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BODAS VINTAGE REPTILIANAS
BODAS
VINTAGE
REPTILIANAS

A noiva estava bela, vestida com tecido, tecido do cimento armado tradicional dos vestidos de noivado, apertou a mão de seu querido e aluado namorado, e disse:

— Querido, esses punhos de chitão nesse elegante terno aveludado, está tão bonito que eu, ao te ver nele, até ne comovi e chorarei.

— Querida, você motivou minha vida. Antes de você eu invejava quem namorava. Com você reencontrei a ficção feliz na realidade do casamento.

Neste mesmo momento ouviu-se uma voz engasgada, presa, perturbada, a dizer, vinda da sacristia da pequena ermida, onde o padre guarda os paramentos: uma arara, que nem um papagaio, falava:

— “Parabéns paisano, vale tudo no ânus. Craaahahah, Quackre, Craaahahah”!!!

O sacristão enrubesceu. Ele havia comprado a ave na feira, preço módico, para presentear o padre que oficiava na paróquia de Nossa Senhora dos Partos. Não sabia, nem de longe, que o bicho falava coisas pouco edificantes. Monsenhor estava de aniversário, completava 69 ânus. Ele caminhava em direção ao altar, mas voltou-se surpreso ao ouvir a ave falar. Desviando os olhos da sacristia, caminhou em direção ao altar. O noivo, elegante e perfumado, querendo agradar a escolhida, responde à pergunta do padre: — “Sim, eminência”. Mais que tudo mais na vida.

Nesse instante um jegue soltou zurrado alto e longo, como se estivesse zombando do sagrado evento. O zurro do brito durou um tempão e se repetiu duas, três, quatro vezes. Quando todos tinham certeza que o jegue tinha parado de surtar, ele começou a zurrar outra vez, com a mesma disposição de antes.

Madona Aldenora, mãe do distinto noivo, que o criara bem-dotado, a custo não conteve o riso e ao mesmo tempo o vexame. O burro, mostrando acintosamente os dentes, parecia estar em crise de surto, não parava de zurrar, escoicear e mostrar os dentes, talvez numa crise de vera felicidade sem explicação racional. Exceto pelo surto. Ameaçou recomeçar a série de zurrados, mas seu Mundico, tio da noivinha e guardião do patrimônio, tinha pegado um cipó de ayahuasca e lenhou o lombo do bicho com vontade de tangê-lo para um lugar o mais longe possível. O burrico saiu escoiceando e peidando que nem um bicho que estivesse esconjurado.

— Toma tento, criatura, se acalma animal dos infernos, para com esse bafafá, estrupício. Mundico tangeu o animal para longe da capelinha onde se casava o casal, agora se sentindo um tanto quanto agastado.

Após a cerimônia nupcial, o casal e o núcleo do evento festivo se posicionaram num cercadinho enfeitado de flores donde recepcionavam os convidados. Dali atendiam os convivas e seus presentes. Para cada conviva, uma rosa vermelha perfumada artificialmente com odores de Chanel Five.

O quintal do casarão fervilhava de vera festividade. Os pais de Evita, a noiva, apartaram, com a ajuda de dois ou três peões de galinheiro, a baderna que um filho de uma égua causou ao espalhar o boato de que a noiva não era mais aquela. A dupla sertaneja “Xôtãozinho & Procotó”, vendo tudo de longe, parecia estar divertindo-se, sentada numa mesa próxima ao palco montado para o show musical em homenagem aos convidados.

Um cavalo preto, chamado Afrodescendente, apareceu em meio às mesas frente ao palco, galopando, desembestado. De quando em vez parava o galope e escoiceava o ar, como se estivesse com ciúmes da atenção de todos para o casal cerimonial. Estaria sentindo-se excluído??? Pouco tempo depois o animal, a escoucear o ar, foi contido e levado ao curral do qual se distanciara. O bicho exibia, para o desconforto das famílias supostamente conservadoras presentes, o enorme pênis vascular desembainhado. O tônus erótico do garanhão não ficava flácido facilmente. Algumas madames, admiravam o pênis do bicho com as mãos levadas à boca, outras tapavam os olhos em atitude de pasmo envergonhado.

Os relinchos intermitentes finalmente pararam quando a dupla sertaneja “Cabritinho e Carijó”, começou a cantar, programada para anteceder a apresentação de “Xotãozinho & Procotó” e da dupla “Matraca & Matriarca”. A dupla ocupava os microfones enquanto os amplificadores levavam o som dos músicos para os confins das mesas dos convivas mais distantes do palco. Marília Mendonça seria a próxima na programação.

Seu Mundico, zelador do sítio, zelava pela saúde dos animais de quatro patas, aproximou-se de Tarik, o Afrodescendente, e o acalmou com palavras berradas de repreensão, e ao mesmo tempo de alento, como se ele, trata dor, soubesse o que havia causado essa mostra de inquietação e fúria no corcel. Havia um código de comunicação entre eles: o cavalo e seu trata dor. O corcel Tarik, uma vez acalmado, seu Mundico pode laçar o animal, encabrestá-lo, e sair da proximidade do palco ao ar livre, continuava a dialogar com ele, ainda parecendo repreendê-lo, enquanto caminhava a puxar firme o cabresto.

Madona Aldenora sempre a observar as conversas do trata dor com o garanhão, buscava, mais que ouvir, assuntar, aprender como Mundico fazia para ser ouvido pelo animal, como se as conversas entre eles tivessem uma afinidade que ela não conseguia explicar: Aldenora assuntava a comunicação, a prosa de conversa ativa, telepática, que parecia haver entre eles: os cavalos com seu Mundico. A amizade entre ele e o garanhão Branco não passava despercebida de Aldenora, lhe parecia ainda mais íntima, cordial e estranha.

No momento, ela tinha de prestar atenção no desenrolar da celebração do casamento do filho: a receptividade, os convivas, as badalações distrativas, as conversinhas de pé de ouvido entre as comadres e a parentela da noiva, agora mulher do filho. Ela queria prever, mas não previa totalmente, os desdobramentos do casamento, até a lua de mel. Aldenora facilmente se entranhava na alma do filho, aprofundando-se nos sentimentos.

“Lua de Mel”. Essa pronúncia ecoava longe, na profundidade distante do psiquismo mais longínquo dela. A noiva de seu filho dele se apossara. Ela, que o carregara por nove meses no ventre e o criara, não teria mais como tê-lo sempre perto, na intimidade dela para consigo mesma. Ensimesmada, ela guardava certa mágoa por ter sido trocada por outra, pela noiva. Mesmo sabendo que, com o passar dos anos, o amadurecimento teria de levá-lo para longe dela. “É, são as coisas da vida”, murmurou de si para consigo mesma.

Madona Aldenora pensava: de alguma forma ela também era a noiva, a mulher nobre que parira o filho e merecia dele toda dedicação. Sem ela, ele não existiria. A melhor vitalidade dele, deveria ser dela. Deveria ser dela o big-gang orgasmo da noite de núpcias. Lembrou-se da amizade entre Mundico e o corcel Branco. A transmissão telepática que os unia nas conversas na baia, ou quando o montava no passeio matinal. Ela estava a assuntar na cavalariça subjetiva de sua mente de mãe e nubente. Mas ela sabia, não poderia ser a esposa sempre ao lado do filho. Mesmo sabendo que, onde quer que ele estivesse, sempre seria ele, o menino dela. O homenzinho dela. Sempre por ela rastreado. Sempre por ela dominado em suas percepções de mãe, mulher dedicada.

Não haveria na mente de Aldenora paz, nem céu azul, se o produto da criação dela, o filho, o noivo, o marido, não pudesse satisfazê-la, mais e melhor, do que a qualquer outra fêmea. Ela, a mãe, ela, a noiva, ela, homenageava, desde sempre o nome do deus Alden. Ela, a mais nobre das mulheres da família dos quatrocentões: seu nome tinha peso social, econômico, político: Aldenora Leme do Prado Furquim Almeida Castanho Freitas Cunha Gago, herdeira, por parte de mãe, dos Dias Arruda Botelho.

Ela se julgava a mais nobre da espécie. Elas, as outras, nunca poderiam usufruir do lugar memorial no qual se encontrava. Agora. Aqui. Nos confins significativos da libido, da percepção aberta em sua mente, no portal ancestral do tempo perdido, proustiano. Ela vivia dele, no tempo supostamente glorioso do passado. Aprendeu, com leituras mal absorvidas de Proust, a memorizar-se.

As pessoas, os convivas, as autoridades judaicas, jurídicas e políticas, as demais mães e suas filhas, falsas sibilas, sem o poder da profecia, do conhecimento e da iniciação que ela, Aldenora prezava. Ela observava as mulheres viventes no mundo supostamente casto da contenção, da miúda mente da burguesia que se queria herança da realeza europeia, realeza dos piratas vindos nas caravelas e fundadores da monocultura da cana de açúcar.  

A hipocrisia plugada na fixação de ter sempre mais moinhos de cana de açúcar e de ventosidades.  A criação das condições para o surgimento do ser esconso, oculto nas mentes, pesquisado na ciência dos doutos, badalado no silêncio e na gnose dos cultos ocultos da tradição, pertencentes à erudição da ordem dos estultos. Esse ser, filho dela saído, a tantos mil anos de suas entranhas emprenhadas pelos Caídos, mas jamais reveladas, exceto no mundo físico do armazenamento na nuvem de sua mente. A tecnologia dos aflitos não teria, nunca, acesso à memória imemorável dela. Ela, fêmea do convívio de anjos, seres celestes, de notação histórica bíblica.

