Textos

"A METAMORFOSE" E Os Intertextos Do Medo (Revisto E Atualizado)
“Toda a educação assenta nestes dois princípios: primeiro repelir o assalto fogoso das crianças ignorantes à verdade. E depois iniciar as crianças humilhadas na mentira, de modo insensível e progressivo.”
(Franz Kafka)


“O medo dos poderes invisíveis, inventados ou imaginados a partir de relatos, chama-se religião.”
         (Hobbes)


“Na verdade o homem á a fonte de todas as superstições e de todos os perigos.”
           (Gérard Lenne)

"Formar pensadores e educar a emoção é vital e urgente."

                                          (Augusto Cury)

RESUMO


O objetivo deste trabalho é mostrar que a novela de Franz Kafka, “A Metamorfose”, pode ser considerada uma história de terror/horror. Objetivo também demonstrar que o autor tcheco tinha por intuito precípuo, evidenciar que o comportamento humano não se diferencia muito do comportamento dos insetos. E que as instituições humanas seguem uma mesma estrutura organizacional, metáfora da organização das comunidades hexápodes.  
Ao atingir este objetivo, passo à organização de uma historiografia informativa do surgimento e desenvolvimento da literatura gótica do século XVIII à literatura dos autores de ficção das histórias de horror, suspense e terror do século XX. A argumentação subsequente desenvolve a exposição historiográfica fundamentando-a na intertextualidade entre histórias de ficção e histórias reais: de como essas se influenciam mutuamente, tendo o fenômeno da paranormalidade enquanto fator de pesquisa da dimensão supernatural.
Neste Trabalho de Conclusão de Curso, evidencio que literatura e cinema estão intimamente associados e se influenciam ao provocar o desenvolvimento do estilo e da técnica de escrever romance como de outros gêneros literários que servem de suporte para a produção de obras da “sétima arte” cinematográfica. Há evidências, neste TCC, de que a literatura e o cinema não apenas exercem influência mútua, mas que influenciam também o comportamento das pessoas e provocam mudanças na realidade comportamental destas.

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO - PRIMEIRO Tempo
1.1. “A METAMORFOSE” NOVELA DE KAFKA: uma história de terror/horror?
2. MEIO DE CAMPO – DESENVOLVIMENTO
2.1. A ESSÊNCIA DO HUMANO: metáfora do ser inseto
2.2. A consciência enquanto generalidade e sua identidade gêmea humano/inseto
2.3. INTERTEXTUALIDADES: terror (suspense)/horror
2.4. Outras metamorfoses sombrias nos intertextos do medo
2.5. MEDO DA VERDADE: a realidade e a intertextualidade sinistra das “ficções”
2.6. ARTE E VIDA – REALIDADE E FICÇÃO: intertextos de mútua influência
2.7. INTERTEXTO: da realidade da Vida para “ficção” do ECRAN
2.8. INTERTEXTOS: realidade e ficções se interpenetram
2.9. GERAÇÃO: não mais enquanto intertexto dos antepassados
2.10. REALIDADE E FICÇÃO: intertextos de terror, tragédias, acidentes
2.11. INTERTEXTOS E SEUS SIGNIFICADOS CONATUS: literatura, filosofia, matemática, física, metafísica, interdependência entre juízo de realidade & juízo da ficção
2.12. INTERTEXTO SOBRE SUBMISSÃO POLÍTICA, JURÍDICA E CULTURAL: Hitler, democracia e mídias no universo coisificado da alienação globalizada

3. FIM DE JOGO – CONCLUSÃO
3.1. Condicionamento neural destrutivo atuando no set de filmagem (4ª dimensão?)
REFERÊNCIAS

1. INTRODUÇÃO - PRIMEIRO TEMPO
1.1. “A METAMORFOSE” NOVELA DE KAFKA: uma história de terror/horror?

O mais aterrorizante livro de todos os tempos no gênero terror/horror chama-se “A Metamorfose”? Escrito em 1912, editado em 1915, esse livro inicia com este parágrafo incomum: “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

A novela se desenvolve a partir desse enunciado simples e formal. Gregor Samsa, havia substituído seu pai enquanto funcionário da companhia de tecidos. A loja do pai havia sido assaltada, ele ficou sem condições de manter a sobrevivência da família, até então rica e a usufruir dos privilégios da classe dominante.

