trovões que assombraram a herdade, lá estava ela, excitada perto dele. Talvez fosse seu filho, filho do esperma recolhido do garanhão, talvez apenas em sua distorcida imaginação. Grano, realmente, não a emprenhara???
A herança das memórias ancestrais por ela preservada nos confins de sua mente inconsciente, talvez tenha originado a peste do “vírus emocional sodomita” que assola a espécie sapiens desde seus mais longínquos ascendentes ancestrais, os Nefilins. Os Anjos Ets Caídos, teriam sodomizado também os filhos do sexo masculino das mulheres que com eles coabitaram. A espécie Homo sapiens ainda paga por seus desregramentos anciãos.
Aldenora tinha em mente que os judeus do Templo de Salomão, administravam um portal para demônios e sacerdotes satanistas, descendentes dos sodomitas escravizados, por quatrocentos ânus, no Egito. Eles e os negros negreiros, por trezentos ânus sodomizados pelos senhores e feitores da Casa Grande, são seus mais característicos descendentes e sucessores. Herança cultural ancestral dos Nefilins, Aldenora se tinha como sendo uma Sacerdotisa da Serpente Narciso de um culto originado, saído das mulheres de convivência com sacerdotes do Templo de Salomão.
A festividade do casamento parecia envolvida num circuito de eventos bizarros, a começar pelo momento em que o padre terminava a cerimônia de casamento, ouviu-se a voz, outra vez engasgada, presa a uma pronúncia cava, quase afônica, que parecia ironizar o sagrado ofício litúrgico, a repetir:
— “Parabéns paisano, vale tudo pelo ânus... Craaahahah, Quakreka, Craaahahah,”!!!
— “Sim, eminência”. A pergunta à noiva fora respondida, mas não sem um senão de vexame e perturbação em meio à cerimônia. Para completar a vexação, ouviu-se o zurrado intermitente do brito, com uma disposição e fôlego dos diabos. Disposição contida com o cipó de ayahuasca de seu Mundico. O brito, vergastado, saiu pulando, escoiceando e peidando alto, na proximidade da ermida onde se realizava o casório. A capela da Fazenda estava lotada de convidados. Não poucos, a muito custo, contiveram o riso.
O cérebro reptiliano de Aldenora convocava e conversava com o cérebro límbico dela e dizia: “uma mulher, uma fêmea humana ou não humana, nasce para ser Sacerdotisa da Serpente Narcísica da Criação”. Um macho humano nunca teria como seduzir uma mulher da satisfação insana que delas fazia brotar a penetração uterina e anal de um Nefilim. Um Nefilim poderia chegar a cinco metros de altura. Ela pensava: “qual a dimensão de seus pênis”??? Nem o Livro de Enoch mencionara essa informação. Mas ela, mórbida mente imaginava estar sendo penetrada por um dos filhos dos anjos caídos.
Grano, na baia havia capturado a memória ancestral de Aldenora. Sabia ele de suas necessidades mais esconsas, dos pensares que mais a afligiam. O que ela escondia nas reentrâncias de seu cérebro agitado, reptiliano??? Ele, Grano, o Cavalo Branco, sabia.
O transtorno maníaco-depressivo de sua própria alucinação, Aldenora buscava controlar. Ela pensou naquela mulher alegrete, aparecida na Tv visão: sempre animada, agradável, simpática, de sorriso largo, uma verruga no meio da testa, parecendo sempre mexida e estimulada, animada por estranha e íntima alucinação, como se fosse uma marca registrada da sua 3ª Visão. Sem saber por que, a memória empática mudou o paradigma, no pensamento mais interiorizado dela.
Aldenora olhava, na festa, com certa admiração, a figura da atriz sempre risonha, de vera promiscuidade gratuita, assanhada, safada. Por quê??? Ela se perguntava. Seria porque ela, ocasionalmente, a viu no Bigbrother da Globo e se impressionara com sua exagerada entrega da mulher de programas que ela era??? Da mulher sem freios que ela, Aldenora, sempre desejou ser???
De repente ela, Aldenora, mudou, outra vez, o paradigma do se pensar. A atriz do sinal na testa tomara assento entre os convivas na mesa das autoridades onde, do vereador ao governador, tomaram assento os supostamente ilustres convivas na comemoração matrimonial.
As realidades se misturavam na tela mental perturbada dela. Por mais que tentasse controlar os acontecimentos da festa, os eventos menores surgiam e perturbavam o bom andamento do que seria normal ocorrer na celebração. As memórias sobrepostas a inquietavam. Na simples aparência, ela parecia imperturbável. Mas, as circunstâncias festivas não permaneciam em curso de normalidade. Coisas estranhas aconteciam não apenas em sua percepção, mas também na realidade existencial dos eventos festivos.
O pênis vascular ereto de Tarik, o cavalo afrodescendente, a desfilar frente a mesa dos convivas, indicava que algo estava errado no geral dos acontecimentos. O orgasmo do Grano a lambuzar a entrada e os arredores de sua vagina, na madrugada por ela memorizada nove meses antes do nascimento do filho, a anamnese recorrente dos Nefilins, as memórias se mixavam em seus pensamentos, tentando harmonizá-los.
As pessoas que a rodeavam eram necessárias, mas também a perturbavam. Talvez ela estivesse sendo tomada pelo “efeito manada”: muitas pessoas juntas perturbavam as demais outras mentalidades. Por trás dos sorrisos simpáticos e da descontração geral promovida pela ingestão de cervejas e do whisky, Grano, mensageiro telepático dela, estava a fortalecer a rebeldia em sua interioridade.
Aldenora achava brechas nos momentos da festa, para manifestar a veracidade da alma perturbada. Ela teimava em fortalecer presença. O significado de seu nome estava a cobrar dela uma inquietação inusitada: “aquela que vive de sonhos”. Mas, quem não vive de sonhos??? A própria matéria é feita de sonhos. Por vezes, preciosos sonhos, pensava ela.
Mas, a sensação comunicada a ela pela mente telepática do Grano lhe dizia, com poderosa insistência: “a festa é uma armadilha”. Suas culpas a atemorizavam. A antiga, obscena, impiedosa e persistente sensação reptiliana de nostalgia não lhe dava trégua. Não, não poderia a ela se abandonar. Decisões inconscientes poderiam advir daí, ela poderia perder o controle do que estava por vir. A afeição persistente pela memória do passado mais remoto causava insônia e perturbações. A manifestação imemorial dos Nefilins. A aparência antiga e reptiliana dos convivas, como se eles, sem querer, estivessem a revelar suas verdadeiras faces. Os arquétipos mais originais que dominavam o psiquismo deles, sem que soubessem, para ela eram visíveis.
O governador mantinha um sorriso que traduzia a supremacia de um réptil. A visão penetrante de Aldenora a fazer aparecer a real idade por detrás da aparência rejuvenescida artificialmente pelos caros cosméticos. A realidade manicomial dos convivas revelava-se por trás da máscara facial de suas formas inumanas, reptilianas. Ela se questionava. Não havia ingerido nenhum alucinógeno. De onde vinha esse superpoder de ver o que as pessoas estavam, inconscientemente, a esconder??? Certamente tais imagens eram geradas na mente telepática do Grano. A poderosa telepatia do Cavalo Branco!!! Só podia ser, questionava-se ela: sua mente dominada pela mente de um equino.
Seria essa realidade destorcida uma emanação da mente do Grano??? Ela se perguntava, mas não achava resposta adequada. Todas essas pessoas eram personagens de uma realidade proveniente de dimensão outra??? Entidades não humanas estariam a se manifestar no esconderijo da aparência física humana??? Estavam essas pessoas vendo o que ela estava vendo??? Por que a visão dela ultrapassava os limites das aparências, e a visão dos convivas não??? Estariam também eles vendo o que ela via???
A área reservada aos políticos parecia a mais animada. O governador se aparentava um réptil de dissimulada aparência disforme e malcheirosa. O sorriso largo tinha a intenção de abrandar e disfarçar a real e odienta intenção do disfarce reptiliano. Seria ele um Androide híbrido Et, a se esconder por detrás da aparência humana??? A orgulhosa demonstração de poder político e econômico não conseguia esconder-se por sob a simpatia simulada do sorriso pretensamente favorável às demais autoridades que o cercavam. A intenção aliciante sempre presente em suas falas, ele não podia esconder. Pelo menos para ela, Aldenora.
A forma e o odor reptiliano somente ela sentia??? O medo da migração reptiliana de latino-americanos para os EUA, estaria a motivar a política paranoica do Trumpismo??? Estaria a mente paranoica de Trump deportando, não seres humanos, mas reptilianos criados por seus problemas psíquicos, por seu delírio político sistematizado??? A Teoria da Conspiração que cerca os republicanos estaria a motivar a perseguição paranoide e a esquizofrenia dos membros republicanos de seu partido???
Estaria Aldenora, ela também, influenciada por esquemas e estratégias PSI que estariam induzindo pessoas a acreditar numa invasão reptiliana do mundo por Ets quejandos??? Esses répteis estariam infiltrados no Inconsciente Coletivo da Espécie Sapiens??? Teria essa espécie Alien projetos políticos e tecnológicos de dominação planetária em curso??? A conspiração reptiliana teria tido início nos répteis que deram origem à espécie humana, a partir de mutações que tiveram início nos animais rastejantes saídos do mar há milhões de anos???
Aldenora lera “A Doutrina Secreta” de Helena Blavatsky. Estariam seus pensamentos influenciados pelas referências aos homens-dragão, reptilianos que tiveram uma civilização que dominou a Terra a partir do continente Lauriano. Portadores de poderes PSI e habilidades mentais que ainda hoje se manifestam na configuração atual da sociedade secreta dos Illuminati. Seu pai, Gerardo, era um médico respeitado, tinha algumas bizarrices sem explicação plausível. Apesar de paulista, era torcedor do Vasco e tocava Celo, assim como medalhas com seu nome são promovidas para homenagear médicos que se destacaram no campo de medicina.
