Textos

A MOÇADA DA PERCEPÇÃO BLUE (REVELA AÇÕES) — I —
A MOÇADA DA PERCEPÇÃO BLUE
(REVELA AÇÕES)

“Abandonai toda esperança, oh vós que entrais”
(Dante Alighieri: A Divina Comédia).

MEU NOME É DANTE. Estou a viver no inferno consciente desta realidade.

ELA ERA APENAS UMA quase menina, mas já estava escolada nas esquinas, nos clubes, nas praças, nos locais que aconchegam a prostituição juvenil masculina e feminina. Ela comercializava o corpo em troca de grana para financiar sua vida escolar e depois as disciplinas da academia. Passara toda a puberdade fazendo programas a troco do sustento de seu sonho do diploma de Economia.

AO ACERTAR O PROGRAMA já estava inclusa a cloaca no pacote. Ela já havia transado com todo tipo de marmanjo: profissionais da política e do serviço público. Deputados, senadores, vereadores, juízes, promotores, militares, médicos, padres, pastores, atores, atrizes, modelos. Havia criado um portfolio de personas e personalidades até conseguir transar apenas com a elite das celebridades na escolha seletiva das companhias de cama.

ENQUANTO CUMPRIA O contrato verbal do programa sob o efeito da faturar seu orçamento secreto, ela agia conforme a satisfação do freguês. Enquanto o fuque-fuque rolava na intensa cidade da sodomia, ela dizia de si para consigo, repetindo o que havia lido no Livro de Dante: “a razão vos é dada para discernir o bem do mal”. Ela mesma de há muito desconhecia o significado desse discernimento. Na hora de ganhar a subsistência, ela agia como age qualquer político: o caminho do bem e da ética vem depois, se vier.

ESTAVA A SE FORMAR. Já havia obtido emprego no gabinete de um senador de boa reputação. Após diplomar-se em sacanagem com os mais diversos personagens da sociedade, e se familiarizado na ambientação da capital federal, ela agora se preparava para as “bodas de ferro” dos seis de casamento. Ela tinha plena consciência de que parte do salário de seu cônjuge vinha do balanço do samba canção dos compositores do troca-troca de favores e mordomias entre os poderes da República dos ditadores da democracia.

ERA ELA MULHER DE talento. Não dava ponto sem nó. Uma vez inserida nos ambientes festivos do Recife, ela aprendera como se direcionar de acordo com as tendências do momento nos quais destacava-se como se fosse uma diva entre divas de famílias. Havia aprendido a interpretar a falsa eloquência vulgar das conversas de madames e de seus amantes e maridos consortes. Os diversos dialetos das senhoras do high-Society.  

A LINGUAGEM DO povo mutuamente se prodigalizava nas conversas de rua a partir das dicas dessas madames que também se influenciam nos dialetos populares. O país inteiro sempre viveu dessa troca de influências e vivências entre as classes que, de modo consciente ou inconsciente, se mesclavam em uma mesma massa mídia de mútua socialização. Apesar do distanciamento financeiro e econômico entre elas.

POR BAIXO DOS PANOS suas filhas e filhos se habituaram a mesclar de uma forma ou de outra, suas personalidades. Afinal essa aculturação vem de longe, do tempo em que as madames ainda não tinham seus cabeleireiros, manicures e pedicures. Nem faziam massagens e depilação nas academias de beleza, nos salões de Pilates onde pontificam as conversas de lavadeiras de roupas em beiras de rios nas cidades ribeirinhas do interior. A Tv visão popularizou e horizontalizou a cultura e a civilização massificada pela força propulsora do Inconsciente Coletivo Tv visivo.

A EDUCAÇÃO PELA TV visão é a que conta nos finalmentes do reflexo social de todos em confronto com as misérias de uma espiritualidade que nivela a todos por baixo. Drogas, sexo e cancioneiros de bandas de rock, cantoras de romances dos mais diversos lupanares, estão a se reproduzirem dentro dos lares e bares de frente às universidades da unificação. A cultura e a civilização dos vira-latas unidos de todas as classes sociais, dificilmente serão vencidos em sua maternal horizontalização mundializada.

EDINAH VIVIA SUA DIVINA Comédia pessoal adaptando-se ao carnaval de influências que se entrecruzavam numa barafunda de mulheres como se todas se chamassem Raimunda. Todas submissas às alegorias e simbolismos vigentes nas atitudes sociedade de seus contra pares machistas. Edinah precisava ser a primeira pessoa de sua própria narrativa. Falar diretamente consigo mesma, ter independência da submissa sujeição às práticas de sodomia às quais se submetia por imposição de seu ganha pão.

ELA SE SENTIA A VIVER num mundo ao mesmo tempo mitológico, político, religioso, filosófico. Do contrário não suportaria um dia a mais de realidade. Numa selva de intencionalidades sombrias na qual tinha de aceitar conviver. As personalidades importantes da sociedade não passavam de simulações de respeitabilidade e autonomia. Os membros dos poderes se defendiam entre si em momentos nos quais eram questionados de acordo com as graves faltas de natureza social.

OS PODEROSOS ESTAVAM sempre cercados por traidores do interesse do povo ao qual deviam responder por seus atos criminosos, mas, devido à proteção comum entre eles, sempre saíam impunes de seus crimes. Edinah infiltrara-se entre eles, bajuladores, defensores ferozes de privilégios, servis puxa-sacos de seus senhorios sociais. Ela se via perdida em meio à cobiça dessas turbas.

SENTIA-SE SOZINHA, MAS protegida por sua beleza morena. Aparência de adolescente refratária, sedutora, dependente de um programa bem remunerado, numa cama com uma figura erótica dura e selvagem que, supostamente, a submetesse. Seu prazer era amargo como a morte. A ele se expunha, sem sonolência a essa sexualidade que impulsionava a própria demência. Ela comia da árvore proibida do jardim povoado de Evas nos lupanares Belle Époque da cidade, como se ainda estivesse na vigência do século XIX. Aquelas autoridades representavam as taras e os vícios da atmosfera intelectual e artística da época da Primeira Guerra Mundial, mixada à atualidade da fase pós conquista espacial.

ERA COMO SE SATANÁS se apresentasse com sua serpente disposta a penetrá-la e a submeter todos os sentidos de seu corpo, alugado para esses momentos de prazer unilateral. Ele mastigava o fruto da árvore do bem e do mal, mas sabia que dessa árvore a serpente trazia apenas os aconchegos da adversidade e da atribulação de ter os sentidos alugados, por uma contingência das leis da necessidade, a que devia se submeter. Por uma questão de mera sobrevivência.  

NÃO HAVIA NESSES momentos a presença de leis bíblicas, mas de uma sensualidade diabólica, de natureza probatória, que permitia aos seres decaídos, filhos aflitos, perdidos e abatidos pela libertinagem e lascívia das autoridades inimigas naturais do Deus Et. Edinah sentia-se dona de suas demandas de mulher. Ela nada podia, de imediato, fazer contra as demandas da humanidade resultante da queda de Adão sugerida pela fraca inteligência e anêmica sensibilidade humana de Eva.

QUE PODERIA AQUELA mulher ancestral contra a serpente pendente do Anjo Torto que tinha acesso ao Paraíso??? Ela era produto, resultado do plano primitivo engendrado pela engenharia de colonização do planeta Terra. Ela tinha de aceitar aquele tipo de submissão. Sem ele, como poderia Ele, o Senhor dos exércitos de outro mundo, outro planeta, outra dimensão, ter a seus pés bilhões de seres conformados a essa destinação???


Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 14/04/2022
Alterado em 19/05/2022
Copyright © 2022. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários