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MARTINHO MOSCA
MARTINHO MOSCA

Ninguém dava a mínima para a habilidade de Martinho agarrar moscas em pleno voo, os dedinhos muito ágeis. Bastava estender as mãos, mover os dedos e, lá estão elas, as moscas, presas entre eles, o mindinho e o seu vizinho. Modera um pouco a pressão e fica a fixá-la zigzunindo, raivosa, ansiosa por voltar à liberdade do voo.

Ao abrir dos dedos de Martinho, o inseto sai zanzando, apressado para os lados, para cima, para baixo... Pronto: aí estão elas, as moscas, presas outra vez entre o dedo indicador e o dedo médio da mão. Ou entre o mindinho e o seu vizinho. A mosca, assanhada, em dura afronta, amedrontada, batendo asinhas, tentando sair fora, afinal é solta. “Seu” Cineas Chagoso, pai de Martinho, apesar de semi-estúpido, é curioso, tido e havido personalidade em sua comunidade. Dedica-se ele a pesquisar sobre as moscas domésticas que o circundam. Conclui:

A fêmea mosca põe ovos às centenas em carcaças de animais, fossas abertas, depósitos de lixo e outros locais ricos em substâncias orgânicas em decomposição. Após 24 horas, ocorre o nascimento das larvas. Cada mosca fêmea produz cerca de 700 ovos em dois dias após a cópula. Ovipõe em matéria orgânica em decomposição, fezes animais ou humanas e lixo doméstico.

Cineas Chagoso e família habitam em um dos apartamentos no conhecido e popular “Projeto Pingapura” do então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf. Essa era a habitação da família de Martinho, na época desses acontecimentos aqui narrados.

Uma e outra vez, um e outro parente observa, curioso, a criança abrir e fechar os dedinhos, prendendo e libertando os insetos. Outros familiares tentam fazer a mesma coisa, sem resultado. Não sabem como ele consegue. Talvez tenha, sua pele, uma bizarra propriedade magnética de atrair os insectoides. A mãe de Martinho protesta:

— Que coisa feia, onde já se viu, esse sestro, mania mais besta, menino mal educado. Mosca é apenas uma coisinha nojenta, suja, lixo, o santo graal das bactérias. São perigosas para a saúde. Provocam doenças gastrointestinais.  

A mãe do garoto, do cismar passou a reprimir. Tapas ardidos nas mãozinhas do menino, exclamações gritadas de reprovação e ameaças. O garoto chora inconformado. Pela quarta ou quinta vez sucessiva, num mesmo dia, lá está a mama, mão espalmada, a descer o malho no garotinho.

Dia seguinte a boa senhora é surpreendida pelo marido Cineas, pulando para o alto, a bater com o pulso nos lados das orelhas. Cineas contempla ela a balançar a cabeça, ora para um lado, ora para outro, curvando a cabeça a cada pulo. Os pulinhos para o alto e a cabeça para os lados, davam a entender que estava tentando tirar água do ouvido.

— Que coisa é essa, mulher, está a aprender uma nova dança??? — Reclama o marido.
— Essa coceira, diz ela. Uma comichão a perturbar as ideias de dentro da moringa.

Chega de noite, depois do Jornal Nacional, a mulher de “seu” Cineas Chagoso vai ao apartamento da vizinha, dona Benê, assistir à novela mais visualizada do momento: “A Indomada”.  Ao adentrar a sala vizinha, ela logo vai dizendo, a título de simpatia:

— Bendita dona Benedita, que me garante a hora mais sagrada do dia.
—Seja benvinda, minha amiga, minha casa é a sua casa. De noite e de dia.

Para contextualizar os eventos, em fevereiro de 1997 a prefeitura de São Paulo estava em mãos da dupla de políticos famosos no folclore da cidade por suas administrações infectadas por ondas de corrupção. Paulo Maluf e o seu pupilo Celso Pitta compravam e recompravam títulos da dívida pública por valores que lhes permitiam lucrar fortunas, de um dia para outro.  

Pitta foi preso pela Polícia Federal em 8 de julho durante a Operação Satiagraha contra corrupção, por desvio de verbas públicas e lavagem de dinheiro. Dois dias depois, teve a prisão temporária afastada após liminar do então presidente do STF Gilmar Mendes. Os elos políticos e jurídicos da corrupção se garantiam mutuamente, lucrando fortunas com manipulação, política e jurídica, do dinheiro público.

Enquanto São Paulo se divertia com a novela e seus personagens, o jornalismo da Globo acompanhava as denúncias sobre o afastamento e a condenação dos políticos e funcionários públicos envolvidos na Máfia dos Fiscais. As reportagens de Caco Barcellos, Valmir Salaro, Luciane Bacellar, Alberto Gaspar, Priscila Brandão, Cesar Tralli, Ana Luíza Guimarães e Marcos Losekann, desvendavam a corrupção que, não fosse eles, estaria escondidinha nas entrelinhas da política dos bufões milionários do dinheiro público municipal: Paulo Maluf e Celso Pitta.