Eles, militares saudosos da ditadura, muitos deles dedicados ao tráfico de Coca, afirmam que um poder amplo e definitivo nos observa de todos os lugares. Esse poder múltiplo é partilhado por civis, no pensar de Aldenora. Isso a inquietava sobremaneira. Achava-se ela acometida da “Síndrome do Pensamento Acelerado”, descrita no livro “Ansiedade” de Augusto Cury, psiquiatra, escritor brasileiro autor da Teoria da Inteligência Multifocal.
Todas essas ideias vieram à mente de Aldenora, sobrepondo-se umas às outras, como se em um átimo de segundo, no tempo PSI de sua percepção alterada pelo poder do Inconsciente Coletivo na Festa, estivesse consigo à vontade de permanecer inflexível, no interesse de firmar a dominação que pulsava suas entranhas.
Ideias antropofágicas e reptilianas criavam em sua testa, linhas de expressão. O governador e seus pares circundavam a atriz e a modelo risonha, a de verruga na testa. Ela ostentava um sicoma verrugoso, a representar uma possível visão do 3º Olho, símbolo dos folclóricos Illuminati.
O coração da mulher Aldenora batia forte, acompanhando a pressão desumana que emanava do ambiente escamoso, coletivo, festivo. Seus convivas pareciam, de maneira camuflada e discreta, com profissionais da biologia e da medicina que têm o corpo com pele que se assemelha a células, de formatação semelhante a escamas. Para Aldenora, em seu delírio visual, pareciam todos repteis.
A privacidade se esconde nas aparências. O sorridente governa a dor de uma sociedade desgovernada, governa de seu palácio político privado, uma cidade com mil problemas sociais, os quais ele apenas faz de conta querer solucionar. Em verdade o governador governa para seus interesses privados, para seus milionários de estimação. Ele se diz de um partido conservador, na realidade é um bandalho, sem controla dos mais baixos instintos, os mais primitivos e depravados.
O governa a dor da sociedade do Estado mais rico do país, banca o jogo argumentativo dos ricaços fascistas. Eles enganam sadicamente os pobretões arrivistas, as classes médias cristãos que pensam que são judeus, os assalariados liberais, os taxistas, os motoqueiros que dizem que serão em breve empresários. Por que que apoiavam o líder da extrema direita nacional ao qual serviam de modo incondicional, subserviente. Eles não têm uma resposta. São eleitores dele por pura raiva de sua condição miserável. Os evangélicos que nada sabem dos Evangelhos, senão nas aparências de suas mentes fanatizadas, escondem a corrupção mental endêmica que os sustenta. Eles sempre estão a temer ser desmascarados.
Aldenora monitora todas as dependências do rancho na fazenda. Ela precisa sempre, todos os dias, devorar a delícia do bolo abastado, luxuoso, educadamente metê-lo no próprio forno e comê-lo sem deixar que muitas migalhas caiam da mesa milionária, para que o banquete dos mendigos não seja farto o bastante para revigorar suas parcas forças sociais. Eles sobrevivem em outra frequência: na constância social diária dos miseráveis.
É preciso para ela, Aldenora, conservar e acreditar no poder conservador, oculto, operando nas sombras de suas intenções, a social, política e econômica. As mais graves tensões de bastidores precisam permanecer fora dos olhos curiosos da imprensa, do público, das milhares de vítimas sociais, dos milhões de eleitores enganados por suas lideranças extremistas com apoio econômico e político da Casa Grande e Branca, em Washington. A mecânica social, é assim que funciona.
O mundo Cão invisível da corrupção precisa preservar-se dos olhos críticos. Ao olhar para a aparência risonha e ávida do governador, Aldenora podia ver, manifestadamente, seu olhar antropofágico, radical, canibal, com o qual o político devorava a paisagem geral do ambiente festivo nos festejos da festa de casamento. A tensão que permeava o ar, aumentava a cada minuto. Alguma coisa, o trem da festa, estava muito fora dos trilhos, mas ninguém sabia dizer por que uma ansiedade inexplicável parava no ar.
Ela pensava de si para consigo: por que os reptilianos não podiam ser vistos tal qual eles são, pelos demais convivas??? Que força mental fazia com que vissem a aparência de humanos, quando para ela eram seres reptilianos. Os olhos dela tinham a eficácia, o know-how de olhar e de ver. O que tinham os seus olhos que os demais olhos não tinham, não viam???
Os répteis desenvolveram uma tecnologia de camuflagem high-tech: O objetivo é a vitória final sobre a humanidade. O que estão esperando??? Na realidade o objetivo deles é conseguir um golpe de Estado que permitirá a tortura e prisões dos opositores e adversários de suas políticas golpistas. Querem eles implantar, seja como for, a submissão social do “efeito manada” imposto radicalmente aos mais fracos, à população social mais vulnerável.
O chefão do governador elogiava constantemente o coronel Brilhante Ustra, um sádico que submetia os prisioneiros políticos da ditadura a vexames físicos e psicológicos inomináveis, nos porões do poder gerido por generais quatro estrelas coniventes com o sadismo anônimo de seus subordinados. Aldenora via o governador e comentava, de si para consigo: “O verdadeiro poder e o dinheiro dos políticos nunca aparecem, de todo, em público. Eles, fisicamente, sim”. Ainda assim suas aparências nem sempre enganam.
A aparência sorridente do governador não revela as alianças e as negociatas que moldam as tendências do mercado e que, em parte, dependem dele e de sua politicagem de extrema direita, para se tornarem operacionais, conectadas juntamente com os tecnocratas da Avenida Faria Lima. O governador, de si para consigo pensava, com sua mente reptiliana, enquanto olhava, sorridente, o desdobramento dos eventos na festa de casamento. A transmissão mutual do pensar se adensava no Inconsciente Coletivo da Festa. Em realidade, que comemoravam os convivas, pensava ele, o governador. Aquela festança toda era apenas uma ilusão de confraternização. Um lugar de passar uma chuva, de divertimento passageiro.
— Realmente, pensou ele, basta segurar as pontas. O manjar é gratuito e o whisky, excelente.
A habilidade de comunicação entre os convivas da festa, parecia à Aldenora, num contexto clínico, um delírio telepático, no qual ela acreditava que seus pensamentos eram transmitidos a ela pelo Cavalo Branco, e dela para os outros demais convivas da festividade, mesmo sem eles compreenderem suas mensagens. O estado de harmonia e entendimento mútuo entre ela e Grano, afirmava uma afinidade de pensamentos e sentimentos a que não poderia, realmente, compartilhar com os demais convidados da festa. Não havia como suas emoções íntimas transitarem, via comunicação verbal, numa conexão
Aldenora acreditava ser uma realidade sua condição psiquiátrica afirmativa do poder da mente de Grano, o Cavalo Branco. Neste contexto de crença, o conceito se valia de forma espiritualista e parapsicológica, na forma de sintonia mental significativa.
Acreditava ela que por meio de um “fluido universal especial”, privado a certas pessoas escolhidas, talvez de um povo escolhido, ela via e sentia em seu corpo réptil, a transição antiquíssima, que se forjara a 320 milhões de anos aproximadamente. Os répteis marítimos começavam a migrar do mar para a terra. Lá longe, no período carbonífero. O equino, o Cavalo Branco, sabia disto e outras coisas muito antigas. Como se um cavalo pudesse ter conhecimentos da história humana, antes e depois do Grande Dilúvio. E mais ainda, comunicar telepaticamente a ela esses conhecimentos, na forma de um diálogo mútuo.
Aldenora crê que a maneira, ou estratégia objetiva dessa sucção, sugar a sanguínea vitalidade das pessoas, acontece quando, por exemplo, as poderosas autoridades bebem o conteúdo de garrafas de vinho Grand Cru Montrachet, colhidas e industrializadas com uvas em plantações de 23 milhões de euros, cerca de 130 milhões de reais, por hectare. É o equivalente ao Congresso surrupiar as verbas da cultura popular de um país.
Ontem, o governador recebeu de presente de uma liderança política asiática, além de joias, meia dúzia de garrafas de Domaine de la Romanée-Conti, 1945. Cada garrafa custa de US$ 558.000. Aldenora pensou de si para consigo: “não mereço este precioso presente, mas meu mentor político tem feito por onde merecer. Mesmo estando preso, beber deste vinho é um privilégio para muitos poucos nesse mundo. Ele e seus filhotes protegidos pelo extremismo de direita ornamentado no verde oliva das fantasias militares, tipo os Kids Pretos”.
Ela, mulher empoderada por contatos poderosos com sede na Bolsa americana, manipulada por operadores políticos e econômicos da Nasdaq, desde 1971, também investe em outras bolsas mundiais que operam em Nova Iorque e abrangem empresas de tecnologia associadas NYSE, com capitalização de mercado de US$ 23 trilhões, com 3.300 empresas listadas, parte delas no Vale do Silício.
— Mulheres e homens têm muitos “eus”, dizia Aldenora de si para consigo. Um desses “eus” de Aldenora detestava profundamente o governador. Isto porque parentes próximos dela haviam falecido devido à falta de vacina da Pfizer, quando esse laboratório as ofereceu ao governo federal de seu político preferido. As vacinas, ele não as comprou a tempo de salvar pessoas de seu entorno familiar na pandemia da Covid-19. O presidente se dizia “atleta”, imune aos perigos infecciosos da “gripezinha”.