A loja da família Samsa fora assaltada. Seu pai perde tudo e se enche de dívidas. Gregor Samsa transforma-se em caixeiro viajante da firma que fornecia as mercadorias para a loja paterna, na tentativa de pagar os débitos da falência da empresa familiar e poupar a família das consequências dessa falência. Na época os alemães eram a classe dominante em Praga, capital do reino da Boêmia. A maioria dos habitantes era tcheca, a classe dominada.

A novela antecipa os horrores da Iª Guerra Mundial e a dominação dos países do leste europeu. Dominação que seria exercida posteriormente pelos alemães durante a ditadura militar, política, econômica e jurídica sob o comando, comunicação e controle do hebefrênico Adolfo Hitler na IIª Grande Guerra.

A dominação econômica do personagem Gregor Samsa pela empresa alemã que abastecia de mercadorias a loja assaltada do pai, antecipa a dominação política e militar do país tcheco. Os débitos do fornecimento dos produtos roubados deviam ser pagos. Gregor Samsa é instado pelos patrões e fornecedores a trabalhar de vendedor externo para cobrir os prejuízos da loja paterna.

Gregor Samsa submergiu em responsabilidades, profissionais e familiares que produziriam, em sua percepção paralela da realidade, a perplexidade a que fora induzido ao presenciar os patrões alemães aliarem-se à classe média judaica reforçando dessa forma a supremacia autocrática do dominador. Os tchecos, oprimidos pelo sistema, passaram a hostilizar os judeus em manifestações isoladas e coletivas: “Fora daqui judeus”, gritavam.

Gregor Samsa prepara-se para assumir a manutenção da família com seu trabalho de vendedor.  Pressionado pelos patrões a pagar as dívidas do pai, coagido por este e pela família a assumir, com determinação, as responsabilidades do pagamento de suas  dívidas, Gregor Samsa abandona sua educação e seus sonhos, e começa a trabalhar de vendedor da fábrica de tecidos.

A trama se constrói e desenvolve a partir dessa decisão. A Metamorfose seria uma punição por ter abandonado seu projeto pessoal de vida para assumir as responsabilidades do pagamento das dívidas do pai e a subsistência da família? Tarefas que não eram suas, mas que fora pressionado a aceitar, em prejuízo de sua formação escolar? Em prejuízo da realização de seus sonhos pessoais!

O terror e o horror dessa novela são soberanos e imbatíveis? Não há autores outros que possam ser mais definitivamente terríveis ao comprovar pela experiência profissional da personagem principal (Gregor Samsa) enquanto vendedor de tecidos, que inexiste assassinato mais absurdamente sanguinário, ou “serial-killer” mais ameaçador e assustador do que os patrões do vendedor ambulante Gregor Samsa aliados a seus familiares. Eles usufruem incansavelmente dos resultados de seu trabalho. E o pressionam tanto que, ao tentar humanizar-se pelo trabalho e pela convivência familiar, sente-se metamorfoseado em repulsivo inseto.  Ele não pode humanizar-se e ao mesmo tempo ser uma peça na engrenagem da fábrica de tecidos.

A conclusão do autor não é de simples afecção. Afecção em sentido filosófico. Os escolásticos estabeleceram a distinção entre afecção externa (procedente de causas exteriores) e afecção interna (derivada de princípios interiores ou íntimos). Ambas as afecções impulsionavam Gregor Samsa em direção à emoção e à sensibilidade que a situação de dependência, familiar e profissional, o submetia, num espaço e num tempo fora do universo fantasioso da fabulação e da mitologia.

A metamorfose de Gregor Samsa acontece no mundo “normal” da família e do trabalho. Do trabalho assalariado e burocrático. A metamorfose acontece dentro de seu quarto no ambiente da vida familiar e social da pessoa comum, do funcionário submerso na rotina inflexível de uma empresa privada: um auxiliar de escritório que se metamorfoseou em vendedor de tecidos.

O mundo de seus sonhos e objetivos pessoais não era mais dele. Grego Samsa perdera a individualidade que passou a estar direcionada para a satisfação dos interesses empresariais, do sentimento de cobiça e avidez dos patrões e de preguiça e autoafirmação do pai que lhe dizia ser seu trabalho inferior ao dele, que trabalhava com a inteligência e não apenas batendo pés todos os dias. O mundo dele, Gregor Samsa, não era mais dele, sua força de trabalho era direcionada enquanto vontade e representação da vontade de terceiros.

Afirmava Schopenhauer: “Importante não é ver o que ninguém nunca viu, mas sim, pensar o que ninguém nunca pensou sobre algo que todo mundo vê”. Segundo este filósofo, o primeiro ponto de vista do mundo como representação da vontade submetida ao princípio da razão é o objeto da experiência e da ciência. Em segundo vem a objetivação da vontade, em terceiro, a ideia platônica objeto da arte. Por último, se estabelece a Ética: ao atingir-se o conhecimento de si mesmo, afirma-se ou nega a objetivação da vontade. Pessoal.

Impossibilitado de afirmar a objetivação de sua vontade pessoal, Gregor Samsa se metamorfoseia num espécime da espécie antropomorfa Homo sapiens/demens. Antropoide na forma física, mas realmente insignificante e desprezível inseto, quando se torna uma peça-pessoa coisificada no mecanismo mercantil da empresa para a qual trabalha. Ele sente na própria pele a dicotomia presente entre forma (humana) e conteúdo (hexápode): Homo sapiens/demens/inseto.

Ao se destacar enquanto excelente funcionário vendedor de tecidos, Gregor Samsa sente a alteração da sensibilidade e do entendimento (afecção) produzida pelas exigências tanto da empresa para a qual trabalha, quanto proveniente dos membros de sua família que dependem de seu trabalho para sobreviver. Seu ânimo de ser humano é afetado pelo condicionamento e a mecânica coisificante da sua rotina profissional.

Gregor Samsa, ao reagir à coisificação familiar, profissional e social, entra em conflito com os interesses de seus patrões e de seus familiares. Sente-se preterido em seu livre arbítrio pelas exigências sociais e culturais da coisificação. Quanto mais ele tenta humanizar-se e compreender a mecânica “quântica” de sua existência, mais se aproxima de conteúdos próprios de um inseto.

Apesar de pertencer à espécie Homo sapiens/demens do homem portador de uma forma humana, em sua essência, vive e sobrevive para suprir, com seu trabalho mecanizado que o coisifica enquanto mecanismo de uma política e de uma economia social que funcionam como enzimas digestivas devorando-o no estômago sistêmico antropofágico do capitalismo cromagnon. Em sua essência essa espécie coisificada pela rotina alienante equivale aos procedimentos, hábitos e costumes da espécie dos insetos.

Essas enzimas e ácidos do estômago mercadológico do capitalismo selvagem digerem qualquer possibilidade de humanização do ser humano (Homo sapiens/demens) metamorfoseado Gregor Samsa. Grego Samsa sente-se transformado num inseto quando tenta humanizar-se através do trabalho e da dedicação à cultura familiar. À cultura ideada e à lógica da rotina de trabalho do sistema capitalista. Coisificador!

2. MEIO DE CAMPO – DESENVOLVIMENTO
2.1. A ESSÊNCIA DO HUMANO: metáfora do ser inseto

O autor da novela “A Metamorfose”, Franz Kafka, descreve e desvenda não apenas um homem, Gregor Samsa, e a família à qual pertence, mas a humanidade com suas características biológicas (antropologia biológica) e socioculturais (antropologia cultural) com ênfase no comportamento condicionado pelas necessidades de sobrevivência da espécie e as metamorfoses com que essa espécie (Homo sapiens/demens) sob as influências deletérias da cultura, da economia política e da civilização ditas humanas, influencia suas transformações: psicológicas, culturais, antropológicas e fisiológicas.

A partir dos anos 1970, sua Antropologia fundamental passará a ter contornos mais claros, o sentido de modelizar a complexidade organizacional do fenômeno humano. Se algum fundamento deve ser buscado nesse macroobjetivo, ele deve estar situado numa profunda insatisfação com o conhecimento disjuntor, produto do grande paradigma do Ocidente simplificatório que, mais do que dualizar razão/imaginação, sujeito/objeto, liberdade/determinismo, sensível/inteligível, pensamento selvagem/pensamento domesticado, separa, hierarquiza, distingue e degenera o saber numa concepção mutilante. Esse paradigma, uma espécie de cânone mindscape (paisagem mental) constituído por princípios ocultos que comandam a ciência e a própria subjetividade. Tornou-se hegemônico, determinista, hiperespecializando os diversos campos cognitivos em compartimentos não comunicantes. Sempre reiterados (CARVALHO, 2002).

Visando tornar a citação acima mais adequada à compreensão de seus objetivos semânticos, insiro estas mínimas contribuições no acréscimo de palavras que talvez a tornará mais assimilável ao leitor que se ocupará em fazer uma breve releitura do que foi dito acima: a partir dos anos 1970 a antropologia fundamental de Edgar Morin passará a ter contornos mais claros no sentido de modelar a complexidade organizacional do fenômeno humano.

Se algum fundamento deve ser buscado nesse objetivo, ele deve estar situado numa profunda insatisfação com o conhecimento disjuntor, produto do grande paradigma do Ocidente simplificativo que, além de dualizar razão/imaginação, sujeito/objeto, liberdade/determinismo, contrapondo conceitos, aglutinando palavras, tese/antítese, sensível/inteligível, pensamento selvagem/pensamento domesticado, fazendo sobressair contrários ao separar significados, viver/morrer, alegria/tristeza, oculto/explícito, esse conhecimento disjuntor tensional hierarquiza, distingue, degenera o saber numa concepção mutilante.

Esse paradigma mutilador, espécie de cânone mindscape, constituído por princípios ocultos que se manifestam na paisagem mental através de imagens que comandam a ciência, a arte, a criação e a própria subjetividade, tornou-se hegemônico, determinista, hiperespecializando os diversos campos cognitivos em compartimentos não comunicantes, mas excludentes entre si. Muitas vezes já foi reiterado o significado etimológico da palavra complexo como aquilo que se tece em conjunto, que reassocia o que está dissociado, que comunica o que está incomunicável.

A subjetividade de Gregor Samsa tornou-se hegemônica, determinista, especializada. Seus diversos campos cognitivos, sempre reiterados, fizeram-no embarcar na mais impressionante conclusão a que uma história de terror/horror poderia chegar: sua tentativa de se humanizar possui a propriedade de confirmar sua transformação em inseto. Quanto mais ele tenta justificar sua condição humana, mais se expõe enquanto inseto. Quanto mais sua humanidade tenta afirmação, revela-se mais a rotina humana do inseto Gregor Samsa, desprovido de maquiagens e adereços, assim como dos pincéis, perucas, desodorantes e demais perfumarias e xampus das oficinas da vaidade nos salões de cabeleireiros:

Por mais desesperada e sincera fosse sua tentativa de se humanizar, o mais que conseguiu, em sua aflição extrema por ser, de alguma forma humano, fora concluir que pertence, real e literalmente, à espécie antropomorfizada dos insetos. O conteúdo mental, emocional, os condicionamentos das rotinas estabeleceram nele a mecânica profissional de seu trabalho. E as adaptações neurológicas e orgânicas de sua rotina não são diferentes da mecânica neural das rotinas dos insetos.

Do sistema nervoso dos insetos fazem parte a cabeça, um cordão neural localizado ventralmente com gânglios em cada segmento. A comunicação entre células nervosas é semelhante à humana. As células nervosas de um inseto se comunicam através das sinapses com ação dos neurotransmissores tais como a acetilcolina e os impulsos neurológicos transmitidos através de mudanças na carga elétrica das sinapses. Em tudo semelhante ao humano, o humano Gregor Samsa se revela em sua essência, inseto.

Quanto mais Gregor Samsa exercita a tarefa de desejar humanizar-se, quanto mais ele se desespera no esforço de conseguir alcançar uma condição, pessoal e coletiva, que seja humana, que o convença de que ele, suas percepções, seus objetivos, sua intencionalidade, seus objetivos, sua cultura... Quanto mais tenta se diferenciar da essência dos insetos, mais se aproxima da imagem insignificante e desprezível de sua  metamorfose. Ele, Gregor Samsa, não passa de um inseto. Antropomorfizado.  

A antropologia transcendental kantiana é postulativa, dado que outorga uma atividade espontânea ao sujeito cognoscente, mas ao custo de lhe privar de realidade: o sujeito real é o sujeito submetido às leis da moralidade. Mas, em verdade, a atividade construtiva de objetos é tarefa muito pobre para a liberdade transcendental. A filosofia de Polo concede ao limite mental a salvaguarda da essência humana, preservando sua não-mistura com a ordem causal e principal da realidade extramental. Portanto, é alheia a ela toda tarefa de constituição fundamental, de constituição espontânea da objetividade. Por conseguinte, a dualidade básica do humano não é a que diferencia razão teórica e razão prática, mas a que distingue a essência do homem de seu ser pessoal — e paralelamente os hábitos cognoscitivos da sindérese e da sabedoria. A partir da distinção teórico-prática kantiana não se pode reparar no intrínseco caráter veritativo da vontade humana e da consequente ação prática, nem, sobretudo, na dependência da essência do homem em relação ao seu ser pessoa: evidentemente a consciência transcendental não é pessoal (GONZÁLEZ, 2004).

A consciência transcendental em sendo coletiva e parte do inconsciente familiar de Gregor Samsa e da sociedade supostamente humana da qual faz parte, só o prestigiará à proporção que sua humanidade for descartada em proveito das convenções e rotinas familiares e sociais semelhantes às de um inseto. O humano pessoal, a individuação, existe apenas e exclusivamente nas teorias das ciências do comportamento e dos fenômenos culturais humanos: filosofia, psicologia, sociologia, história, pedagogia, antropologia, letras.

2.2. A consciência enquanto generalidade e sua identidade gêmea humano/inseto

Gregor Samsa supostamente tentou de todas as maneiras possíveis, justificar-se enquanto ser humano. Gregor Samsa conseguiu sonhar, mas não realizar o sonho de ser ele mesmo humano. O sonho de ser ele mesmo, humano: com suas alegrias e tristezas, sentimentos, emoções, nos passeios familiares, na apreciação do mar, das paisagens. Em que isto poderia diferenciá-lo de um simples inseto? Os insetos são capazes de aprendizagem e de se afastar do que lhes causa desconforto. Os insetos são resistentes à dor.

Gregor Samsa recolheu-se à sua insignificância de inseto em seu quarto na casa de sua família, já que não poderia justificar-se intelectualmente, cognoscitivamente, enquanto ser humano. Isto para ele era um tremendo incômodo. Seu hábito noético afirmava, acima de qualquer dúvida razoável, que o tipo de consciência humana não era tão dessemelhante da consciência de um inseto. Por que ele, Gregor Samsa, se posicionou ao abrigo da convivência familiar e profissional?

Talvez porque a dor de saber-se, em essência, tão semelhante a um inseto, e sabedor de que os bloqueios à dor nos insetos são mais eficientes do que em humanos, ele tenha se recolhido à forma artrópode. Os insetos são show em inteligência, propósito, design, engenharia, técnicas peculiares de sobrevivência. Incapaz de ser reconhecido por seus pares sem que estivesse cumprindo suas rotinas e seus hábitos de vendedor de tecidos, ele se recusou ao convívio com os funcionários da empresa aliados a seus familiares. Isolou-se de suas pressões hexápodes. Tomou-lhes a forma sempre esconsa na aparência bípede e antropomorfa.

De nada resultaram seus esforços intelectuais, sua reclusão em seu quarto, de nada lhe valeu sua Ioga, seu recolhimento, suas meditações, suas vivências, seus cursos de coaching. De que lhe valeram os resultados positivos da atividade profissional que lhe permitiu angariar as altas cotações da performance pessoal de suas vendas na empresa para a qual trabalhava?!  