Seu Mundico, o cavalariço. de seu pequeno mundo pessoal, espreitava a ânsia dos que vinham da cidade. Pareciam sempre atazanados, como se partícipes da alimentação antropofágica do tempo, pareciam devorar a passagem das horas, a pulsação do latido dos cães raivosos, ávidos por posse, por ter mais e mais e mais. Seu Mundico acreditava encontrar-se num lugar de calmaria, donde podia exercitar a percepção do 3° olho. A partir dele, a todos via e ouvia, sexto sentido aguçado, talvez pela telepatia com cavalos, com quem se comunicava no silêncio e na azáfama da estrebaria.

Nas baias separadas da cavalariça estava a presença insubmissa da mais natural das tecnologias primitivas, intuitivas: a força arrasadora dos nervos e do físico, do espírito insubmisso desse animal, Grano, o Cavalo Branco, que lhe segredava segredos do insuspeito mundo das mulheres humanas. A imaginação e a memória de Aldenora reveladas no trato com equinos lhe revelava muitas coisas. Os equídeos eram telepatas emissores. Ele, um telepata receptivo. Também emissor de mensagens em direção às mentes equinas, com as quais mantinha diálogo.

Grano, lhe tinha dito que Aldenora guardava no mundo, quase inacessível para a maioria das mulheres de seu conhecimento, a memória milenar dos relacionamentos físicos com os Caídos que deram origem aos Nefilins. Ela se julgava uma mulher humana do tempo bíblico citado em Gênesis, Números, no Livro de Jó, no livro apócrifo de Enoch e em outros alfarrábios. Manuscritos em sumério e hebraico.

Os Nefilins, seres antediluvianos, que um dia dominaram terrivelmente a Terra habitada também por elas. Elas, as fêmeas humanas eram facilmente sodomizadas por eles, como se fossem animais, brinquedos abusados, e até cavalos. Os machos humanos, nem de longe, poderiam competir com eles, eles, eles filhos dos Anjos Caídos com madonas terrenas. Aldenora, no fundo de seus quereres, ainda guardava a memória daqueles seres. Com uma dose cavalar de sadomasoquismo nas emoções desumanas, nos nervos.

A memória milenar da posse de seu corpo desejoso e indefeso. Como poderiam reagir à pegada desproporcional deles, filhos dos Anjos Caídos??? Deles, filhos gigantes do conluio bestial entre Anjos Ets e fêmeas da espécie humana. O Grano, inquieto na baia, dizia, diretamente à mente do tratador Mundico, por meio de entranha forma animal de telepatia, que a memória de Aldenora desses eventos, anteriores ao Grande Dilúvio, voltava a surgir em seus momentos de fruição erótica da relação sexual presenciada por ela, entre cavalos e éguas no cio.

Aldenora adaptara a memória daqueles eventos bestiais entre os filhos de Anjos Ets Caídos, com mulheres humanas, à sua própria realidade de mulher sedutora e seus desejos intrujões. Sedutora e fêmea, à revelia deles, se servia, a seu modo, desses seres humanos, tão menos eroticamente capazes. O desejo sexual nela se acentuava, quando sentia as mensagens telepatas do Grano, o Cavalo Branco, ganhar sua mente e inundar seu corpo de um desejo mórbido e desproporcional, advindo dos tempos antediluvianos. A telepatia emissora do Grano, lhe dizia, na quietude dos rápidos relinchos, que ela lembrava da posse dos corpos das mulheres antediluvianas, posse de seus corpos indefesos, diante da investida desigual dos Nefilins e seus órgãos sexuais não mencionados no Livro de Enoque.

Grano em sua baia, esperava tranquilo o momento de realização maior da mágica façanha desejada por Aldenora. Ela se imaginara sendo possuída pelo membro ereto de 50 cm do cavalo. Seu filho que se unira na cerimônia de casamento com a noiva Angelita, singela donzela, não tão virginal, estava longe de saber que seu noivo tinha sido produto do sêmen e da mórbida relação sexual dela, Aldenora, com o garanhão Branco na baia, numa madrugada chuvosa e sombria, apesar dos relâmpagos e trovões que assombraram a herdade, lá estava ela, excitada perto dele. Talvez fosse seu filho, filho do esperma recolhido do garanhão, talvez apenas em sua distorcida imaginação.

A herança dessa memória, ancestral, por ela preservada nos confins de sua mente inconsciente, talvez tenha originado a peste do “vírus emocional sodomita” que assola a espécie sapiens desde seus mais longínquos ascendentes ancestrais, os Nefilins. Os Anjos Ets Caídos, teriam sodomizado também os filhos do sexo masculino das mulheres que com eles coabitaram.  A espécie Homo sapiens ainda paga por seus desregramentos anciãos.

Aldenora tinha em mente que os judeus do Templo de Salomão, administravam um portal para demônios e sacerdotes satanistas, descendentes dos sodomitas escravizados, por quatrocentos ânus, no Egito. Eles e os negros negreiros, por trezentos ânus sodomizados pelos senhores e feitores da Casa Grande, são seus mais característicos descendentes e sucessores. Herança cultural ancestral dos Nefilins, Aldenora se tinha como sendo uma Sacerdotisa da Serpente Narciso de um culto originado, saído das mulheres saídas da convivência com sacerdotes do Templo de Salomão.

A festividade do casamento parecia envolvida num circuito de eventos bizarros, a começar pelo momento em que o padre terminava a cerimônia de casamento, ouviu-se a voz, outra vez engasgada, presa a uma pronúncia cava, quase afônica, que parecia ironizar o sagrado ofício litúrgico, a repetir:

— “Parabéns paisano, vale tudo pelo ânus... Craaahahah, Quakreka, Craaahahah,”!!! — “Sim, eminência”. A pergunta à noiva fora respondida, mas não sem um senão de vexame e perturbação em meio à cerimônia. Para completar a vexação, ouviu-se o zurrado intermitente do brito, com uma disposição e fôlego dos diabos. Disposição contida com o cipó de ayahuasca de seu Mundico. O brito, uma vez vergastado, saiu pulando, escoiceando e peidando alto, na proximidade da ermida onde se realizava o casório. A capela da Fazenda estava lotada de convidados. Não poucos, a muito custo, contiveram o riso.

O cérebro reptiliano de Aldenora convocava e conversava com o cérebro límbico dela e dizia: “uma mulher, uma fêmea humana ou não humana, nasce para ser Sacerdotisa da Serpente Narcísica da Criação”. Um macho humano nunca teria como seduzir uma mulher da satisfação insana que delas fazia brotar a penetração uterina e anal de um Nefilim. Um Nefilim poderia chegar a cinco metros de altura. Ela pensava: “qual a dimensão de seus pênis”??? Nem o Livro de Enoch mencionara essa informação. Mas ela, mórbida mente imaginava estar sendo penetrada por um dos filhos dos anjos caídos..

Grano, na baia havia capturado a memória ancestral de Aldenora. Sabia ele de suas necessidades mais esconsas, dos pensares que mais a afligiam.  O que ela escondia nas reentrâncias de seu cérebro agitado, reptiliano??? Ele, Grano, o Cavalo Branco, sabia.

O transtorno maníaco-depressivo de sua própria alucinação, Aldenora buscava controlar. Ela pensou naquela mulher alegrete, aparecida na Tv visão: sempre animada, agradável, simpática, de sorriso largo, uma verruga no meio da testa, parecendo sempre mexida e estimulada, animada por estranha e íntima alucinação, como se fosse uma marca registrada da sua 3ª Visão. Sem saber por que, a memória empática mudou o paradigma, no pensamento mais interiorizado dela.

Aldenora olhava, na festa, com certa admiração, a figura da atriz sempre risonha, de vera promiscuidade gratuita, assanhada, safada. Por quê??? Ela se perguntava. Seria porque ela, ocasionalmente, a viu no Bigbrother da Globo e se impressionara com sua exagerada entrega da mulher de programas que ela era??? Da mulher sem freios que ela, Aldenora, sempre desejou ser???
  
De repente ela, Aldenora, mudou, outra vez, o paradigma do se pensar. A atriz do sinal na testa tomara assento entre os convivas na mesa das autoridades onde, do vereador ao governador, tomaram assento os supostamente ilustres convivas na comemoração matrimonial.
        
As realidades se misturavam na tela mental perturbada dela. Por mais que tentasse controlar os acontecimentos da festa, os eventos menores surgiam e perturbavam o bom andamento do que seria normal ocorrer na celebração. As memórias sobrepostas a inquietavam. Na simples aparência, ela parecia imperturbável. Mas, as circunstâncias festivas não permaneciam em curso de normalidade. Coisas estranhas aconteciam não apenas em sua percepção, mas também na realidade existencial dos eventos festivos.

O pênis vascular ereto de Tarik, o cavalo afrodescendente, a desfilar frente a mesa dos convivas, indicava que algo estava errado no geral dos acontecimentos. O orgasmo do Grano a lambuzar a entrada e os arredores de sua vagina, na madrugada por ela memorizada nove meses antes do nascimento do filho, a anamnese recorrente dos Nefilins, as memórias se mixavam em seus pensamentos, tentando harmonizá-los.

As pessoas que a rodeavam eram necessárias, mas também a perturbavam. Talvez ela estivesse sendo tomada pelo “efeito manada”: muitas pessoas juntas perturbavam as demais outras mentalidades. Por trás dos sorrisos simpáticos e da descontração geral promovida pela ingestão de cervejas e do whisky, Grano, mensageiro telepático dela, estava a fortalecer a frágil rebeldia da realidade em sua interioridade.

Aldenora achava brechas nos momentos da festa, para manifestar a veracidade de sua alma perturbada. Ela teimava em fortalecer presença. O significado de seu nome estava a cobrar dela uma inquietação inusitada: “aquela que vive de sonhos”. Mas, quem não vive de sonhos??? A própria matéria é feita de sonhos. Por vezes, preciosos sonhos, pensava ela.

Mas, a sensação comunicada a ela pela mente telepática do Grano lhe dizia, com poderosa insistência: “a festa é uma armadilha”. Suas culpas a atemorizavam. A antiga, obscena, impiedosa e persistente sensação reptiliana de nostalgia não lhe dava trégua. Não, não poderia a ela se abandonar. Decisões inconscientes poderiam advir daí, ela poderia perder o controle do que estava por vir. A afeição persistente pela memória do passado mais remoto. A manifestação imemorial dos Nefilins. A aparência antiga e reptiliana dos convivas, como se eles, sem querer, estivessem a revelar suas verdadeiras faces. Os arquétipos mais originais que dominavam o psiquismo deles, sem que soubessem, para ela eram visíveis.

O governador de sorriso que traduzia a supremacia de um réptil. A visão penetrante de Aldenora a fazer aparecer a real idade por detrás da aparência rejuvenescida pelos cosméticos. A realidade manicomial dos convivas revelava-se por trás da máscara facial de suas formas inumanas, reptilianas. Ela se questionava. Não havia ingerido nenhum alucinógeno. De onde vinha esse superpoder de ver o que as pessoas estavam, inconscientemente, a esconder??? Certamente tais imagens eram geradas na mente telepática do Grano. A poderosa telepatia do Cavalo Branco!!! Só podia ser, dizia-se ela.


Seria essa realidade destorcida uma emanação da mente do Grano??? Ela se perguntava, mas não achava uma resposta adequada. Todas essas pessoas eram personagens de uma realidade proveniente de dimensão outra??? Entidades não humanas estariam a se manifestar no esconderijo da aparência física humana??? Estavam essas pessoas vendo o que ela estava vendo???  Por que a visão dela ultrapassava os limites das aparências, e a visão dos convivas não??? Estariam também eles vendo o que ela via???

A área reservada aos políticos parecia a mais animada. O governador se aparentava um réptil de dissimulada aparência disforme e malcheirosa. O sorriso largo tinha a intenção de abrandar e disfarçar a real e odienta intenção do disfarce reptiliano. Seria ele um Androide híbrido Et, a se esconder por detrás da aparência humana??? A orgulhosa demonstração de poder político e econômico não conseguia esconder-se por sob a simpatia simulada do sorriso pretensamente favorável às demais autoridades que o cercavam??? A intenção aliciante sempre presente em suas falas, ele não podia esconder. Pelo menos para ela, Aldenora, a que vive a simpatia dele pesadelo. Seria uma explicação por ser também ela uma reptiliana???

A forma e o odor reptiliano somente ela sentia??? O medo da migração reptiliana de latino-americanos para os EUA, estaria a motivar a política paranoica do Trumpismo??? Estaria a mente paranoica de Trump deportando, não seres humanos, mas reptilianos criados por seus problemas psíquicos, por seu delírio político sistematizado??? A Teoria da Conspiração que cerca os republicanos estaria a motivar a perseguição paranoide e a esquizofrenia dos membros republicanos de seu partido???

Estaria Aldenora, ela também, influenciada por esquemas e estratégias PSI que estariam induzindo pessoas a acreditar numa invasão reptiliana do mundo por Ets quejandos??? Esses répteis estariam infiltrados no Inconsciente Coletivo da Espécie Sapiens??? Teria essa espécie Alien projetos políticos e tecnológicos de dominação planetária em curso??? A conspiração reptiliana teria tido início nos répteis que deram origem à espécie humana a partir de mutações que tiveram início nos animais rastejantes saídos do mar há milhões de anos???

Aldenora lera “A Doutrina Secreta” de Helena Blavatsky. Estariam seus pensamentos influenciados pelas referências aos homens-dragão, reptilianos que tiveram uma civilização que dominou a Terra a partir do continente lemuriano???  Portadores de poderes PSI e habilidades mentais que ainda hoje se manifestam na configuração atual da sociedade secreta dos Illuminati??? Seu pai, Gerardo, era um médico respeitado e tinha algumas bizarrices sem explicação plausível. Apesar de paulista, era torcedor do Vasco e tocava Celo, assim como fora homenageado por criminosos PM.

Eles, militares saudosos da ditadura, afirmam que um poder amplo e definitivo nos observa em todos os lugares. Esse poder múltiplo é partilhado por civis, no pensar múltiplo de Aldenora. Isso a inquietava sobremaneira,  Achava-se achar acometida da “Síndrome do Pensamento Acelerado”, descrita no livro “Ansiedade” de Augusto Cury, psiquiatra, professor e escritor brasileiro, autor da Teoria da Inteligência Multifocal.

Todas essas ideias vieram à mente de Aldenora, sobrepondo-se umas às outras, como se em um átimo de segundo, no tempo PSI de sua percepção alterada, pelo poder do Inconsciente Coletivo na Festa. Parecia estar consigo a vontade de parecer civilizada, apesar do inflexível interesse em firmar a dominação que se sobressaía der suas entranhas. Elas lhe pareciam amedrontar por serem antropofágicas e reptilianas. O governador e seus pares circundavam a atriz e modelo risonha, a da verruga na testa. Ela ostentava um sicoma verrugoso, a representar uma possível visão do 3º Olho, símbolo dos folclóricos Illuminati.

O coração da mulher Aldenora batia forte, acompanhando a pressão desumana que emanava do ambiente escamoso, coletivo festivo. Seus convivas pareciam, de maneira camuflada e discreta, definidos por profissionais da biologia e da medicina que têm o corpo com pele que se assemelha a células, tecidos com formatação semelhante a escamas. Em seu delírio visual pareciam todos repteis.


A privacidade se esconde nas aparências. O sorridente governa a dor de uma sociedade desgovernada, governa de seu palácio político privado, uma cidade com mil problemas sociais, os quais ele apenas faz de conta querer solucionar. Em verdade o governador governa para seus interesses privados, ao do político que o indicou candidato, e a seus milionários de estimação. Ele se diz de um partido conservador, na realidade é um bandalho que não controla seus instintos, os mais primitivos e depravados.

O governa a dor da sociedade do Estado mais rico do país, banca o jogo dos ricaços fascistas que apoiavam o líder da extrema direita nacional ao qual servem de modo incondicional e subserviente. No templo filisteu no qual se aloja, seu Palácio, ele cuida de conseguir manter as aparências, ao esconder a corrupção endêmica que o sustenta, a qual busca ostentar o menos possível.

Aldenora monitora todas as dependências do rancho na fazenda. Seus segredos eram uma questão de mantê-los sob sigilo por uma questão de sobrevivência. Ela precisa devorar a delícia do bolo abastado, luxuoso, educadamente comê-lo sem deixar que muitas migalhas caiam da mesa milionária, para que o banquete dos mendigos não seja farto o bastante para revigorar suas forças sociais.

É preciso para ela, Aldenora, conservar e acreditar no poder conservador oculto operando nas sombras de suas intenções, a social, política e econômica. As mais graves tensões de bastidores precisam permanecer fora dos olhos curiosos da imprensa, do público, das milhares de vítimas, dos milhões de eleitores enganados por suas lideranças extremistas com apoio econômico e político da Casa Grande e Branca, em Washington.

O mundo Cão invisível da corrupção precisa preservar-se dos olhos críticos. Ao olhar para a aparência risonha e ávida do governador, Aldenora podia ver seu olhar antropofágico, radical, canibal, com o qual o político devorava a paisagem geral do ambiente festivo dos festejos de casamento.
Ela pensava de si para consigo: Por que os reptilianos não podiam ser vistos tal qual eles são??? Por que camuflavam as aparências, mostrando-se como se fossem humanos??? A hostilidade dos reptilianos para com as famílias humanas se mostrava, exatamente, na paciente dominação da sociedade pelas aparências humanoides. Os humanos se acreditavam humanos, quando, realmente, não passam de reptilianos disfarçados??? A manada dominada sob seus comandos é o que mantêm a farsa??? Aldenora buscava respostas.

Os répteis desenvolveram uma tecnologia de camuflagem high-tech: os humanos parecem humanos, realmente são reptilianos??? O objetivo é a obtenção da vitória final sobre a humanidade. Na realidade o objetivo deles é conseguir um golpe de Estado que permitirá a tortura e prisões dos opositores e adversários de suas políticas golpistas??? Querem eles implantar, seja como for, a submissão social do “feito manada” imposto radicalmente aos mais fracos, à população social mais vulnerável???

O chefão do governador elogiava constantemente o coronel Brilhante Ustra, um sádico que submetia os prisioneiros políticos da ditadura a vexames físicos e psicológicos inomináveis, nos porões do poder gerido por generais quatro estrelas coniventes ao sadismo anônimo de seus subordinados. Aldenora via o governador e comentava, de si para consigo: “o verdadeiro poder e o dinheiro dos políticos nunca aparecem em público. Eles, fisicamente, sim”. Ainda assim suas aparências nem sempre enganam.
A aparência sorridente do governador não revela as alianças e as negociatas que moldam as tendências do mercado e que, em parte, dependem dele e de sua politicagem de extrema direita, para se tornarem operacionais, conectadas juntamente com os tecnocratas da Faria Lima. O governador, de si para consigo pensava com sua mente reptiliana, enquanto olhava, sorridente, o desdobramento dos eventos na festa de casamento. A transmissão do pensar se adensava no Inconsciente Coletivo da Festa.

A habilidade de comunicação entre os convivas da festa, parecia à Aldenora, num contexto clínico, um delírio telepático no qual ela acreditava que os delírios de seus pensamentos eram transmitidos a ela pelo Cavalo Branco, e dela para os outros demais convivas da festividade. Ela acreditava ser uma realidade de sua condição psiquiátrica afirmativa do poder da mente do Granol, o Cavalo Branco. Neste contexto de crença o conceito se valia de forma espiritualista e parapsicológica, na forma de sintonia mental ou por meio de “fluido universal”. Pode também se manifestar como sendo um  sintoma de esquizofrenia, no qual o pensar é percebido como sendo privado e ao mesmo tempo exposto a outras pessoas, podendo influenciá-las de forma positiva ou negativamente.

A transição réptil da água do mar para a terra dos répteis, hoje com aparência humana, se forjou a 320 milhões de anos. Desde o período carbonífero existem os lagartos primevos que ela, Adenora, acredita que são, nos dias de agora, a evolução presente em seu orgulhoso trabalho telepático. Hoje, ela acredita que o mundo de seus conterrâneos se dedica a beber o sangue dos humanos de forma sub-reptícia, de forma dissimulada, por meios políticos e sociais ilícitos e fraudulentos, através da corrupção institucional.

Aldenora crer que a maneira objetiva dessa sucção social sanguínea na realidade das pessoas, acontece com as poderosas autoridades bebem o conteúdo de garrafas de vinho Grand Cru Montrachet, colhidas e industrializadas com uvas em plantações de 23 milhões de euros, cerca de 130 milhões de reais, por hectare. Ontem, seu mestre corrupto e tutor político, recebeu de presente de uma liderança politica asiática, além de joias, meia dúzia de garrafas de Domaine de la Romanée-Conti, 1945. Cada garrafa possui o custo de US$ 558.000. Aldenora pensou de si para consigo: “não mereço este precioso presente, mas meu mentor político tem feito por onde merecer. Ele e seus filhotes protegidos do extremismo de direita.

Ela, mulher empoderada por contatos poderosos com sede na Bolsa americana, manipulada por operadores políticos e econômicos da Nasdaq, desde 1971, também investe em outras bolsas mundiais que operam em Nova Iorque e abrangem empresas de tecnologia associadas `NYSE, com capitalização de mercado de US$ 23 trilhões, com 3.300 empresas listadas.

Mulheres e homens têm muitos “eus”. Um desses “eus” de Aldenora detestava profundamente o governador. Isto porque parentes próximos dela haviam falecido devido à falta de vacina da Pfizer, quando esse laboratório ofereceu ao governo federal de seu político preferido, as vacinas: ele não as comprou a tempo de salvar pessoas de seu entorno familiar da pandemia da Covid-19.

O governador, ficou excessivamente grato ao seu padrinho político, ex-presidente da República, pela indicação ao governo de SP. Ele foi eleito por um eleitor conservador e ignorante das consequências da eleição a longo prazo.  A extrema direita se fortaleceu no país, também na América Latina e no mundo. A Covid-19 terminou por fazer mais de 700 mil mortos no Brasil. Fez também muitas vítimas entre colaboradores e fornecedores e trabalhadores na salvaguarda, manutenção e fornecedores de insumos da fazenda Aldenora. Causou prejuízos que não estavam programados.

A mente reptiliana de Aldenora teve medo de perder, ela também, a vida, desde que esteve infectada pela pandemia da Covid. O filho, Miguel Leme do Prado Cunha Gago, o Miguelito, que ora se casava, fora internado no Albert Einstein. Miguel tinha problemas pulmonares decorrentes do HIV. A noiva, agora mulher dele, ignorava a infecção. Se ele havia contado a ela, que estava infectado, Aldenora não sabia. Preferia não se meter na intimidade do filho. Poderia atrapalhar sua estratégia de vida.
      
O tempo do casamento passou, Daniela, mulher de Miguel, tinha parido um menino. Ela, Aldenora, agora era avó. O tempo passara, Grano, o Cavalo Branco e o Afrodescendente, não mais se mostravam dispostos a concorrer na passarela do exibicionismo erótico. Seu Mundico observava as mulheres que tratavam dos cavalos e a obsessão delas no fixá-los, como se esperassem que um dia, pudessem ser as éguas que absorveriam em seus corpos uma parcela dos cinquenta centímetros de seus membros. Parecia a ele, Mundico, que elas esperavam a chegada desse dia com ansiedade.

Grano, o Cavalo Branco começou a se agitar na baia. A cavalariça estava estranhamente agitada. Aldenora pressagiava acontecimentos que, fora de seu controle, estavam próximos a acontecer. Seu Mundico pressagiava estranhamentos que estariam perto de se manifestar. Grano, tinha 18 anos, Tarik, o Afrodescendente, 17. Mundico havia lido um registro no Guiness Book. Esse registro dizia que o cavalo Old Billy, criado em Lancashire, Reino Unido, viveu 62 anos. Ele torcia para que o garanhão Grano, o Cavalo Branco que se comunicava telepaticamente com ele, pudesse ter vida longa. Desta forma Mundico poderia continuar usufruindo de benefícios vindos da “mediunidade” telepática dele.  

Os convidados, como se fossem pessoas, adultos, idosos, meninos e meninas bem-comportados, sentiram, de repente, uma corrente de vento morno perpassar todo o ambiente festivo, uma aragem bizarra vinda de algures, prenúncio de acontecimentos muito, muito estranhos.

O tempo passou, aquela festa já tinha se passado. Os convivas dela se afastaram para suas vidas, em suas rotinas diárias. Mas a memória do estranho evento não era fácil de acessar por nenhum deles. De uma maneira também estranha, de alguma forma, perpassava, sub-repticiamente, de maneira oculta, dissimulada, os acontecimentos de suas vidas que não conseguiam acessar. A memorização lhes parecia inacessível. Impedi-lhes de ter uma recordação, exceto nebulosa, do que aconteceu.

Seu Mundico lembrava: enquanto os cavalos se agitavam nas baias, Grano iluminou sua mente, dirigindo-a em direção aos convivas. De suas mentes surgiram pássaros estranhos, com cabeças que lembravam ossadas de sáurios. Eles levantavam voo, como se buscassem um lugar no horizonte para onde se dirigiriam, alçavam voo. Saíram eles de seu campo de visão por alguns longos segundos, quando voltaram, se arrastaram no chão, cosmo se estivessem com seus corpos esgotados por grande esforço de alcançar voo. Suas ossadas se espatifaram no chão. Antes disso suas asas cansadas rastejaram na principal arena da festa rodeada pelas mesas dos convivas.

Onde quer que estivessem, aquelas pessoas, autoridades, gentes que da festa do casamento de Miguelito e Daniela tinham participado, como que sentiam que delas se tinha apossado uma espécie de memória retroativa incômoda, importuna. A perturbação de uma experiência que havia acontecido, mas que era de difícil recordação. Como se não tivessem eles acesso ao que houve na continuidade da festividade e em seus bizarros desdobramentos. Era como se, posteriormente aos acontecimentos, eles não tivessem acontecido. A sensação de estranhamento sobrenatural. Memória incômoda. Traumática.

A dificuldade de processar o acontecimento impedia também que outros pensares viessem à tona, à consciência. Flashes de memórias aleatórias se apossavam, de repente, de suas mentes, ausentando-se da realidade circunjacente: Eva, nua no Paraíso, sendo abordada pela serpente com um rosto amável, sedutor, simpático, convincente. Memórias milenares recorrentes da antiguidade de eventos míticos. A terrível sensação de amortecimento dos sentidos, como se a realidade se passasse em câmera lenta. A mente de Aldenora não era de fácil tradução, talvez por influência telepática de emissões mentais do Cavalo Branco.

Os flashes dos pensares atuais não se fixavam na mente daquelas pessoas, exceto por alguns segundos, sendo elas, subitamente, substituídas por memórias ainda mais antigas. Durante essas experiências sentiam-se mais traumatizadas por vivências mais recentes. A sensação de que a realidade se tornara mais difícil de suportar, devido vivências mais anteriores, algumas delas mais traumáticas. Mais antigas. Absurdamente remotas.