O governador, ficou excessivamente grato ao seu padrinho político, ex-presidente da República, pela indicação ao governo de SP. Ele foi eleito por um eleitor conservador e ignorante das consequências da eleição a longo prazo. A extrema direita se fortaleceu no país, também na América Latina e no mundo. A Covid-19 terminou por fazer mais de 700 mil mortos no Brasil. Fez também muitas vítimas entre colaboradores e fornecedores e trabalhadores na salvaguarda, manutenção de insumos da fazenda. Aldenora acusou prejuízos que não estavam programados em seus negócios.
A mente reptiliana de Aldenora teve medo de perder, ela também, a vida, desde que esteve infectada pela pandemia da Covid. O filho, Miguel Leme do Prado Cunha Gago, o Miguelito, que ora se casava, fora internado no Albert Einstein. Miguel tinha problemas pulmonares decorrentes do HIV. A noiva, agora mulher dele, ignorava a infecção. Se ele havia contado a ela, que estava infectado, Aldenora não sabia. Preferia não se meter na secreta intimidade do filho. Poderia atrapalhar sua estratégia de vida.
O tempo do casamento passou, Daniela, mulher de Miguel, doze meses depois tinha parido um menino. Ela, Aldenora, agora era avó. O tempo passara. Grano, o Cavalo Branco e Tarik, o Afrodescendente, não mais se mostravam dispostos a concorrer na passarela do exibicionismo erótico, a desfilar com seus membros desembainhados pelo espaço circular entre as mesas dos convivas nas festas. Seu Mundico observava as mulheres que tratavam dos cavalos na cavalariça, e a obsessão delas no fixá-los, como se esperassem que um dia, pudessem ser, elas mesmas, as éguas que absorveriam em seus corpos uma parcela dos cinquenta centímetros de seus membros. Parecia a ele, Mundico, que elas esperavam a chegada desse dia, que nunca chegaria, com ansiedade.
Grano, o Cavalo Branco começou a se agitar na baia. A cavalariça estava estranhamente inquieta. Aldenora pressagiava acontecimentos que, fora de seu controle, estavam próximos a acontecer. Seu Mundico antevia estranhamentos que estariam perto de se manifestar. Grano, tinha 18 anos, Tarik, o Afrodescendente, 16. Mundico havia lido um registro no Guiness Book. Esse registro dizia que o cavalo Old Billy, criado em Lancashire, Reino Unido, viveu 62 anos. Ele torcia para que o garanhão, o Grano, o Cavalo Branco que se comunicava telepaticamente com ele, pudesse ter vida longa. Desta forma seu Mundico poderia continuar usufruindo de benefícios vindos da “mediunidade” telepática dele.
Alguns convidados depois de tanto tempo, ainda lembravam da sensação de ansiedade esquisita que invadira aquele ambiente festivo. Uma aragem impertinente vinda de algures, prenúncio de acontecimentos que fugiriam inteiramente de explicações lógicas ou científicas, causando surpreendente desordem ambiental. Daquela festa não poderia faltar, ainda tanto tempo depois, na lembrança turva de uma memória medrosa e sombria, as ameaças de que foram vítimas naquele dia, naquela tarde, naquele anoitecer ainda agora inexplicável. A memória dos acontecimentos ainda turva estava.
Dores de cabeça, vômitos, sangramento no nariz, olhos, ouvidos, mal-estares. A traumática lembrança os ameaçava:
— Melhor não lembrar, diziam, ainda muito tempo depois, pessoas que estiveram na festa de casamento de Daniela e Miguel. Muitos deles, dos comensais da festa, ainda temiam ficar com aparência transparente, e se surpreendiam, por vezes, sem ver suas imagens frente aos espelhos.
Suas próprias almas pareciam de borracha e se esticavam em direção àquelas lembranças do fenômeno eletromagnético.
Seu Mundico lembrava: enquanto os cavalos se agitavam nas baias, Grano iluminou sua mente, dirigindo-a em direção aos convivas. De suas mentes surgiram pássaros estranhos, com cabeças que lembravam ossadas de sáurios. Levantavam voo, como se buscassem um lugar no horizonte para onde se dirigissem. Saíram eles de seu campo de visão por alguns longos segundos, quando voltaram, se arrastaram no chão, cosmo se estivessem com seus corpos esgotados, as asas cansadas no esforço do voo. Seus corpos se despedaçaram em meio aos sons do palco sertanejo, rastejaram na principal arena da festa rodeada pelas mesas dos convivas. Algo dentro deles também se despedaçou, e subidamente crepitou ininterruptamente.
Onde quer que estivessem, aquelas pessoas, autoridades, gentes que da festa do casamento de Miguelito e Daniela tinham participado, sentiam que delas se tinha apossado uma memória retroativa incômoda, importuna. A perturbação de uma experiência que havia acontecido, mas que era de difícil recordação do que houve na continuidade da festividade. Bizarros desdobramentos, como se estivessem vindo de outra dimensão. Era como se de distantes eras. Nem sabiam se anterior ou posterior aos acontecimentos. A sensação de que, talvez, nem tivessem mesmo acontecido. Estranhamento sobrenatural. Memória incômoda. Traumática.
A dificuldade de processar o acontecimento impedia também que outros pensares viessem à tona, à consciência pasma. Flashes de memórias aleatórias se apossavam, de repente, de suas mentes, ausentando-se na realidade circunjacente:
Eva, nua no Paraíso, sendo abordada pela serpente com um rosto amável, sedutor, simpático, convincente, quase demente, como se tivesse ingerido, o odor paradisíaco de algum mistérioso alucinógeno. Memórias milenares recorrentes da antiguidade de eventos míticos. A terrível sensação de amortecimento dos sentidos, como se a realidade se passasse em câmera lenta. A mente de Aldenora não era de fácil tradução, talvez por influência telepática de emissões mentais do Cavalo Branco. Inquieto. Na baia.
Os flashes dos pensares não se fixavam na mente daquelas pessoas, exceto por alguns segundos, sendo elas, subitamente, substituídas por memórias muito antigas, aleatórias. Durante essas experiências sentiam-se traumatizadas pela realidade recente. A sensação de que tal realidade se tornara mais difícil de suportar, devido vivências anteriores, algumas delas mais traumáticas, mas também mais prenhes de cores, odores, psicodélicas. Mais antigas. Absurdamente remotas. Ou, quem sabe ao certo, irracionalmente futuras.
Elas não tinham nenhuma lembrança das pessoas que conheciam, como se estivessem voltando de uma viagem interplanetária. Ou sabotadas por uma mente afetada pelo Alzheimer. Aldenora, aflita, se perguntava como era possível estar nessa inacreditável condição: crianças, adolescentes, adultos de todos os sexos, idosos, todos expostos às culpas que até então ignoravam ter, talvez, vivenciado. Os animais quadrúpedes também manifestavam estranhamentos comportamentais, como se recém-saídos de outra dimensão. Afetados por sentidos estranhos. Irrequietos. Por vezes agressivos. Os olhos dos cavalos pareciam querer saltar das órbitas, assustados.
As memórias de um passado aleatório, por vezes distante, apareciam em flashes na tela mental daqueles que participaram da festa do casamento. Estariam sob a influência de algum cometa ou nave espacial de outra dimensão, de outro espaço interplanetário??? A sensação de que aquelas pessoas faziam parte de uma sociedade secreta demencial. Estariam suas habilidades mentais em supino mental ou em declínio??? Os demais eventos de suas vidas, por mais importantes que tivessem sido, não pareciam ter, agora, nenhuma mínima importância, se comparados a essas sensações perceptivas. Em que vulva fantástica se tinham adentrado??? De onde provinha esse delírio ilusório??? De que região do cérebro!!!
Que poder inquestionável estava a manipular dessa forma alterada a percepção delas, abertas as portas da percepção em suas mentes descontroladas. A névoa verde provinha de onde, tinha vindo de que lugar??? Perguntas sem respostas, perguntas sem nexo causal. Quem deve ser responsabilizado??? Até quando esse tipo de perturbação poderia continuar em suas vivências perceptivas???
De que modo a convivência com outros seres, os que não passaram por essas experiências perceptivas, afetaria suas vidas??? Algo poderoso lhes estava impedindo, de voltar a ser o que antes eram: Seres normais nunca mais seriam. A continuidade de suas vidas jamais seria rotineira, tipo papai-mamãe-filhinhos-margarina-forno e fogão. Pizza, pães e bolos.
As sensações esquisitas persistiam. O amplo lugar em que se realizavam os eventos estava a ser perpassado por névoa de coloração esverdeada. Fluxos de energia começaram a migrar de um para outro corpo, de um para outro cérebro. As vontades e vivências começaram a se entrelaçar e estressar. O misturar de ideias e intenções se transtornavam, afligindo e confundindo as interações vivenciadas, psicológicas. A Alma do Mundo não era a mesma.
Estudo posterior ao evento revelou ter havido ionização do ar, a presença de um campo elétrico forte ionizou o ar adjacente, daí o testemunho de uma claridade azul/violeta. A criação do campo elétrico gerou uma emissão de ozônio. As luzes tremeluziram e apagaram, desgastaram-se os isoladores.
Após os estranhamentos, as pessoas demonstraram grande tristeza. Sentiram-se em meio a paisagens devastadas. Algumas entraram em intenso estado de frustração, inconformadas pela insatisfação que lhes causava a visão de um meio ambiente poluído, espécies extintas mostravam-se em seu estertor, em meio a um meio ambiente poluído em grande crise climática.