De que lhe adiantou seu valor de mercado? Sua rotina diária de operário privilegiado, de executivo que amanhece outra vez para outro dia de trabalho? Essa sua vida não era diversa das demais rotinas sociais das abelhas, formigas, vespas, aranhas, borboletas, baratas, esperanças e cupins. Esses insetos sociais que se ocupam em encorpar seus “currículos” e os conteúdos diários da rotina e do trabalho e do modo de ser das culturas e grupos de insetos treinados pelo hábito da mecânica repetição dos costumes.

A cultura e a civilização ditas humanas resistem em admitir, por uma questão exclusivamente de narcisismo político, jurídico, e de vaidade político-social, que a cultura, a civilização e a vida em sociedade dos seres humanos são uma metáfora e um intertexto da vida social dos insetos. Por isso “A Metamorfose” é uma novela que deveria figurar entre as mais espantosas histórias nos gêneros terror/horror! Por quê?

— Por quê? Por evidenciar a fragilidade da cultura e da civilização ditas humanas. Por patentear e tornar de fácil compreensão que essa cultura e essa civilização não resistem à evidente confrontação com certa profundidade noética no exercício cognoscitivo exposto pela personagem Gregor Samsa em sua vã tentativa de se humanizar através do trabalho e da dedicação pessoal à família.

Seus patrões, colegas de trabalho, seus familiares, não poderiam jamais ser humanos. Mas poderiam manter a aparência de humanos com a essência de insetos. Gregor Samsa, por ser fiel à verdade de sua condição, por não negociar o que de mais íntimo e valioso possuía, seus valores, sua liberdade, seu inconsciente pessoal, teria de mostrar essa diferenciação de modo diverso da condição coletiva de seus conhecidos: seria inseto na forma, mas humano na essência.

Que sobraria de humano nele a preservar? Se continuasse a agir como uma aranha que tece uma teia em direção aos compradores de suas mercadorias? Teia tecida em direção aos consumidores de seus tecidos? Ele conseguia prender seus compradores como se fossem insetos em sua teia. Qualquer vendedor poderia conseguir isso. Oprimido pela frágil condição do homem frente às pressões do cotidiano exercida por seus chefes e pelos membros de sua família, Kafka talvez quisesse questionar a atividade do autor que produz textos. Literários. Seria ele, Kafka um espécime da espécie Gregor Samsa?

Texto quer dizer Tecido, mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por produto, por um véu todo acabado por trás do qual se mantém mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo. Perdido nesse tecido, nessa textura, o sujeito se desfaz nele qual aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia. Se gostássemos de neologismos poderíamos definir a teoria do texto como uma hifologia — hiphos é o tecido e a teia da aranha (BARTHES, 1987).

As instituições burocráticas exploram as necessidades de sobrevivência do homem. O terror/horror contido no livro “A Metamorfose” é inusitado, interno, íntimo, profundo. E ao mesmo tempo muito antigo. Por isso mesmo incomum, porque revelado. Por revelar essa condição, revela simultaneamente a epifania da condição humana nas três dimensões do conhecimento: abrangência, profundidade e atualidade.

“A Metamorfose” ao desnudar essa condição humana tão esconsa por detrás das máscaras do dia a dia, revela também a subjetividade inumana que subjaz sob as histórias de terror/horror escancarado de personagens psicóticos que dilaceram suas vítimas todos os dias na crônica policial e político-econômica, no mundo real. A insegurança pública todos os dias revela o horror/terror consequente das vítimas dilaceradas nas histórias de ficção realista. Ou científica.

É o terror/horror da dor de não poder humanizar-se numa sociedade que se constrói e desenvolve sem premissas sociais humanas. É o terror de se surpreender envolvido numa teia de paradigmas e interesses sociais que se resolvem em campos de batalha onde a matança de seres mais demens do que sapiens, atirando pólvora uns sobre os outros, suscita uma cultura e uma civilização de convenções formais onde o assassinato bárbaro de seres supostamente humanos, é ajustado. Diplomaticamente.