Elas não tinham nenhuma lembrança das pessoas que conheciam, como se atacadas por uma mente afetada pelo Alzheimer. Aldenora, aflita, se perguntava como era possível estar nessa inacreditável condição: crianças, adolescentes, adultos de todos os sexos, idosos, todos expostos às culpas que até então ignoravam ter vivenciado. Os animais quadrúpedes também manifestavam estranhamentos comportamentais, como se recém-saídos de outra dimensão. Afetados por sentidos estranhos.

As memórias de um passado aleatório, por vezes distante, apareciam em flashes na tela mental daqueles que participaram da festa do casamento. A sensação de que aquelas pessoas faziam parte de uma sociedade secreta especial, ainda que involuntariamente. Os demais eventos de suas vidas, por mais importantes que tivessem sido, não pareciam ter, agora, nenhuma mínima importância.

O quê, ou quem, estaria tendo o poder inquestionável de estar a manipular dessa forma inusitada suas mentes??? Seriam estes um sintoma de demência, em algumas delas, precoce??? De qualquer forma esse tipo de perturbação não poderia continuar a perturbar suas vivências, suas cotidianidades, suas existências no mundo social dos eventos formais, protocolares, no cotidiano da família e do trabalho. Algo poderoso lhes estava impedindo a memorização de acontecimentos que, talvez, tivessem vividos.

As sensações esquisitas persistiam. O amplo lugar em que se realizavam os eventos começou a ser perpassado por névoa de coloração esverdeada. Fluxos de energia vital começaram a migrar de um para outro corpo, de um para outro cérebro. As vontades e vivências começaram a se entrelaçar e estressar. O misturar de ideias e intenções se transtornavam, afligindo e confundindo as interações vivenciadas, psicológicas.

A energia eletromagnética dos corpos, que as fotografias Kirlian costumam mostra, migrava de um para os demais corpos presentes na festividade de casamento. A circulação dessa energia criou um alo magnético luminoso ao redor dos convivas. Essa energia normalmente é invisível a olho nu. A câmara Kirlian as registra.

A descarga elétrica de alta voltagem perpassava o “campo unificado” da festividade. Os partícipes trocavam entre si suas “consciências ocultas”. Forças invisíveis e secretas se desnudavam. Tornaram-se visíveis uns aos outros. Estavam partícipes de acontecimentos para eles de significados inalcançáveis, exceto pela justificativa de visões, possivelmente de um Apocalipse inexplicável. Estiveram os convivas da festa de casamento sendo partícipes involuntários de delírios inexplicáveis a seus entendimentos???

Os organizadores da festa teriam tramado contra os convidados??? Quais os motivos??? Essas percepções estavam afetando suas vidas de um modo que eles não poderiam prever as consequências. Se tinham dificuldades em acreditar uns nos outros, agora, depois desses eventos, desenvolviam comportamentos agressivos contra si mesmos, em cenários de antiguidades muito passadas, por vezes paleolíticas. Massacres sangrentos de tribos contra habitantes de cavernas, visando a posse das mesmas e a expulsão de mulheres grávidas, crianças e demais habitantes que, até então ocupavam o lugar cavernoso, favorável à sobrevivência do agrupamento que ali vivia.

Já agora se surpreendiam partícipes de salões de festas babilônicos, onde os convivas tramavam contra si mesmos, em risonhas e bisonhas situações de olhares voluptuosos em aproximação dos corpos que cediam à libido em bacanais regadas a vinho e à disseminação de antigas drogas usadas em rituais religiosos. Os convivas que mantinham uma certa ilusão de estar sob controle consciente dos acontecimentos, estes também perdiam a noção de espaço e de tempo que se intercambiavam entre si, de modo aleatório.

A sensação de que um emissor de ondas de rádio alcançava todos os receptores: as pessoas no ambiente das festividades. Todos se comunicavam entre si, sem que pudessem fazer alguma coisa para parar a continuidade dessa comunicação ininterrupta, sobrenatural. O governador revelava uma ambição pessoal descomunal. Revelava que pretendia continuar a governar o Estado mais rico do país, em troca de amealhar fortunas em participação pessoal dele em obras de engenharia do Estado, visando os gastos futuros com a possível candidatura à presidência.  A situação política era incerta, mas ele investia nos acontecimentos, talvez se tornassem favoráveis.

Flashes de Aldenora pipocavam como raios na mente dos convivas. Os flashes dela na cama em companhia de um marmanjo humano com a cabeça desproporcional do Cavalo Tarik, o afrodescendente, colada em seu rosto surpreendentemente erotizado, as mãos a segurar as orelhas do animal, pressionando-as freneticamente, involuntariamente, aproximando-as de si mesma. Ela usufruía o prazer que da relação incomum se afirmava.




Seu Mundico aparecia com ambas as mãos dos lados do rosto, como que encobrindo o horror que todos aqueles flashes lhe causavam. A ele, um católico praticante. Jovens apareciam em poses eróticas, como se estivessem em filmagem de filme pornográfico. Salões de boates com dezenas de pessoas dançando e se divertimento, muitas delas visivelmente drogadas. O Subconsciente Coletivo da Festança se tornara visivelmente incômodo a todos os convivas. Flashes da intimidade de autoridades políticas fazendo sexo com michês de aparência hiper máscula, se tornavam evidentes na tela da mente dos partícipes. Não podiam fazer parar o desdobrar das imagens.

Talvez estivesse acontecendo entre eles o que em Psicofísica se chama “ruptura mental antigravitacional”. As informações saltando de mente para mente como se estivessem sendo impulsionadas por íntimo e mútuo eletromagnetismo PSI, até então inexplicável em termos de um acontecimento social festivo.

O evento bizarro da festa de casamento, a nuvem esverdeada que os envolvia, cobrava de seus convidados demandas reprimidas, desejos que, até então, não tinham sido atendidas devido à falta de conhecimento de uma solução para elas. Antes desse momento seus desejos demonstravam relutância na manifestação. Agora entravam em ação sem nenhum pudor. Os corpos buscavam solução para suas demandas até então reprimidas, impulsionadas por uma malignidade a serviço de fixações inconscientes inconfessáveis.

Um flash mostrava o governador a correr em direção ao Cavalo Afrodescendente com o pênis vascular à mostra. Garotas adolescentes risonhas, equilibravam-se no dorso do Grano, o Cavalo Branco a trotar em círculo por entre as mesas do evento, o pênis vascular à mostra. O prelado que realizara a cerimônia de casamento patinava no ar, dois metros acima do chão, tentando, em movimentos de pernas rápidos, não cair. Os violeiros sertanejos agarravam-se a seus instrumentos musicais. Eles pareciam querer fugir de seus alcances. As cordas das violas enroladas em seus braços e pescoços. Garrafas de bebidas flutuavam por sobre as mesas. As senhoras de mais idade mostravam-se particularmente afetadas. Olhavam soldados que pareciam da guarda pretoriana do imperador romano, vergastar o corpo de Cristo a sangrar de forma abundante.

Muitos corpos mais que a flutuar, estavam em chamas. Grano escoiceava o ar, lançava as garotas longe de seu dorso. Elas caíam desconjuntadas por sobre as mesas. O governador agarrara-se ao rabo do Cavalo Afrodescendente e parecia não querer soltá-lo, até que, numa manobra, foi jogado em direção às mesas. Dentro da casa, uma senhora idosa, vestida de seda negra, num ambiente íntimo que parecia estar se aquecendo próxima numa lareira. Soldados romanos vergastavam impiedosamente o corpo sangrando de Cristo. Cardeais no Vaticano sentados na sala do Conclave. Dois Papas, em sala no Vaticano sorriam sem graça. Multidão em protesto na cidade de Los Angeles.

Hominídeos paleolíticos ao redor de uma fogueira aquecem seus corpos de Homo erectus no Vale do Rift na Etiópia. Suas feições se parecem, à aproximação curiosa de seu Mundico, com os rostos de Netanyahu, Milei, gal. Heleno, gal. Braga Neto, Bozo, Putin, Xi Jinping, Trump. Seu Mundico se aproxima, pasmo, superlativamente curioso ao se aproximar da fogueira paleolítica, onde também parecem estar agachados os três últimos Papas. Ele, seu Mundico, reconhece o rosto do ministro Alexandre Moraes a olhar os demais hominídeos ao redor da fogueira com olhos expressivos e espreitadores, como se censurasse a estranha visão.

Uma voz calma se faz ouvir em meio ao caos ambiental instalado, sem que ninguém entre os convidados saiba exatamente de onde vinha. Qual a proveniência da fala??? A voz reverberava no interior da mente dos partícipes do banquete: “há dois milhões de anos o mais antigo antepassado do povo judeu teve sua mais primitiva diáspora: o Homo erectus se dispersou nas mais diferentes regiões do mundo: Ásia, Europa e Oceania, dando início às tecnologias mais primitivas e ao uso do fogo”. A voz não identificada, após alguns momentos, se fez outra vez ouvir:

— “Das quatro forças fundamentais da natureza, duas delas, estão presentes nesse extraordinário e insólito evento”.

A opinião entre aspas, manifesta por sibila, uma psiquiatra que liderava a iniciativa de reunir os membros do grupo que, posteriormente a esses estranhos acontecimentos da festa de núpcias, se encontravam para tentar explicar os flashes que ainda surgiam, pontualmente, em suas mentes conscientes por algum motivo, por alguns segundos. Por vezes por longos e enigmáticos minutos.