Estariam aquelas pessoas sido transportadas para um futuro próximo??? Lamentos, gritos abafados e sussurros eram ouvidos de todas as partes. A natureza, as plantas, os cursos d´água, a maré cheia de poluentes, garrafas plásticas, peixes apodrecendo sobre as ondas. Seria essa uma forma de algum poder extraterreno mostrar a urgência com que a natureza suplicava por mudanças ambientais urgentes??? A maré vermelha se fazia presente.
A névoa verde que envolveu o espaço da festa produziu plasma na região ionizada, uma corrente constante e espontânea, um fluido eletricamente condutor. Fenômenos visíveis e audíveis. Um brilho violeta e um som sibilante no ambiente escurecido, como se o campo circular em torno das mesas estivesse sob influência elétrica muito forte.
A neblina esverdeada, devido a ionização do local, provocou distorção na luz que estava indo e voltando. A refração promoveu o desaparecimento de coisas, objetos, pessoas. Estas. se tornaram invisíveis, Havia efeitos diversos e estranhamentos incompreensíveis. Estudiosos posteriores do evento se perguntaram que contribuição esse acontecimento teve na evolução da consciência do tempo e do espaço neles, os estudiosos. Que verdades poderiam ser aprendidas em seus estudos sobre o funcionamento do universo, de vida das pessoas presentes ao acontecimento inusitado do casamento de Daniela e Miguel.
Que efeitos a mais longo prazo poderiam advir desses bizarros acontecimentos??? Posteriormente registraram-se náuseas, desorientação, fusão de corpos com partes metálicas de carros, nos quais alguma\s dessas pessoas tentavam, inutilmente, apressadamente, entrar e dirigir.
A descarga elétrica de alta voltagem perpassava o “campo unificado” da festividade. Os partícipes trocavam entre si suas “consciências ocultas”. Forças invisíveis e secretas se desnudavam no ambiente, causando impressões sobrenaturais nas pessoas. Tornaram-se visíveis uns aos outros conteúdos que até então conseguiram ocultar em suas vidas. Estavam partícipes de acontecimentos de significados anteriormente inalcançáveis.
Visões, possivelmente de um Apocalipse planetário, se tornaram possíveis. Estiveram os convivas da festa de casamento sendo partícipes involuntários de alguma experiência promovida por cientistas que não se identificaram a si mesmos, e às empresas de alta tecnologia para as quais estariam a trabalho, com contratos assinados de não revelação dos resultados, mantendo-se os partícipes no anonimato???
Os organizadores da festa teriam tramado contra os convidados??? Quais os motivos irrevelados??? Essas percepções afetavam suas vidas de um modo que eles não poderiam antecipar as consequências. Se tinham dificuldades em acreditar uns nos outros, agora, depois dos eventos ignotos, desenvolveram comportamentos agressivos em cenários de antiguidades muito passadas, por vezes paleolíticas, nos quais se reconheceram: Quer em delírios, quer em sonhos e pesadelos:
Massacres sangrentos de tribos contra habitantes de cavernas, visando a posse das mesmas e a expulsão de mulheres grávidas, crianças e demais habitantes desses lugares, até então ocupavam enquanto base de sobrevivência tribal. Porretes pesados esmagavam cabeças de adultos, mulheres, idosos e crianças.
Teletransportados pela “névoa verde”, alguns dos partícipes da festa de casamento testemunharam “in loco”, no lugar mesmo dos acontecimentos de há 850 mil anos, no sítio identificado por arqueólogos como sendo de Gran Dolina, região da Serra Atapuerca, na Espanha, um grupo de hominídeos conhecidos por “Homo antecessor”, canibalizando a carne crua de crianças e demais ocupantes da caverna, os que não conseguiram fugir correndo do ataque e escapar do banquete de canibalização da tribo invasora.
Até aquele momento não havia evidências de que o teletransporte era possível. O testemunho dessas pessoas produziu uma grande comoção nos cientistas estudiosos desses acontecimentos que se reuniam, posteriormente a eles, na tentativa de revelar as causas do enigma da névoa que invadiu os aposentos da festa de casamento.
A experiência de teletransporte ocasionou traumas intensos em algumas pessoas que presenciaram a invasão do lugar de habitação do grupo pré-histórico que ocupava a caverna da tribo invadida. Ambos os grupos pertenciam aos primeiros humanos nômades, estavam em perene deslocamento, fugidios das tempestades, assombrados por raios e trovões, aterrorizados por animais de intensa selvageria.
A descoberta do fogo se atribui a esse período. Aqueles hominídeos caçavam, pescavam, coletavam alimentos. Alguns grupos deles, do “Homo antecessor” não devoravam apenas crus os seus prisioneiros, eles também cozinhavam os alimentos e as carnes dos animais que conseguiam capturar, das tribos que conseguiam assaltar e matar para canibalizar. A carne de seus contemporâneos, até então, era consumida crua.
Alguns dos comensais da festa de casamento prestaram seus depoimentos durante as reuniões do grupo que se reunia para traduzir os estranhamentos que tinham acontecido durante o evento “névoa verde”. Coisas estranhas continuavam a acontecer, mesmo muito depois do ocorrido:
A temperatura dos corpos de alguns deles aumentava tanto, o desespero deles era tão flagrante, que alguns se levantavam e se jogavam contra paredes e jamais eram novamente vistos. Seus corpos simplesmente desapareciam, como se tivessem ficado dentro das paredes, ou se teletransportados sabe-se lá para onde. Outros, tinham seus corpos incendiados, pegavam fogo, e as pessoas que presenciavam esses incêndios espontâneos os viam consumirem-se num fogo misterioso, tipos os casos de combustão humana espontânea (CHE).
Um fogo realmente misterioso. A ciência moderna oferece algumas explicações para os trágicos eventos de combustão humana espontânea. Os convivas remanescentes da festa de casamento organizada por Aldenora para seu filho, não tinham, maior parte deles, nenhuma esperança de que aqueles eventos bizarros tivessem um dia, no futuro, uma explicação científica para eles. Ao contrário dos eventos CHE que tinham explicações várias, ainda que sem base em provas realmente científicas.
Todos sabiam estar em mãos de um fenômeno contra o qual nada podiam fazer. Um fenômeno inconveniente, sobrenatural. Esses acontecimentos os conduziram a outros lugres, outras paisagens. Aldenora sentia-se culpada por suas relações incomuns, suas conexões telepáticas com o Cavalo Branco. Seria ele um símbolo atuante do 1° Cavaleiro do Apocalipse, aquele que prometia paz e recebeu uma coroa, um diadema símbolo de poder e autoridade a enganar pessoas preparando-as para eventos subsequentes???
A Experiência de Filadélfia, negada pela marinha americana, mas com evidentes indícios indicativos de que realmente aconteceu, teria aberto um portal através do qual entidades de outras dimensões ganharam mais livre acesso à realidade humana??? A verdade é que a espécie humana sempre esteve enganada, malbaratada, desde os primeiros momentos da Criação, com Caim e as relações incestuosas entre os parentes seus familiares??? A verdade é que a espécie humana foi criada sob o signo da perversidade assassina e da dissimulação de intenções???
— A maldade, o incesto, a perversidade, a perversão humana, os desvios das normas de comportamento adequadas à boa e à melhor convivência entre as pessoas, nunca foram possíveis??? Tudo indica que o Criador criou esta espécie para se auto aniquilar aos poucos, e que as normas de civilidade são apenas indícios enganosos de que, realmente inexistem enquanto possibilidade de afirmação??? Estas interrogações de Miguelito eram as mesmas que sua mulher, Daniela, estava a fazer a si mesma.
Os desvios das normas pessoais e sociais, da Ética e da moral ensinadas nos textos ditos sagrados, são apenas simulações inalcançáveis aos seres humanos??? São apenas peixes num azol em frente aos olhos humanos, destinados a enganá-los??? São apenas um alimento para as almas humanas se envolverem em esperança de um dia alcançá-las, quando, em realidade, jamais poderão ser alcançadas??? A perversidade do Criador é infinita??? Afirma-se acima de todas as demais possibilidades???
A ciência afirma que as descargas eletromagnéticas do cérebro humano podem influenciar o ritmo cerebral coletivo. É o fenômeno da sincronização neural. Não é a mesma coisa de comunicação telepática ou controle mental. O cérebro gera sinais elétricos que produzem ondas cerebrais de frequência ultrabaixa que, embora sejam muito fracas, podem atingir grandes distâncias.
Durante interações sociais, tal qual a que aconteceu no oito de janeiro da invasão e depredação da sede dos poderes da República, as ondas cerebrais de indivíduos próximos entre si, tendem à sincronização que é a geratriz do “efeito manada”. Criando um campo magnético de ritmo semelhante. Essa sincronização neural interpessoal, facilita o compartilhamento de ideias e ações irracionais, a comunicação ilógica, mas eficaz.
— É o que aconteceu no oito de janeiro, disse Daniela.
— É o que acontece com a gangue do Trump Trambiqueiro, replicou Miguel. Ele está transformando os EUA numa República de Bananas.
Esss pessoas constroem conexões neurais muito fortalecidas. Elas geram envolvimento e uma visão perturbada de que a razão está com elas, quando, em verdade, só irracionalidade pode sair dessa conjunção mental coletiva eletromagnética. Colaboração e reciprocidade áspera, acrimoniosa, alienação decorrente do “efeito manada”.
— Eletromagnetismo de mutirão, falou Miguelito.
— Mobilização coletiva, punitiva, em desabono e vergonha dos envolvidos, comentou Daniela.
— A mentalidade de mutirão agindo, compartilhando os mesmos sentimentos, a mesma compreensão equivocada de colaboração e reciprocidade. Agilizando conflitos, trabalhando em prol dos interesses de um grupo que usava e abusava do “efeito manada”, para dele tirar proveito em proveito de seus interesses, os mais escusos, torpes, desonestos e criminosos, complementou ele.
A memória horrorizada do evento “nevoeiro verde” voltava a acontecer quando, por vezes, lembravam que tropeçavam sobre o aço e o alumínio dos carros estacionados e observavam, perplexos, que seus membros superiores penetravam a superfície dos veículos, infiltrando-se nas ligas de ferro fundido e aço.
As alucinações pânicas eram emanadas em suas mentes a partir da mente de Aldenora que, por sua vez, culpava a ação do Cavalo Branco sobre seu psiquismo. Mas, poderia Grano ter tido influência sobre o evento “nevoeiro verde”??? Talvez, ela pensou, haja influência das reuniões da sociedade secreta da qual participava quando, nas noites programadas das reuniões, era ouvido o que parecia ser o lamento noctívago profundo da ave fantasma, também chamada de “Mãe da Lua”: O Urutau. Ave de grandes olhos amarelos. O Urutau consegue ver o que está em sua volta sem abrir os olhos.
Muitas crendices e lendas foram criadas a partir de seu canto. Gargantas de carcaças de pássaros agonizantes emitiam a sonoridade horrível. Um canto fúnebre do pássaro Urutau, ave fantasma, agourenta. As pessoas que participavam dessas sessões no subsolo do rancho no sítio da herdade, sentiam-se acossadas, trêmulas até a alma. Mas o medo é componente nessas uniões entre membros da sociedade secreta. Ainda que nem sempre de modo tão explícito ou manifesto: O lamento noctívago profundo do Urutau soou nessa noite de lua cheia.
Seu Mundico levantava ambas as mãos dos lados do rosto, encobrindo-o como se a se defender do horror que aqueles sons lhe causavam. Ele mantinha-se afastado, a uma certa distância do lado de fora, mas com ouvidos abertos, os rituais eram seguidos por práticas de erotismo ritualístico que lembravam bacanais dionisíacas. As autoridades policiais e políticas desdobravam-se em evidentes demonstrações de anomalias, amoralidade e aberrações sexuais manifestas.
Alguns membros do culto chamavam essas sessões de “ruptura mental antigravitacional”. As informações saltando de mente para mente como se estivessem sendo impulsionadas por íntimo e mútuo eletromagnetismo PSI despudorado, até então inexplicável em termos de um acontecimento social festivo entre pessoas de formação moral erudita.
O evento bizarro da festa de casamento, a nuvem esverdeada que os envolvia, cobrava de seus convidados demandas reprimidas, desejos que, até então, não tinham sido atendidos devido à falta de conhecimento de uma solução para eles. Antes desse momento seus desejos demonstravam certo recato na manifestação orgíaca. Agora, entravam em ação sem nenhum pudor. Os corpos buscavam solução para suas demandas até então reprimidas, contidas dentro de si mesmos, ao mesmo tempo impulsionadas por uma malignidade a serviço de fixações inconscientes inconfessáveis. O que era secreto, contido, proibitivo, manifestava-se despudoradamente.
Um flash momentâneo mostrou o governador a correr em direção ao Cavalo Tarik, o Afrodescendente. O equino mantinha o pênis vascular à mostra. Garotas adolescentes risonhas, equilibravam-se no dorso do Grano, o Cavalo Branco, antes dócil, já agora a trotar em círculo por entre as mesas do evento, a mostrar irritabilidade, o pênis vascular à mostra. O prelado que realizara a cerimônia de casamento tentava se equilibrar na montaria dele, em movimentos de pernas ríspidos, tentava não cair.
Os violeiros sertanejos agarravam-se a seus instrumentos musicais. Eles pareciam querer fugir do alcance das cordas de nylon ou de aço dos instrumentos. Enrolados em seus braços, troncos e pescoços, ferindo suas carnes, as cordas de seus instrumentos moviam-se em torno deles. As senhoras de mais idade mostravam-se particularmente afetadas, buscando segurar as garrafas que tremelicavam sobre as mesas em frente a elas.
Muitos corpos, estavam em chamas. Grano, o Cavalo Branco, escoiceava o ar, fazia as garotas correrem apavoradas para o mais longe possível de seu galope. Elas caíam desconjuntadas por sobre as mesas. O governador agarrara-se ao rabo de Tarik, do Cavalo Afrodescendente, ninguém atinava por quê. O próprio tempo do lugar era uma mostra de terrorismo festivo.
O governador foi jogado violentamente em direção às mesas, após soltar o rabo do Cavalo afrodescendente. Dentro da casa, uma senhora idosa, vestida de seda negra, num ambiente intimista, parecia estar se refrescando próxima a um aparelho de ar refrigerado. Ela sorria com maxilares abertos, num rosto pontudo de ave esquelética, descarnada.
Soldados romanos continuavam a vergastar impiedosamente o corpo sangrando de Cristo, enquanto ela se divertia com a visão. Cardeais no Vaticano sentados na sala do Conclave, divertiam-se diante de dois Papas, ambos perplexos, sentados à cabeceira de uma longa mesa cerimonial.
Em meio à Multidão eu os cercava, conhecidos políticos americanos eram agredidos em protesto, na cidade de Los Angeles. Seus seguranças tentavam protegê-los. A imprensa noticiava os acontecimentos com comentários televisionados. As reportagens eram comentadas pelos jornais noturnos.
Hominídeos paleolíticos ao redor de uma fogueira aquecem seus corpos de Homo erectus no Vale do Rift na Etiópia. Suas feições se parecem, à aproximação curiosa de seu Mundico, com os rostos de Netanyahu, Milei, gal. Heleno, gal. Braga Neto, Bozo, Putin, Xi Jinping, Trump e outras autoridades políticas.
Seu Mundico se aproxima, pasmo, superlativamente curioso e interrogativo. Ao se aproximar mais da fogueira paleolítica, onde também estão agachados três conhecidos pastores evangélicos brasileiros que ficaram milionários comercializando os Evangelhos. eles sorriem maliciosamente para ele, seu Mundico, com suas caras brilhando de malignidade. Seu Mundico, assustado, ao reconhecer o rosto pânico do ex-presidente que não comprou as vacinas da Pfizer a tempo de salvar as vidas de mais de três milhares e meio de pessoas infectadas pelo vírus na pandemia de Covid-19. Aquele rosto estava a pulsar de culpa. De uma culpa maligna, com grande convicção de si mesma, com a qual parecia divertir-se.
Uma voz calma se fez ouvir em meio ao caos ambiental instalado, sem que ninguém entre os convidados saiba exatamente de onde vinha. Qual a proveniência da fala??? A voz reverberava no interior da mente dos partícipes do banquete de casamento:
— “Há dois milhões de anos um dos mais antigos antepassados do povo da Terra, iniciou a mais primitiva diáspora: o Homo erectus aprendia a lidar com o fogo. Tinha evoluído do Homo habilis. Há dois milhões de anos se dispersou da África para as mais diferentes regiões do mundo numa espécie de migração em massa: Iniciou as tecnologias mais primitivas no lidar com as chamas de pequenos recipientes de pedra contendo brasas sopradas de quando em vez. Essa espécie primitiva de diáspora dispersou o conhecimento do uso do fogo nos mais distantes continentes”. A voz não identificada, após alguns momentos, se fez outra vez ouvir:
A diáspora mais antiga do Homo erectus expandiu-se do continente africano para a China, Indonésia, Ásia. O Cáucaso pisado por seus pés em Java. “Os Raimundos erectus migratórios” ganharam o mundo. Eles invadiram todo o Velho Mundo conhecido na época do Homem de Java. Não havia linguagem, senão o impertinente
— Uga, Uga; Guga.
— Uga, Uga. Guga.
— Uga, Uga. Guga.
— Guga, Guga. Uga.
— Guga, Guga. Uga
Os Ugas, Ugas, Gugas, Gugas, era a linguagem vigente naquele momento tão antigo e primitivo. Os dialogantes conversavam horas e horas nessa troca de ideias que só podiam ser expressas por essas expressões idiomáticas monossilábicas, por vezes agressivas e acrescidos da expressão “Guga-Guga”. Era um intercâmbio vocal mutuamente receptivo. Era a linguagem erudita dos intelectuais primitivos. As discussões e os conflitos pareciam ao observador, solucionados num diálogo tipo ganha-ganha:
— Uga, Uga; Guga.
— Uga, Uga. Guga.
— Uga, Uga. Guga.
— Guga, Guga. Uga.
— Guga, Guga. Uga.
Desde a existência dos primeiros e mais remotos hominídeos, diferentes raças deles infiltravam-se nas demais espécies de hominídeas. O hibridismo dessas comunidades antigas continua no mundo de hoje.
Os milênios e milênios e milênios se passaram em busca de comunicação civilizatória. Repetem-se agora com um linguajar poliglota dos embaixadores dos países eu fazem parte das organizações mundiais pela paz mundial. Continuam se enfrentando, se matando, disputando locais de sobrevivência para seus trogloditas vestidos de roupas caras e especiais de grife. Roupas que os protegem das balas, torpedos e granadas dos que apelidam de inimigos da liberdade ou da democracia. Outros se querem amigos de deus, pátria, família e liberdade. Nos discursos demagógicos da boca para fora.
Em verdade estão a competir por por diplomas e diplomacias que tornam macias as lutas renhidas entre gladiadores de gravatas borboletas, que podem, a qualquer momento, lançar bombas atômicas uns nos outros. Roubam-se mutuamente em casas congressuais. Assaltam-se entre si em disputas civilizadas, nas quais institucionalizaram as metodologias da agressão mútua nos parlamentos.