O repórter Chico Pinheiro do SPTV entrevistara a ex primeira dama Nicéia Pitta que lhe revelou detalhes do esquema planejado de corrupção na administração da cidade de São Paulo. Em março de 1997 a entrevista foi ao ar no Globo Repórter. A denúncia das irregularidades administrativas estava no ar e também nas telinhas da sala de jantar.

No dia 2 de dezembro, o Jornal Nacional mostrou, com exclusividade, um dos flagrantes de corrupção. O chefe da administração regional de Pinheiros, Marco Antonio Zepini, preso recebendo propina de uma comerciante em troca da liberação do imóvel. No escritório do fiscal, foram encontradas agendas que revelavam os códigos utilizados pela quadrilha na gestão Muluf/Pitta.

A primeira acusação contra os fiscais corruptos no governo do prefeito, foi evidenciada pela empresária Soraia da Silva. Ela alugara um antigo salão de beleza para estabelecer uma academia de ginástica no bairro de Pinheiros. Os fiscais da prefeitura exigiram trinta mil (R$ 30.000.00) para liberar o alvará de funcionamento. A comerciante procurou a Globo. A emissora gravou toda a negociação com o fiscal.

Todos esses fatos aconteciam simultaneamente na mente modesta e simplória do chefe de família em seu apartamento no “Condomínio Pingapura”. “Seu” Cineas Chagoso, pai de Martinho, lutava nas entranhas de sua mente para conciliar a balbúrdia das ideias dentro de sua moringa esquentada. Ele sentia um pandemônio mental se agravar todos os dias.

“Seu” Cineas conseguia ordenar as coisas que via no Jornal Nacional, somadas aos capítulos da novela “A Indomada”, junto com os pulinhos amalucados da mulher tentando tirar alguma coisa de dentro dos ouvidos e, para completar o quadro do burburinho, as peripécias de Martinho Mosca. Ele estava a vivenciar uma realidade surreal. Tentando ordenar a doideira que acontecia no interior do ambiente familiar, “seu” Cineas Chagoso disse à mulher:

— Não se avexe não, criatura, faz xixi no copo, depois pega um conta gotas, e pinga dentro do ouvido, logo fica boa, garanto. A urina expulsa o que estiver lá dentro. Pensando de si para consigo, Cineas cochichou-se, com um sorriso de lado: “de médico e de louco também eu tenho um pouco”.

“Seu” Cineas dia seguinte usa uma pinça de ponta comprida e fina. Com uma lente de aumento buscou focalizar, no interior do ouvido da mulher, a tal coisa que causava celeuma e mal estar. De nada adiantou. Dirigiram-se posteriormente ao posto médico buscando uma solução para o impasse.

No serviço de atendimento de emergência da Santa Casa, doutor Correa Lima fez a assepsia de praxe. Limpou com água oxigenada, aplicou anaseptil em pó, e receitou outro antisséptico, recomendando uma receita médica para o orelhão roxo e inchado da mulher. Aplicou uma injeção de analgésico, receitou antibiótico. Garantiu que, em uma semana, se tanto, estaria tudo normal, a infecção estaria debelada. Completamente.

Uma semana depois o lado direito do rosto de dona Celina estava todo arroxeado, inchado, doído, gangrenando-se. Vertia pus o ouvido. Duas semanas bastaram para sair dessa para a melhor.

Passaram-se seis meses, ao longo dos quais a família buscou adaptar-se à nova condição. Órfã de mãe, a família ficou sob os cuidados de tia Camila. Sabe-se lá porquê, instinto de preservação talvez, ela ignorava a estranha habilidade do menino em acompanhar com os olhos o zigzigzunido tresloucado das moscas, como se os dedos tivessem imantados para pegá-las. Na vista dela, no café do jantar, depressa prendeu duas ou três, quase de uma só vez. Para a suprema irritação da mãe.

No outro dia, pai Cineas cismou com a besteirada do filho. Começou a achar a coisa muito mórbida e nojenta. Sem deixar barato ameaçou: "se não parar com isso vai levar uma surra, moleque". Você vai ver.

O garoto agiu como se não fosse com ele. Olhou nos olhos do pai e sorriu inocente, como quem diz:

— "Pôxa, pai, você quer me tirar a única diversão que tenho, isso não é certo, você não acha”??? Martinho tinha em mente não provocar o patriarca Cineas, pai ameaçador.

Tia Camila limpava o lugar, esguichava SBP no porta-detritos, nos sacos de lixo, na área de serviço, e depois ia sentar-se no sofá da sala de jantar e se ligar no canal de televisão do SBT. Mas os insetos penetram na cozinha do apartamento, ignorantes dos cuidados da tia e de Cineas.

De noite os borrachudos tomavam conta do lugar. De dia, o zigzigzunido infernizava a vida do conjunto popular recém inaugurado, parte do "Projeto Pingapura" de casas populares, do ex-prefeito de São Paulo.

Martinho, chateado com a falta de fazer coisa melhor, aproximou de leve a mão direita do ouvido, esticou o indicador e logo prendeu, na ponta do dedo, uma e outra danadas que estavam zigzigzunindo incômodas. Prensou-a devagar entre a ponta do dedo e a superfície da pele, apenas para ameaça-las. A seguir, soltou e pegou rapidamente o inseto, depois outro e outro mais, prendendo e soltando-os, na sequência, entre o médio e o indicador, o mindinho e seu vizinho.

Cineas Chagoso, de tocaia, flagrou a criança no passatempo, no vai-e-vem, no sobe-desce, do abrir e fechar os insetos entrededos, sempre com um sorrisinho divertido no rosto de criança. O pai cumpriu as ameaças: desceu a raquetada no rosto do menino, começou a bater os nós dos dedos das mãos, várias vezes e com força, na cabeça da criança. Apertou os dedinhos indefesos entre as manoplas. Agitou fortemente, e repetidas vezes, o pulso do guri numa das bordas da mesa, quebrando-lhe dois dedos da mão destra.

A mão e o pulso da criança incharam, a cabeça doía. Cineas terminou a seção de sadismo ameaçando: houvesse outra vez, o garoto haveria de se arrepender de ter nascido.

Dia seguinte, domingo solar, depois do almoço, “seu” Chagoso estava a espairecer sobre a cama de casal, enquanto não chegava a hora de ver o videoteipe do jogo de futebol pela, então chamada “Copa João Havelange”: Corinthians versus Palmeiras.

Martinho levanta-se do colchão inferior do beliche, dirige-se até a sala de onde fica olhando, pela porta entreaberta, a cara do pai meio adentrada no travesseiro, de bruços.

Passam-se alguns minutos, uns poucos insetos começam a festejar lhe a nuca. Incômodo. Obrigou-se a deitar-se de barriga para cima, tangendo-os, quando em vez, com as manoplas a segurar um feixe de jornais velhos. A modorra posterior fez com que dormitasse com um ronco pouco ruidoso.

Os insetos foram chegando, chegando. De pouco a pouco formaram uma nuvem em torno da cabeça semiadormecida do pai. Começaram a fazer evoluções circulares uns cinquenta centímetros acima do rosto de seu Cineas Chagoso. O zigzigzunido aumentava de volume à proporção que a dança dos insetos progredia. A dança dos insetos surtiu certo efeito hipnótico. Adormecido sob o olhar de Martinho, minutos depois, quinze, dezesseis, vinte, vinte e sete, quarenta e quatro, setenta e nove, noventa e três, cento e oitenta e nove, trezentos e trinta e seis moscas-domésticas foram gradativamente se destacando da nuvem para dentro dos orifícios cranianos de seu Chagoso.

Vêm agora juntar-se às dúzias de varejeiras que forçam a entrada garganta abaixo, pela boca entreaberta, pelas fossas nasais ouvido, algumas posando sobre os olhos do pai, sob olhar condescendente do guri. Martinho parecia estar a observar com atenção a evolução dos insetos para dentro do crânio do pai.

A agonia durou pouco. Ele bem que tentou reagir. Mas o rosto, as artérias do pescoço, mais pareciam um balão avermelhado, inchando sob a pressão de uma desesperada ansiedade por respirar. Mas o ar não entra, não vem, não vai, não sai. A ele escapa o que está acontecendo e por quê. O menino agia como se soubesse as consequências de sua intenção de malbarata-lo. Sua misteriosa força intencional estava a combater a violência e outras imperfeições cotidianas do pai.

O garotinho parecia ter plena consciência de que seu ato intencional de dirigir os insectoides para dentro da cabeçorra de Cineas, era uma espécie de presságio de que outras agressões dele não se repetirão no ambiente familiar conturbado.

A próxima cena na qual se vê protagonista, repete-se agora no zigzigzunido de moscas a sair-lhe da boca, ouvidos e nariz. Os orifícios inflacionados pela concentração inusitada dos insetos, estão agora apenas escancarados, horrorizados, à patéticos.

Martinho Mosca parecia estar fazendo valer a ação consequente do carma do pai. Para ele, ainda que apenas uma criança, estava a promover uma ação acelerada desse carma, em resposta às violências anteriores de “seu” Chagoso. Era uma correção positiva de um evento existencial no mundo da sincronicidade. Ele, menino, não tinha consciência dessa verdade. Mas intuía que algo bom estava acontecendo a partir do evento mórbido que presenciava. A sensibilidade de Martinho aumentava sua convicção, talvez inconsciente, de que esteve, de alguma forma, a fazer a coisa certa.
DECIO GOODNEWS
Enviado por DECIO GOODNEWS em 09/11/2023
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