Sibila tinha experiência em análise de pacientes que se diziam abduzidos. Ela fazia parte dos convivas que podiam se dar ao luxo de, de quando em vez, abrir suma garrafa de Goût American, ao custo de seis mil euros, cerca de R$ trinta e oito mil. Mantinham o prazer saboroso dessa degustação. As pessoas do grupo a princípio eram duas, depois cinco, três semanas depois eram nove. Quarenta e cinco dias depois chegaram a doze.

Como que para confirmar as apreensões de Aldenora comunicadas a ela pela mente telepática do Grano, eis que surge uma repentina mudança de tempo, indetectável pelo sistema de previsão meteorológica. Sua memória revelou a presença de um nevoeiro esverdeado que adentrou as dependências do ambiente da festa. Ela não sabia controlar o tempo: estava no passado??? Estaria no presente???  

De uma série de nuvens carregadas de eletromagnetismo, saíam raios por todos os lados. O nevoeiro envolvente teve ação tão rápida, que mal houve tempo dos convivas ficarem pasmos ao vê-lo adentrar e envolver os ambientes todos do lugar. Pensaram eles que seria parte dos efeitos especiais das apresentações sertanejas de palco dos músicos. Mas não era.

O acontecimento estranho certamente provinha de alguma central sobrenatural de manipulação a partir de um padrão tecnológico de eventos desconhecidos. Quem são os manipuladores??? Perguntavam-se algumas mentes que ainda não haviam perdido a consciência. Quais seriam seus motivos??? Grano, compartilhava com a mente de Aldenora, imergindo-a num estado sonambúlico de ondas alfas através das quais dizia que existem forças Ets interessadas no bem maior da humanidade.

Essas forças estavam agindo sobre os convivas visando talvez conseguir usá-los enquanto ferramentas para sustar o impulso incontrolável de conteúdo político perverso, que visa submeter um país aos seus interesses. Como Grano, o Cavalo Branco, sabia disso??? Inte4rrogava-se ela. A resposta brotou em sua mente como uma semente que se abre em botão: “a espécie que habita esse continente precisa ser motivada a criar inteligência, pessoal e coletiva. Precisa aprender a penetrar o vazio de suas vidas com projetos de afirmação da moralidade perdida”.

Como é que um Cavalo pode saber disso??? Aldenora, uma pessoa obsessiva compulsiva, tinha crises. Pensamentos estranhos lhe ocorriam, independente de que ela os quisesse. Os contatos telepáticos com Grano causavam nela angústia e ansiedade. Ela era uma pessoa dedicada ao ter e ao poder. Seu autocondicionamento mantinha nela a ilusão de que poderia manter-se ganhando altos salários para promover a estratégia de dominação política e econômica cultura da cidade sob comunicação, comando e controle da política de extrema direita.

O grupo ao qual pertencia a mantinha como secretária de cultura de governos que se sucediam, ela sempre mantinha seus cargos, dela e de sua equipe. Seus cargos, seus salários e a fidelidade canina à política de manutenção do baixo nível da mentalidade cultural da capital de seu Estado. Os representantes políticos principais do grupo ao qual pertencia estavam presentes no banquete. Ela estava longe de compreender o que o Cavalo Branco queria dizer quando afirmava: “a espécie que habita esse continente precisa ser motivada a criar inteligência, pessoal e coletiva. Precisa aprender a penetrar o vazio de suas vidas com projetos de afirmação da moralidade perdida”.

Grano continuou a mensagem telepática: “sem moralidade, não é possível haver projetos que possam incentivar a consciência de uma coletividade que não seja produto da manipulação de seus feitores. A Casa Grande conta com novos membros manipuladores: sicários, personagens negros negreiros sodomitas fanáticos, delinquentes e jagunços que ganharam um status de respeitabilidade na sociedade branca, às custas da subserviência ao poder dela, mantido pela ancestralidade israelita de Sodoma”.

Ela, Aldenora, não estava a compreender onde as mensagens telepáticas do Grano, o Cavalo Branco, estavam querendo chegar. A história atualizada dos negros negreiros se harmonizava com a história de dominação social dos banqueiros judeus sodomitas, que desde a mais antiga antiguidade exercitam as estratégias de dominação dos povos que lhes cercam, em busca de riqueza e poder. Os quatrocentos anos de escravização dos judeus aos faraós egípcios, se equivalem, proporcionalmente, aos trezentos anos de escravização dos negros negreiros nas Senzalas submersa nos interesses da Casa Grande.

Os povos, judeus brancos e negros, sobreviventes dos referentes formais de escravização, têm, na mais profunda memória racial, ressentimentos que não podem ser contidos contra brancos que não são judeus e negros que, por sua própria raça, continuam sendo escravizados, e brancos que se encontram dedicados unicamente à preservação de suas conquistas econômicas, políticas e sociais. Estes movimentos inconscientes não podem ser contidos pela mera compreensão de sua história e da racionalidade consequente.

Grano continuou a compartilhar na mente de Aldenora a afirmação de que judeus e negros negreiros não têm um código de Ética e moralidade vigentes. Uma vez fora dessa Ética e desse código de moralidades, ambos os grupos étnicos obtiveram poder político, social e econômico, sem que tenham a intenção de usar esse poder de forma benéfica à sociedade em que vivem. Tornou-se impossível na visão deles, a simples possibilidade do se humanizar. Os ressentimentos escravos estão por demais cristalizados no fundo do poço memorial de sus almas forjadas nos relacionamentos das Casa Grande e da Senzala do Faraó, assim como dos negros negreiros do Brasil.

À Aldenora pareceu que sua mente fora capturada pela mente do Grano, o Cavalo Branco. Tudo que ela pensava ele sabia e pensava anteriormente a ela.  Mesmo quando ela não queria uma resposta, lá estava, por vezes, a mensagem telepática do Cavalo Branco a pulsar em sua mente. Ela supunha que ele possuía um 3° Ouvido que ouvia tudo. Um 3° Olho que tudo via. Um sento sentido do qual nada escapava. Ela se perguntava insistentemente, mesmo após o evento da névoa verde que invadiu as dependências da fazenda nas bodas do filho, porque o lugar onde se realizava a festa fora escolhido. Em sua mente pulsou um som que dizia: “no Lácio selvagem de seu mundo, compartilha-se o invisível que, de outra forma não pode ser compartilhado. "Salus Carnis: A Carne Do Mundo Do Homem Precisa Voltar A Desejar Ser Saudável”.

“Os dias da névoa”, é como as pessoas que fizeram parte desse evento o chmam, ao se reunirem para falar sobre ele, na tentativa de compreendê-lo e fazer emergir na consciência as sensações que ainda estavam incompreensíveis e subterrâneas.  Esss pessoas continuavam não sabendo quanto tempo durou o evento que as fez sair numa viagem pelo Tempo. Pessoas foram queimadas ao vivo, outras não. Por quê??? A memória do evento estava sendo, gradativamente, recuperada.

A resposta não demorou a pulsar em sua mente: “Ao atravessar fronteiras entre dimensões, o corpo está sujeito a uma transição semelhante a um transtorno bipolar. O humor é elevado a níveis incompreensíveis, muito acima da capacidade de compreensão de alguém. É uma situação de alteridade PSI complexa, distante da experiência de conhecimento de uma pessoa que não tem referências de como assimilá-la. O ininteligível se torna inacessível. A energia envolvida em curso de salto quântico, de uma dimensão para outra, aquece o espaço em volta. O medo e a culpa queimam a pessoa de dentro para fora numa espécie de combustão humana espontânea. Dela nada sobra. Por vezes sobra apenas um pé”.

Aldenora não se dá por vencida e completa a pergunta anterior:

—  Por que não aconteceu a mesma coisa com todas as demais pessoas, se estavam todas expostas às mesmas circunstâncias???
— “” Porque o medo e a culpa nelas não eram nelas prevalentes”. O vórtice temporal que permite viagem no Tempo é um “buraco de minhoca”. A transição entre uma e outra dimensão precisa, em algumas pessoas, de certo tipo de proteção, quando estão expostas a essas singularidades””.
— Não entendi nada, responde Aldenora.
— “Uma singularidade entre duas dimensões, alude a um ponto numa região onde as leis convencionais da matemática e da física não são aplicáveis. Valores infinitos e comportamentos anormais ocorrem...”.

Aldenora pensou de si para consigo:
— Grano deve estar pensando: “como são fortes os delírios dessa mulher”. Como ela é brito, burra. Dessa vez não houve resposta em sua mente. Grano calou o compartilhar de sua voz em seus pensamentos.

Ambos os animais, inquietos em suas baias, escoiceavam desesperadamente as portinholas delas, elas começaram a rachar, a madeira a ceder. Dentro do ambiente de um teatro, após a peça terminar, os espectadores não conseguiam sair, não obstante houvesse qualquer impedimento. É como se estivessem presos por uma força que não conseguiam ver nem explicar. Nos EUA, em Whashington, acontecia a mesma coisa. Ninguém, dentre os funcionários graduados do presidente, ninguém conseguia sair dos aposentos da Casa Grande e Branca. A assessoria do presidente ligando para o Pentágono, mas lá, diziam as respostas, estava acontecendo a mesma coisa: os funcionários civis e militares não conseguiam sair de suas salas. Como se as saídas estivessem interditadas por um campo de força invisível.

Cenas dos Intocáveis e de um carrinho de bebê descendo escadarias de Odessa com música de Telmo Marques. Ambos os cenários se intercalavam. Aldenora visualiza essas imagens mentais sem que elas tivessem em sua mente uma organização de significados. Que queriam essas imagens lhe dizer??? A névoa esverdeada invadira as dependências da Fazenda, por certo estava causando todas essas distorções em sua mente bagunçada e tensa, em busca de uma explicação para esses acontecimentos.

Os cavalos galopavam em meio ao amplo ambiente ao ar livre onde as mesas dos convivas e o palco dos cantores sertanejos deviam estar a comemorar as bodas do casal. A dimensão do que seria a realidade mesma se mesclava e intercalava com visões de outra dimensão no tempo incomum de ambas as realidades que aconteciam simultâneas. O Tempo parecia, ora seguir em direção a um futuro, ora voltava ao passado. Os corpos queimados quando em movimento na direção retrotiva, que poderia ser de uma outra dimensão, voltavam das cinzas, como se não tivessem sido carbonizados.

Na mente confusa de Aldenora um diminuto clarão se fez presente, dizendo-lhe: “o horror, não há limite do quanto se pode suportá-lo”. Grano, o Cavalo Branco, voltara a se comunicar telepaticamente com ela.

Numa sala de hospital, com equipamentos de uma tecnologia muito avançada, médicos e enfermeiras promovem um parto. Uma mulher com pernas abertas sobre uma mesa operatória: de sua vagina surge a cabeça de uma criança. Uma enfermeira a pega nos braços, sorridente, olhando para um bebê com aparência mecânica de um robô. As imagens de um feto projetando-se em direção à Terra, lembra as cens do filme 2001, Uma Odisseia No Espaço, quando o astronauta, muito idoso, sobre a cama num quarto com decoração Renascentista, estende a mão para tocar o monolito negro com a ponta dos dedos, e o monolito se transforma num feto a se dirigir à Terra.

O próximo passo evolutivo está em curso. Imagens dos sacerdotes do Sinédrio excitando a multidão e incitando-a a dizer: “Barrabás, Barrabás”, jogando Jesus Cristo em mãos dos torturadores e crucificadores do império romano. Esse conjunto de imagens se sucedem na cabeça confusa de Aldenora e de outros partícipes da festa de casamento. Um insight se faz presente nela, ela ouve: “o amor é uma descoberta que não se sabe. Ele é mais transcendente e presente do que parece. A intuição revela o que os olhos não podem ver”.

“Você é uma descoberta que ainda não se sabe”. Esse estalo em sua cabeça pareceu nela despertar uma sugestão singular: ela sempre esteve correndo atrás de tudo que lhe parecesse bens de consumo, posse de coisas, bugigangas, de interesses manipuladores de seu psiquismo. Ela parecia agora querer a posse de si mesma.

Ela parecia compreender que, até então, sempre esteve sendo levada pelo atrevimento de se querer poderosa dona de bens. Ela se surpreendeu envolvida por uma mente imensa, uma mente galática, um psiquismo cósmico representado pela névoa verde que envolveu os aposentos da festa de casamento.

Ela sempre esteve conectada, de modo metafórico, a tudo e a todos. Mas seu pensamento raso, provindo de seu Inconsciente Pessoal, sempre a conduziu a um lugar coisificado de posse. Um lugar confinado, que sempre a excluíra os direitos básicos da coletividade à qual pertencia. Para ela só seus direitos importavam. Seus direitos à vaidade narcísica das aparências.

No Kremlin, o líder russo, o Putinho, não conseguia sair de dentro de sua fortaleza. Vaidoso de suas conquistas, ele mantinha a mente presa às suas solicitações de incrível vaidade pessoal, vontade de ter e poder manter suas posses, aumentando-as, se possível, à conquista de toda a Europa. Mas ele também estava prisioneiro da força invulgar, antinatural, alienígena, que não permitia que ele pudesse sair de si mesmo. Ele, um prisioneiro de sua própria fortaleza externa. Des sua alma negra, sombria.

Ele, um diminuto homenzinho, produto e subproduto de suas espertezas, adquiridas em seu tempo de condicionamento militar na KGB, sentia-se, nem mesmo ele sabe porquê, prisioneiro de seus ossos, de seus órgãos internos, de sua pele, do revestimento físico de seu corpo, de sua mente perversa.

Os fiéis evangélicos que estavam dentro do Templo de Salomão da Igreja Universal do Reino de Deus, também estão tentando sair dele, após a realização do culto dominical. Mas nenhum deles consegue sair. Estão presos num lugar que era para ser de libertação espiritual. Mas os mantêm prisioneiros de suas próprias armadilhas PSI.

A força monumental que os domina de dentro de sus almas cooptadas, os mantém prisioneiros de um falso líder espiritual que consegue mantê-los prisioneiros de si mesmos, de uma esperança que nunca se realizará: eles se confinam em se confiar ao deus dará. Parecem não saber que o deus que buscam fora dele, num Templo, está no Templo de suas almas confusas. Internalizado nela. Mas nenhum deles sabe como se libertar de si mesmos: de seus traumas, ressentimentos complexos.
    
— “A Legião de líderes de povos, os mantêm isolados das demandas dos demais outros povos. Todos esses povos buscam a paz, mas estão presos por suas lideranças pela enganação militarizada do poder econômico e político que os prendem aos conflitos, e os oprime com guerras”. Essas frases soaram com nitidez no interior da mente de Aldenora.

— Como é que a porra de um Cavalo possui toda essa autoridade sobre mim??? Vituperou ela de si par consigo.

Aldenora era imune ao significado do que estava a acontecer. A mente dela não processava a moral social dos acontecimentos, nem na luz da filosofia, e muitos menos à luz da ciência. Mas os incidentes bizarros ela não poderia ignorar. Mesmo que não tivesse acesso ao que significavam, ela participava ativamente deles. Ela organizara a festa de casamento, selecionara os convivas e o posicionamento deles nos locais mais adequados à presença deles. Quisesse ou não, ela estava envolvida. Enquanto tentava organizar dentro da mente essas peripécias inexplicáveis, ela ouviu um leve cicio no interior craniano:

— ““A moral burguesa é uma imoralidade contra a qual há de se lutar; essa moral que se baseia nas instituições sociais mais injustas: a religião, a pátria, a família e a cultura subserviente. O que se denomina os pilares afirmativos da sociedade do Sinédrio de Salomão.”

Um jogo importante no campeonato mundial de clubes terminara, mas os milhares de pagantes, os torcedores dos times não conseguiam sair do estádio. O tempo passa e a tensão aumente na multidão. Os torcedores ficam cada vez mais raivosos ao se sentirem na situação opressiva, estando eles inexplicavelmente presos após o jogo. Suas falas expressam uma crescente ira. A irracionalidade parece brotar de suas entranhas já muito excitadas durante o decorrer do jogo.

As equipes esportivas dos jornalistas transmitem as ocorrências que envolvem as hostilidades sempre crescentes entre grupos mais excitados de torcedores. As emissoras de Tv visão noticiam os enfrentamentos entre torcidas, e os conflitos menores que são gerados devido à proximidade de pessoas que se debatem com as pressões decorrentes do “efeito manada”.
  
O comportamento de rebanho gera desentendimentos entre grupos rivais de torcedores. Os policiais entram em conflito com os mais exaltados. Alguns são presos e algemados. À proporção que passa o tempo, a situação se torna mais e mais insustentável. Os banheiros têm filas intermináveis. Muitas mulheres não podem esperar a fila andar para satisfaze suas necessidades, as mais primárias. Elas levantam as saias ou baixam as calças, e abrem a porteira à vista dos demais. Os homens urinam nos locais mais impróprios, à vista dos demais. Os jornais da Tv aludem aos acontecimentos bizarros.

— “Não podemos sir daqui” Ouve-se repetidamente.
— “Não há como sair dessa arapuca”.
— “Como é que pode estar acontecendo isso”???
— “Quem é responsável por isso”???
— “O estádio virou uma Papuda”.

A situação vai se agravando à proporção que os suprimentos nos locais de venda de bebidas, doces e salgadinhos esgota os estoques de mantimentos. Os odores mais inapropriados advindos dos banheiros e espaços abertos utilizados para a satisfação de necessidades básicas, tornam o estádio um coliseu em dia de disputa a céu aberto.

Um Coliseus do qual não têm como sair. Cristãos são devorados por leões. O Anfiteatro Flaviano, usado no combate entre times de futebol, ficava a cada hora, num estado mais deprimente de falta de higienização. A imprensa noticiava o evento em seus jornais, revistas e emissoras de rádio e Tv visão. O imperador dos EUA não tinha opinião, sem respostas para os acontecimentos estranhos., ele gaguejava frente às câmaras.

Cenas do filme de Buñuel, “O Anjo Exterminador”, em que as falas das personagens mostram a perda crescente da racionalidade, devido a frustração que sentem, cada vez mais intensa, ao não conseguirem sair de dentro dos ambientes de socialização em que se encontravam. Por vezes alguém grita em desespero, ao desabafar o sentimento de impotência devido a privação da compreensão aberrante da anômala situação. A mente de Aldenora se esforça por conseguir compreender os acontecimentos. Em vão.