A pobreza e a miséria se multiplicaram, disputando, em quantidade, os desdobramentos das areias dos desertos. As milhões de gerações se vão na poeira das tempestades de areia. Desaparecem. Somem no deserto. Ninguém se lembra delas. Nem hoje, nem amanhã nem nunca. A recompensa das vidas é o pó da morte à sombra dos mausoléus, nas necrópoles do mundo dos Raimundos. Atualizados. De terno e gravada borboleta. Os hominídeos híbridos, atuais, os trogloditas, suas bisavós, avós, seus pais, hoje usam black-tie. Ao redor das fogueiras civilizadas, o fogo fabricado dos destilados.
Se você olha para cima, para as estrelas, naves e meteoros são visualizados no povoado da abóbada celeste. Estão vindo essas naves do longínquo passado??? Do extremo remoto futuro??? Seus parentes ao seu lado não lhe parecem os mesmos. Você vislumbra outra percepção deles. A impressão de que são fantasmas vindos de outro lugar, você não sabe de onde. Cientistas dizem que são pessoas semelhantes a você e a eles mesmos, mas vindos de outro sistema solar. Interestelar.
Sentem-se fantasmas tão semelhantes a você, e você, tão semelhante a eles, têm, todos, a impressão de que o DNA mútuo se repete por gerações e gerações de gente iletrada, com a nuvem do Inconsciente Coletivo Mental repetindo os mesmos condicionamentos clássicos, a mesma aprendizagem familiar e social operante há milênios, repetindo os mesmos padrões de atuação e resposta aos ambientes semelhantes. Como se ainda semelhantes fossem dos reptilianos que saíram rastejando dos oceanos há bilhões de anos.
Uns involuíram muito rápido, porque são muito mais antigos. Seus sistemas solares surgiram milhões de anos anteriormente ao Big-Bang desse sistema solar de 5ª Grandeza, do qual o planeta Terra é o 3° planeta mais próximo do sol. Os ambientes primitivos, cavernosos, mudaram exteriormente. As tribos passaram a habitar arquiteturas neolíticas modernas. Mas o interior da mentalidade desses povos híbridos, com DNA modificado, foi pouco transformado na escala do tempo extremamente extenso. Paisagens grandemente extensas de florestas, de terras desérticas, mudaram de forma.
As transformações sociais que ocorrem em uma escala de tempo extremamente longa, ao longo de séculos ou até milênios. de transformações sociais muito, muito lentas, ocorrem em uma escala de tempo extremamente longa, ao longo de séculos e milênios, criaram um mito de um povo escolhido. Escolhido para quê??? Para sodomizar os outros povos do mundo, e querer submergi-los num esquema de dominação cruel e sistemática.
Pessoas, aos milhares, aos milhões, buscam replicar estratégias de sucesso cognitivo comportamental. Sucesso aparente. Imitando chimpanzés que se notabilizaram por saberem manipular instrumentos musicais em bandas de jazz, blues, rock, e demais ritmos popularizados. Movimentam-se a tocar instrumentos, imitações de danças e cantorias das culturas muito antigas: Requebros e remelexos ao som de tambores e batuques que ecoam ainda, após tanto tempo, no inconsciente coletivo dessa espécie atual predominante de hominídeos, que se dizem sapiens. Sodomitas. Sapiens.
A essência anímica desses povos é tão antiga quanto os musgos e hepáticas Biófitas, as plantas mais antigas do mundo, surgidas há 470 milhões de anos, no período Siruliano. Elas ainda agora dependem de ambientes úmidos para a reprodução. Foram as primeiras plantas a colonizar a terra na Terra. As Licófitas e Samambaias gigantes do Devoniano, no período Carbonífero, quando havia imensas florestas pantanosas com cinquenta ou mais metros de altura, a decomposição delas gerou enormes depósitos de carvão mineral para a tecnologia poluente.
A decomposição moral gradativa dos seres antigamente cavernosos, hoje, atualmente, ultrapassou as fronteiras, derrubou os muros entre os quartos em seus apartamentos modernosos, gerou a decadência da urbanidade nas grandes cidades com seus edifícios de apartamentos e escritórios onde habitam e trabalham em altas altitudes, mas de muito baixas atitudes. As respostas ambientais das mudanças climáticas, tornam as respostas da natureza cada dia mais intensas e terríveis para a sobrevivência da espécie. Espécie cada dia mais violenta, decadente, sádica, ameaçadora e tenebrosa. A evolução high-tech só intensifica a dominação dantesca e decadente.
A "mudança social milenar" não é um conceito aceito no jargão sociológico formalmente estabelecido nas ciências sociais. É uma expressão descritiva das transformações sociais que ocorrem em uma escala de tempo extremamente longa, ao longo dos milênios. “Mudança social" é um conceito central na sociologia. Refere-se a alterações nos padrões de comportamento, cultura e instituições sociais. Mudanças que afetam o desenvolvimento da sociedade desumanizada. Da desordem e do progresso fictício.
Os fantasmas antepassados estarão sempre presentes no inferno repetitivo: Simulam, litigam, corrompem, repetem e realizam o mundo ainda mais bárbaro dos antigos. Os mortos-vivos, de debaixo de suas sepulturas, nascem e invadem a realidade e a fantasia de existências reais, fantasmais. Não há quem não esteja invadido pelos espíritos imortais dos antigos. Quando tudo é passado, o Norte desaparece. Inexiste horizonte. Olhe e veja as estrelas, são sistemas solares do passado muito antigo. Do passado conquistado por civilizações de deuses escravagistas e pederastas.
As mentes das novas gerações são a encarnação das sucatas tecnológicas, anatômicas, fisiológicas e espiritualistas das mais velhas anciãs, mães da eterna Matrix que se desdobra. A maternidade é mãe de milhares de gerações passadas. Ora, ora, se os antigos humanos não honraram suas próprias vidas passadas, como poderiam achar maneiras de honrar a própria vida presente??? Nove meses continua sendo o prazo para a máquina biológica da mulher parir escravos para o mundo passado, metáfora do mundo presentificado do imperialismo existencial.
O imperialismo dos espíritos se infiltra na eternidade dos corpos abortados para os poderes das potestades. As bactérias e os microrganismos invadiram, há milênios, os corpos infectados pelo DNA das espécies. Darwin escreveu “A Involução das Espécies”. Darwin escreveu A Degradação Repetitiva das Espécies. Darwin não acreditava na “Evolução das Espécies”, mas no fortalecimento delas.
O Ca\valo Branco inundou as mentes dos convivas da festa de casamento de Daniela e Miguelito com essas ideias que partiam da mentalidade doentia de Aldenora, como se fossem microrganismos invasores. Invasores marciânus. O Alerta Interestelar do 3I Atlas. As mulheres brancas, amarelas, vermelhas, indígenas, as moreninhas dos romances que se requebram diante do espelho retrovisor dos motoristas de caminhão nas estradas dos sertões rosianos:
Elas, urnas biológicas, robozinhos que gostam de enfeites, batons nos lábios, plumas a se pavonear para o leito dos sodomitas. Pontos cardeais nos sertões Interplanetários da vaidade e da ganância. A natureza poética, metafórica, destrutiva do Big-Bang, sempre presente na imensidão desesperada de seus corpos apequenados, infectados. As vulvas vulneráveis, atacadas, frustradas. Infectados pelas DSTs nas quais muitas delas nem sabem que estão sendo carcomidas. A Matrix das mortas-vivas. A espera da esperança que nunca se alcança. Elas, as heroínas que mantêm viva a incivilidade da civilização.
Não é que elas não possam controlar seus pensamentos. É que o pensar delas está cristalizado na “inclusão retroativa”. Elas parem seus filhos, suas descendências, para um tempo de registro anterior à fertilização do óvulo que dará origem à próxima geração. Os espermatozoides fazem a festa no canal retal, no túnel vaginal, durante a formação do embrião.
A inclusão retroativa da nova geração aplicada às situações passadas, no estabelecimento empresarial do consumismo desvairado, na Paulicéia desvairada de que falava o escritor Mário de Andrade. É impossível corrigir o atraso impregnado no Ácido Desoxirribonucleico. Não é possível retroagir no tempo perdido proustiano que carrega as instruções genéticas para a geração e o crescimento dos seres vivos que haverão de suar, de verter suor, a gotejar em suas entranhas vestidas do calor na temperatura da cidade. A temperatura só aumenta.
Efeitos no Passado: Na biologia e na medicina não há evolução possível. As gerações estão condenadas à involução. O dantesco infinito da mesmice.
A retroatividade ao passado com a naturalidade dos dias. Das horas o amanhã já é passado antes do sol nascer. O retorno ao estado anterior, infinitamente presente. A vivência do dia a dia a reforçar a ideia que se confirma nos pensamentos que sempre se impulsionam de volta, ao bater de frente no muro das lamentações na rocha sólida do psiquismo. O leite materno mamado na Matrix das gerações. Maternidade da pedra:
Da pedra Stonehenge, da rocha Göbekli Tepe, nos sítios da Etiópia, da África, na China, na Hungria, nos Sítios Maias, nas Pirâmides, na Serra da Capivara no Piauí: as crianças, as gerações, a juventude, já nasceram velhas, duras, insensíveis, petrificadas. Retroativas. Passadas.
O patrimonialismo patriótico da canalha que invoca deus, pátria, família e liberdade, para melhor enganar e roubar 215 milhões de inocentes úteis, e de espertos úteis a si mesmos. Os antepassados trogloditas cobram o carma da noite eterna do dia de hoje.
A dor do mundo de espelhou no alto do Monte Hebron. A pedra paleolítica, as pragas do Egito, a mitologia do mar que se abria para a passagem dos judeus que espalharam o próprio esterco no deserto, como se fossem felídeos domesticados, animais de estimação do Zoo sapiens. Clandestinos prestadores de serviços para uma suposta divindade que os teria eleito o povo escolhido par sodomizar os outros povos do planeta.
Miguelito e a mulher, após vivenciado o evento “névoa verde”, suas partículas carregadas, seus campos magnéticos ionizados, seus estranhamentos que mudaram de vez sua percepção do mundo, acreditam que tenham ficado mais atentos, mais inteligentes. De repente, não mais que de repente, seus paradigmas mudaram dentro deles. A estranha radiação eletromagnética, vinda de outro lugar interestelar, os atingiu. Abriu um portal em suas mentes.
O casal tinha em mente que a experiência serviu para expulsá-los do interior do cercadinho familiar que os mantinha alimentados como se fossem gado. Aquela névoa desconhecida, a radiação eletromagnética que dela se propagou, não poupou ninguém de uma mudança de paradigmas mentais, vindos de alguma influência que não sabiam ao certo como atuava no conjunto dos componentes de seus cérebros. O pessoal e o coletivo.
Neurônios, axônios, neurotransmissores, sinapses, células gliais, todo o sistema nervoso em seu funcionamento mental mais amplo: a medula espinhal, os nervos. Em resumo: todo o tecido nervoso que compõe o cérebro, os nervos transmissores de informações, que exercem comando, comunicação e controle das funções do corpo: O sistema nervoso central (SNC), suas ramificações, a complexa rede de comunicação do organismo que promove a integração dos diversos sistemas que agem em conjunto para processar, transmitir, coordenar todas as funções corporais, e a manutenção do equilíbrio interno, da homeostase.
Miguelito e Daniela passaram a se interessar sobremaneira pelo estudo da inteligência humana: a inteligência pessoal, a intelecção coletiva, quando existente. A união do casamento enquanto instituição legal e social não os tornou pessoas com direitos e deveres baseados em afeto. Afeto que se traduziria enquanto compromisso de vida comum, partilhada entre si como se fossem presidiários de uma instituição penitenciária: A família. Os efeitos legais da união estável não lhes cobrava tempo:
Herança, pensão, direitos previdenciários, horários de refeição, formalidades outras do casamento. Os direitos e deveres estavam definidos. Não haveria entre eles, vampirização de ativos financeiros, nem de bens móveis e imóveis. Estavam interessados na experiência da geração de uma criança que estaria sendo dotada de atenção, educação, afetividade. Amorosidade e respeito a seus direitos de se manter em estado de vigília.
Estavam cientes de que viviam num país de população dedicada ao carnaval, ao futebol, ao entretenimento de sofá, às influências de drogas, aos papos do clube da esquina, à dedicação ao boteco. Filhos descendentes que são, em sua grande maioria, de pais afeitos e adaptados à corrupção política e social ampla, geral, irrestrita: Familiar, escolar, acadêmica. Geralmente a descendência com “QI” inferior ao de um Chimpanzé. Um país de eleitores que votou maciçamente em traidores do país, como se estivessem votando num “salvador da pátria”.
A energia ionizante do “efeito névoa verde”, neles se prolongava a mais longo prazo. Nas outras pessoas que estavam presentes na ocasião das bodas do casal. Miguelito e Daniela, eles pareciam estar sob efeito de uma influência mental de aprendizado que os orientava para o exercício de habilidades cognitivas de raciocínio abstrato, focado em habilidades lógicas-linguísticas de reconhecimento de inteligências múltiplas: físicas-cinestésicas e emocional. Algo havia melhorado dentro da moringa.
A capacidade de recuperar a habilidade, a força, a flexibilidade do pensamento juvenil, de prever e organizar ações consequentes e objetivas. A atenção, a memória interestelar, o trabalho com ideias complexas que não têm existência apenas física: A simples compreensão da competência técnica e da habilidade, do savoir-faire, nos processos neurológicos e funções cognitivas e emocionais da interação de bilhões de neurônios no cérebro.
— “Parece-me que descobri o continente mental que me traduz, que me processa e integra à experiência subjetiva, ao aprendizado que me distingue dos demais animais de minha espécie que não conseguem a façanha de interagir com outros mundos, outras dimensões”, disse, de repente, Daniela.
— “Consciência, memórias imemoriais, linguagem, percepção abstrata e raciocínios conectados a emoções e sentimentos que me conduzem à percepção de outras dimensões, de outros mundos”, replicou Miguelito.
— “É como se eu pudesse evocar experiências passadas, muito antigas, das quais não me lembrava até então. Experiências milenares ensinam-me coisas, a partir de nova identidade.
— “A formação de uma nova identidade parece estar a acontecer a partir destas memórias. A falta de acesso a estruturas cerebrais até então mantidas inativas”, ponderou Miguel.
— “A inatividade perceptiva, a falta de noção consciente, a memória ontológica, a Memória da Antiguidade. Essas coisas, de alguma forma, faziam falta à percepção dos acontecimentos no tempo presente. O hoje, o ontem, o mais antigamente, de alguma forma atuam nos arquivos perceptivos que os impedia de se conectarem”, disse Daniela.
— “A cegueira perceptiva passada, provocava a cegueira perceptiva não-intencional no presente do indicativo. E onde a memória não está presente, existe apenas o vazio, a ausência. Uma ausência que vai se afirmando, com tempo no inexplicável”.
Miguel, psicólogo, reitera seus conhecimentos que se complementam aos das pesquisas de Daniela.
— “A mente ausentava-se dos “fios de Ariadne” que poderiam conectar o tempo de hoje, o tempo de ontem, o tempo do mais antigamente””.
— O tempo interestelar.
— “As conexões da memória no continuum espaço-tempo. A interação e a interdependência entre a percepção individual e as demais experiências compartilhadas socialmente” — Ponderou Miguel. Depois de um certo tempo em meditação, ele mesmo, ao ouvir o silêncio interrogativo de Daniela, complementou:
— “O continuum espaço-tempo é um modelo matemático que une as três dimensões do espaço — altura, largura, comprimento — à dimensão do Tempo. É um conceito da Física. É uma voz que, uma vez corporificada, grita no vazio interior da mente, um grito em busca de se fazer ouvir na imensidão existencial do corpo em busca de uma filosofia que o justifique”.
— “E a seus pensamentos”, concluiu ela o pensar do marido: “Onde o espírito renasce não há vazio. As encarnações do passado, o espírito não as esquece, se delas viveu com consciência.
— A criança que encarna o Dalai Lama lembra das encarnações passadas. Ele não as dispersou. A criança que reencarna o Dalai Lama as valorizou. Não perdeu o contato.
— “O espírito que anima o corpo novo no qual se encarnou, viveu a imensidão passada no continuum. O espírito talvez possa lembrar de boa parte da vida que animou o corpo na vida passada. Mas. Se, e apenas se, não foi disperso na folia da existência passada, poderá conservar dela a memória na existência subsequente”.
— “De onde você tirou essas ideias, perguntou Daniela, da leitura da Cabala, do Livro dos Mortos, do Livro dos Espíritos, da Doutrina Secreta. Da Bíblia, do Livro de Enoch!!!
— “Após “a névoa verde” em minha mente se abriu um portal. Nele tenho acesso a situações cognitivas que chegam até a mim via sonhos, por vezes visões em vigília. Por vezes pesadelos””.
Daniela revelou que também ela começou a ter acesso a esse caminho secreto, como se ela fosse uma iniciada em telepatia com seres de outros mundos, de outras dimensões. Miguel disse ter sonhado com sua mãe. Ela mais lhe pareceu um ser real, que falou com ele como se ele ainda fosse um jovem sob sua influência, dizendo-lhe:
— “Pergunte a seu pai se ele quer ir um filme hoje”. Fui até o quarto deles onde meu pai biológico estava sentado na cama de casal deles, com a cabeça curvada para baixo. Fiz o que ela mandou-me fazer, perguntei:
— Pai, a mãe está perguntando se você quer ver um filme hoje com ela. Eu me aproximei dele e insisti no chamar:
— Pai.
— Pai, chamei outra vez. Ao chegar mais perto dele, o toquei no ombro como que para acordá-lo. Ele poderia estar dormindo. Mas ele caiu de costas na cama. Vi então que ele estava morto. E percebi que minha mãe biológica também estava morta. Ela, mesma após a morte física, seu espírito insistia em me dá ordem, em se apoderar de minha mente.
Minha mãe biológica, numa take perceptivo futuro, mesmo depois de morta, insistia em querer me mostrar e ao marido morto dela, que ela continuava mandando. Que ela continuava empoderando-se de mim, de minha mente, me usando para zombar do esposo que nem vivo mais estava. O ódio descomunal daquela mulher, de seu espírito, continuava a querer demonstrar que continuava empoderada, que prosseguia em sua determinação de mandar, de subjugar o filho, o marido e quem mais fosse que estivesse próximo ao mando dela.
O filme que estava em exibição, ao qual ela convidara o marido, através de mim, era: “Apocalipse Now”. Sim, Miguel estava vivenciando uma conexão com os pais mortos. Num tempo futuro. A mãe Aldenora tinha falecido muito depois do pai. Mas ambos se comunicavam no mundo dos vivos através de mim. Queriam com isso mostrar que eu também estava morto, porque ainda obedecia às ordens dela, com a conivência dele, meu pai biológico. Ainda que ambos estivessem mortos e enterrados.
Ao despertar do pesadelo, eu, que assisti ao filme, lembrei da cena em que o ator Marlon Brando, repetia a frase:
— “O horror.
— “O horror”.
Ele no papel do Coronel Walter E. Kurtz. Foram as palavras últimas, em tom de contida agonia, enquanto profundamente angustiado, agonizava no chão de sua base no Camboja, assassinado pelo personagem Martin Sheen interpretando o Capitão Willard que terminara de cumprir a missão de vitimá-lo.