A consciência de Aldenora não alcança a compreensão do porquê essas imagens se superpõem em sua mente. Ela não compreende que essas cenas são representações sensoriais, estímulos subjetivos à sua percepção melhorada do mundo interior em que vive, do mundo exterior no qual vegeta.

A compreensão ampla e profunda da realidade sempre lhe escapou. Ela nunca fez nada para melhorar a percepção do mundo a partir de seus sentidos. Não desenvolveu uma consciência maior de si mesma nem dos outros. Suas expectativas de vida eram meramente convencionais. O Narciso nela era mais forte, pactuado com os padrões e os patrões estabelecidos. Foi criada pelo pai médico, socialmente detentor de uma respeitabilidade de fachada. Por detrás dessa fachada estava um poderoso chefão do tráfico de coca, protegido pelos coronéis da polícia militar.

O peso avassalador da realidade, sua cultura, seus privilégios, a conduziram ao exercício de postos chaves dentro da realidade local. Postos esses, um dos quais a Secretaria Estadual de Cultura, na qual garantia que a cultura local não tivesse acesso ao conhecimento literário que denunciava os caminhos tortuosos, para que a realidade social, econômica, política e financeira, continuasse a privilegiar uma casta de ricos mandatários. Mandatários milionários e seus sicários policiais, que exploram os recursos econômicos à disposição dos políticos para manter a mentalidade de manada de uma sociedade roubada, subtraída de suas melhores ambições.

As imagens bizarras, os estranhamentos que a névoa verde provocara nela, em seus sentidos, na percepção dos sentidos de seus convidados, a memória mórbida dos Nefilins que ela teima em se fazer lembrar, talvez para satisfazer a morbidez de seus instintos sexuais primários, todas essas coisas juntas deveriam nela provocar uma inquietação exasperante. Mas ela, para sua própria surpresa, se mantém calma e focada na esperança de tradução possível dos acontecimentos. Com seus vieses, os mais primitivos.

Grano e Tarik, o Afrodescendente, circulam o lugar de festa mostrando-se, ambos, numa inquietação incontida. Um e outro ganham velocidade e saltam por sobre as mesas, assuntando os convidados, e depois sumindo, adentrar-se no vasto relevo do lugar. A outra dimensão parece exercer atração sobre eles. O medo de serem atraídos por ela, e queimados na transição de uma para outra dimensão, os mantêm focados, tanto quanto possível, no que acontece ao redor. Ambos patinam uma inquietação incontida.

O significado de todos esses eventos lhe escapa à compreensão. Ela, Aldenora, se surpreendia presa nas pressões sociais passadas para ela por seus pais. Seus antepassados se serviam dela de tal forma, que ela não sabia, na real, separar quem era ela mesma, quem era serviçal automatizada pelo subconsciente deles, nela. Atuando de dentro de seus sentires, de suas fixações, de seus prazeres, de seus lazeres, de seus pensares. Ela, com certeza, sabia, antes desses estranhos acontecimentos, que ela não era ela mesma. Que personas passadas se movimentam dentro dela. Ela sempre fora conduzida por conexões neurais, as quais não tinha como explicar.

Aldenora nunca teve acesso a ela mesma, exceto na administração de seus cosméticos e de sus vaidades. Nem nunca se provocou ter-se. Ela pensava, e não estava errada, que isso acontecia com todo mundo. Por isso não deveria preocupar-se em mudar esse cenário interior. Ignorava que as demais pessoas não tinham acesso aos meios políticos que as mantinham em seus cargos burocráticos, e senhora toda poderosa das mordomias estatais.

Agora lhe parecia que viajava no Tempo. Agora era ela personagem de ficção científica, conduzida alhures, sem nenhum mínimo domínio dos aconteceres. Por que estava a vivenciar essas coisas muitos estranhas??? Sairia ela viva desses aconteceres??? Para onde estaria indo??? Por que estava nesse barco vintage, formidável, trôpego??? Qual o propósito desses acontecimentos??? Seriam essas coisas resultados da influência dos meios de comunicação, de sua fixação nos celulares???

Seriam produtos da memória cósmica dos Nefilins no mais antigo passado a que tivera acesso sua memória??? Anamnese desses surgires, desses aconteceres. A verdade é que tinha uma imensa saudade, uma imensa sensação de antiguidade, como se fosse uma peça semovente num Museu Capitolino. A nostalgia incomensurável como se descobrisse ser ela um fóssil, tipo Lucy, um Australopithecus Afarensis com 3,2 milhões de anos. Resistiria ela a todas essas pressões inauditas da memorização anciã???

O certo é que jamais ela estaria sujeita aos papos furtados de mesas de bar, aos papos furados, falatórios sobre verdades de liquidificador. Ela, uma vez conquistada, conquistaria o feroz vencedor??? Este, quem seria???  Os manipuladores das realidades planetárias cristalizados no Inconsciente Coletivo dos Povos, estariam atuando na realidade desses seres horríveis, cuja realidade virtual, orgânica, é o Inconsciente Natural Sobrenatural, simulando ser humano. Criaturas de muito longe.

Ela viu os Cavalos, o Branco e Tarik, a saltar de forma arrebatada, impetuosamente inflamada, sobre a linha fronteiriça que a ela pareceu ser o Horizonte de Eventos, que limitava a fronteira entre duas ou mais dimensões. O significado mis amplo de todas essas visões lhe escapava, como se ela fosse uma vaca no pasto do Inconsciente, ainda limitada, apenas, por uma percepção hominídea de há 3 milhões de anos. Seus ossos pareceram sofrer mutações quânticas, numa velocidade indescritível, talvez na velocidade da luz, já que ela poderia estar viajando no Tempo. Ela era a Lucy que se transformara em Aldenora na atualidade de suas percepções. Na realidade ela não sabia nada do que estava acontecendo.

Em sua mente surgiu, ou melhor, faiscou: ““não é o homem que conquista a natureza, a natureza sempre conquistou o homem, em todas as “moradas do Pai””. Os convivas tentavam processar essas vozes. Entendê-las. Ela, Aldenora, só queria se livrar dessa imensa ansiedade que tinha tomado conta dela. Queria voltar à normalidade de sua antiga vida, dedicada a enfeitar-se para conquistas que alimentam sua sexualidade insaciável, nutrida e cevada na subjetividade memorial dos Nefilins.

Ela, a voz que ouvia, se duplicava como se saída de um poderoso megafone, por vezes estava no epicentro dos acontecimentos, mas o significado dela lhe fugia à compreensão. Aldenora sempre esteve conectada em seus propósitos de vida, em realização pessoal e bem-estar, na busca incessante por gratificações constantes, sem reflexão de valores mais profundos da consciência. A inconsciência dela sempre dizia: “À minha conta bancária tudo, aos interesses da cidade, nada”. Ela vivia da própria inconsciência. Essa inconsciência era uma força interior com a qual ela gostava de conviver. Talvez por isso sempre estivera curiosa da força muscular dos cavalos, da comunicação que seu Mundico parecia manter com eles, especialmente com  Grano, o Cavalo Branco.

Nesse momento de vivências raras, extraordinárias, ela conseguia ter saudades de um tempo muito infantil, passado, no qual vivia a se divertir, no brincar, da falta de envolvimento responsável que caracterizaria toda a vida adulta dela. Ela nem desconfiava porque pronunciava, repetidamente, a palavra “Rosebud, Rosebud, Rosebud”. Lembrava-se vagamente de já ter ouvido esta palavra anteriormente, não sabia onde. Talvez, pensava, fosse o nome de um filme, de um brinquedo. De qualquer forma não conseguiu recuperar a memória de onde vinha “Rosebud”.

Imagens mentais diversas, representações sensoriais, o campo visual e a extensão auditiva do estranho evento da névoa verde, simplesmente lhe escapava. Era como se estivesse num limbo, no interior de um estado de indecisão, incerteza, esquecimento, à margem de tudo o mais. Num lugar em que as almas vagavam em busca de afirmação própria, mas sem ter como se encontrar. Aldenor não entendia a insólita situação. Seus sentidos normais, seu sexto sentido eram mistério, pandemônio, agitação. A mais ampla realidade, suas perspectivas não convencionais, totalmente lhe escapavam. O humano, o natural, o artificial, o espiritual e o sobrenatural estavam para ela inalcançáveis. Tudo se misturava numa panaceia de auto favorecimento.

Seu espaço real era atemporal. Nele só importava seus próprios interesses, sua própria existência Aldenora existia no mundo mitológico das abstrações. Sua consciência social, uma aberração negacionista das realidades outras que não fossem a dela. Ela era somente ela e seus particulares interesses. Uma metáfora da paisagem anímica da tirania política e econômica que representava. Dela se servia para tudo o mais.

(P.S: ESTE TEXTO É A PRIMEIRA DE DUAS PARTES (DOIS LIVROS) DA NOVELA. É UM TEXTO INVULGAR, APRENTEMENTE INSÓLITO, MAS COM BASE EM PESQUISA CIENTÍFICA. A REALIDADE PODE SER, POR VEZES, MAIS SURPR EENDENTE DO QUE A FICÇÃO. MESMO QUANDO AS DUAS SE ENCONTRAM).

DECIO GOODNEWS
Enviado por DECIO GOODNEWS em 11/09/2025
Alterado em 02/11/2025
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