— “O horror”.
— “O horror”.
A fala citada pelo Coronel Kurtz. No final do livro de Joseph Conrad “Heart of Darkness”: “O Coração das Trevas” ainda estava presente no dia a dia de suas rotinas na dimensão outra, pós vida.
Miguelito continuava, ele também, na realidade da vida deles em outra dimensão do existir. Continuavam a reproduzir a vivência pessoal e coletiva do Coração das Trevas. O sonho americano do capitalismo selvagem não possui, outra, uma mudança alternativa de sensibilidade. Mesmo depois de mortos continuavam sem saber o que significa
— “O horror”.
— “O horror”.
O terror moral de uma consciência avassalada pela Terra em Transe, pela “Terra Devastada” que ele vivenciava, ainda depois da morte dos pais. A presença sobrenatural do espírito deles, atormentando ainda sua vida. A vida de sua mulher. Mesmo depois de mortos. Os sete palmos de chão não foram suficientes para mantê-los sob a terra. Distante da dimensão dos vivos. O espírito atormentado do pai insistia em permanecer no mundo dos vivos.
Estariam seus espíritos dantescos, os espíritos dantescos de seus pais, ainda depois de mortos, querendo se apossar dele, pela via de suas feridas emocionais??? Destruir seus sonhos, seus objetivos de vida. O portal ao qual tinham acesso em suas mentes, a dele e a de sua mulher, após o evento tenebroso, surgido, manifestado no fenômeno da “névoa verde” na ocasião de seu casamento, teria aberto um portal para a convivência sobrenatural com as sombras dantescas do mundo dos mortos??? Mortos de alguma forma também vivos. Com acesso a ele, à sua consciência.
Queriam seus mortos desolar, inutilizar, tornar estéril suja vida, pensou Miguel. Estava a atormentá-lo, seu pai morto, sua mãe morta, com o horror que estavam a vivenciar no mundo dantesco dos mortos, do qual, através dele, queriam sair??? Queriam transformá-lo num morto-vivo, num personagem cinematográfico de um filme não tão de ficção???
— “O horror.
— “O horror”.
A repetição desta palavra apavorou a consciência de Miguelito ao despertar do pesadelo, no qual sua mãe e seu pai biológicos, sob sete palmos de chão, ainda querendo influenciar seus atos, sua vida, seus movimentos.
A percepção consciente dos corpos mortos próximos, presentificados de uma forma física, quase que corporal, como se estivessem a dizer que não estavam de todo ausentes da proximidade física. O horror nele se revelou no enunciado expresso de que os mortos estão, depois de mortos, com acesso ao mundo dos vivos, a influenciá-los de uma forma material, quase corpórea, perceptível. Horror: O horror sensitivo, o horror emocional visível, indicando-lhe o que fazer, sugerindo ações. Talvez o mundo dos presuntos esteja muito, por demais próximos ao mundo dos despertos, dos que dormem o sono, e sonham os sonhos dos vivos.
Daniela quebrou o silêncio e falou em tom pensativo:
— “Inteligência emocional Percepção consciente do corpo atravessando situações inusitadas, vindo do astral sobrenatural. A situação existencial cognitiva, advinda da memória de vidas passadas: raciocínio abstrato e planejamento, adaptados às experiências de uma nova vida. Vida presente, aqui está”.
— O portal entre mundos, entre dimensões, não deveria se comunicar??? Os fantasmas do passado e suas vidas apressadas como a passagem de cometas, vindos de outro universo interestelar.
— “Vida concreta, perceptível, visível, sensível, material, palpável, tangível, tátil, tateável, tocável, corpórea, complementou Miguel”. Os pais dele fizeram uma tentativa de entrar no mundo dos vivos. Que poderiam querer com ele??? E conseguiram falar com ele, tocar nele. A carne gelada da mãe falou bem próxima a seu ouvido. Não foi uma experiência construtiva. Daniela, após matutar por momentos disse:
— “Não aceitou ela ter perdido o poder que exercia sobre você. O poder da brutalidade. Usa-te para se manter, de alguma forma, nesta dimensão”, disse ela. A força do poder que tinha ela sobre te, a possibilidade de continuar vivendo nesta dimensão, após ter brutalizado seu corpo, física e mentalmente, com espancamentos e ameaças, através da atuação do marido.
— “Meu pai brutalizou meu corpo com violência física, visando obrigar-me a aceitar, com ameaças, a imposição de sua patologia educativa, desde que nunca esteve preparado para ser marido de uma mulher que o submetia às suas taras de ficar grávida todos os anos, a enchê-lo de responsabilidades familiares às quais nunca esteve preparado a cumprir”. Miguel, após um tempo a meditar, falou:
— “A estratégia familiar deles tinha por objetivo criar vulnerabilidades nos filhos para impor, futuramente, quando estivessem mortos, a presença de seus espíritos nos nichos abertos em suas almas pela violência intencional da intencionalidade necrófila”. O espírito dos mortos permanecem vivos”.
Daniela como que complementou o raciocínio do marido:
— “Que poderia fazer você e seus irmãos, sempre sob a ameaça de uma mente poderosa em alienação mental materna, e da ameaça simultânea de espancamento físico da parte do pai??? Acredito mesmo que se casaram com a intenção de apossarem-se das fragilidades que impunham aos filhos, visando tê-los, após a morte deles, um nicho, um Avatar, para suas almas se apossarem deles, sobrepondo às mentes dos filhos vivos as almas deles”.
Daniela continuou o raciocínio, após breve pausa na fala:
— “Essa espécie de necrofilia que vem de longe, passa de geração a geração por milênios de dominação emocional, mental... De geração a geração, o DNA astral, o passado da espécie, se perpetua através das influências impostas pela geração pretérita à geração seguinte”. Miguel, ainda pensativo, tentou acompanhar o raciocínio de Daniela:
— “A influência do Inconsciente Coletivo Subliminar domina a sociedade a partir da imposição familiar, e de uma educação escolar promovida por gente forjada no mesmo reservatório, depósito astral dos mesmos filamentos genéticos presentes no DNA da espécie. O futuro sempre será influenciado pela intencionalidade necrófila da geração antecedente”.
Daniela tornou a opinar:
— “Esses seres reais, dos quais pouco sabemos, de onde vieram, de que constelação, de que e estrela, que tipo de sol iluminou seus corpos quando em vida no planeta original deles??? Quantas luas giravam em volta do planeta deles??? Criaram-se criaturas sobrenaturais. Seres espirituais que podem nos atormentar, mesmo depois de mortos. Escravos do medo na vida e na morte. Vassalos para sempre”. Vivemos sob a influência deles, do medo.
— “Sim, disse Miguel. Delinquentes Ets, criminosos, réus para sempre. Somos seres servis, subjugados a sentimentos de culpas milenares. Malas de culpas sem perdão, pecados originais, vulgares, conhecidos, comuns, imitados. A Matrix, do Terceiro Olho Acusador nos olhando e culpando para sempre. Cada gesto, cada cesto, cada alento, cada pensamento”.
Miguelito, desabafando, continuou:
— Somos feitos de inveja, orgulho, luxúria, gula, ganância, preguiça, ira.
— “Opressão, dilacerações, mortes, conflitos, sequestros, guerras, membros feridos, detonados, voando pelos ares como se fossem peças de máquinas, quem sabe num futuro próximo, possamos ser substituídos pela mecânica ciborgue. Corpos sacrificados pela ganância, pelo odor de sangue, atraem entidades maléficas, subterrâneas, vampirescas. Horror que se sucede sucessivamente sem cessar, por milênios. Guerras quentes, guerras frias. Povaréus, turbas, tropéis de tropas avançando, baionetas em punho, umas contra as outras, gritando, odiando, dilacerando-se mutuamente”.
Após breve pausa ele continuou:
— “A ameaça de cogumelos atômicos pulverizando milhares, milhões de corpos. Lideranças mundiais provocando-se mutuamente neste sentido”.
Daniela por vezes era assaltada por pesadelos. Ela, por vezes, despertava assustada, suando frio, sentando-se na cama de repente. Coisas terríveis, acontecimentos temíveis que invadiam vidas. Eras antigas perpassavam nela como se fosse um filme macabro. Temeres de outras vidas preservados.
— “Esses pesadelos não vão acabar nunca”, perguntou-se Dani. Miguelito que tinha despertado, retrucou: “Oh não, quem sabe com eles, com toda essa tensão vinda deles, possamos encontrar o caminho para romper com esse elo genético, imposto pela Criação do Homo sapiens da Matrix”.
— “Os senhores da criação. Os deuses que disputam a submissão recessiva da Criação”, disse Daniela sentindo-se meio apavorada: “Precisamos, com tecnologia biogenética, aprender a romper o elo genético que nos torna prisioneiros da Matrix da Criação”, foi a resposta de Miguel.
— “Só mesmo uma vontade sobre-humana, ciclópica, poderá nos livrar do peso milenar da Matrix. É possível que os Ets Caídos, tenham previsto a estratégia futura dessa vontade extraordinária, vinda dos gigantes mencionados no Livro de Enoch. Os destrutivos Nefilim”.
Daniela permaneceu calada. Ela não tinha uma sugestão adequada, mas ousou dizer:
— “Nunca saberemos ao certo se os Caídos queriam, a partir de seus filhos Nefilim, dotar o nosso futuro da força e do poderio físico que nos permitiria superar nossa condição de fragilidade humana”.
— “De vulnerabilidade genética”.
(ESTA É A PRIMEIRA PARTE DA NOVELA COM TEXTO REVISADO LITERARIAMENTE)
DECIO GOODNEWS
Enviado por DECIO GOODNEWS em 17/01/2026