Na Iª Grande Guerra foram, aproximadamente, trinta milhões de mutilados e feridos somados a dez milhões de mortos. Na II Gerra Mundial, somaram-se mais de sessenta milhões de cadáveres. Afora uns cento e cinquenta milhões de mutilados e feridos. As guerras continuam acontecendo: as declaradas e os conflitos não declarados. Quantos são os mortos e inválidos por trás do convívio genocida silencioso das guerras internas em países africanos, latino-americanos, europeus, asiáticos?

As “elites” da comunidade diplomática internacional, através da negociata de armas para que as partes interessadas na conquista do poder, possam se matar impunemente a partir das convenções diplomáticas que validam a matança, continuam a manter seu “status” à custa da dor e do sofrimento de suas populações causados pelo descaso com a educação, a saúde, a insegurança, a mobilidade urbana e a habitação sem saneamento básico de grandes comunidades em seus territórios.

Essas “elites” governam em nome de uma suposta humanidade, mas, na realidade, em nome de interesses e negociatas privadas, no interesse de suas representações públicas, ditas republicanas e democratas. Representações do ganho e do levar vantagens pecuniárias em transações onde o dinheiro público é canalizado para as contas bancárias das empresas envolvidas nas maracutaias com o interesse político e jurídico privado. Talvez a sociedade dos insetos enquanto espécie, não chegue a tanto.

O que há de mais moderno, mais atual, mais extremo e significativo na cultura e na civilização humanas é o ser pessoal. A leitura antropológica dessa novela “A Metamorfose”, a partir do exercício cognoscitivo das críticas kantianas que emergem da leitura da Crítica da Razão Pura nos conduz à conclusão de que o homem não é um agente livre que age segundo sua própria vontade. O conceito freudiano de pulsão inconsciente é mais forte, intelectualmente, do que o conceito filosófico da razão kantiana.

A necessidade endógena de se humanizar que domina Gregor Samsa o impossibilita de ser um ser moral, isto é, de humanizar sua vida de acordo com leis que não sejam as leis físicas dos interesses da impessoalidade inconsistente e inconsciente do mercado. Ele embarca num processo mental e físico perverso e regressivo, porque sua vida está sob o comando, comunicação e controle do princípio determinista de finalidade e não de causalidade.

Causalidade: agir como agiria se pudesse justificar-se enquanto ser humano, segundo seu querer, sua vontade pessoal. Gregor Samsa não consegue impor limites à física do pensar determinista para emergir de sua crise existencial enquanto homem livre e agente moral de sua própria vida. Ele se recusa a agir conforme as determinações pulsionais do capitalismo cromagnon.

Gregor Samsa quer parar de agir segundo a vontade e a determinação atávicas, pulsionais, da arquitetura social familiar e empresarial vigente nas leis do mercado de trabalho. E tudo que consegue é metamorfosear-se em inseto. Porque inexiste na sociedade mercadológica acordo possível com quem não respeita suas necessidades pulsionais. As necessidades endógenas, racionais, de Gregor Samsa não condizem com os mecanismos do progresso da empresa de tecidos para a qual trabalha, nem condizem com as solicitações familiares.

Nessa sociedade humanizar-se é simplesmente impossível. Porque essa sociedade está coisificada por interesses que nada têm de humanos. As mercadorias, a comercialização de mercadorias, determina sua condição inumana. A condição inumana regressiva à forma de um inseto: efeito de sua tentativa extrema de querer metamorfosear a vida e a intencionalidade dela, humanizando-as. Não consegue porque é simplesmente impossível humanizar-se numa sociedade em que todos, por íntima convenção coletiva, agem e reagem como insetos.
O homem não é um ser abarcado pelo espaço, porque este só é a forma “a priori” da intuição sensível externa à condição que o homem impõe para representar uma multiplicidade fenomênica. O sujeito sai, assim, do espaço e funciona com relação ao que nele se encontra estabelecendo regras e leis mediante categorias ou conceitos, os quais são funções mentais que estabelecem conexões e determinam a unidade daquilo que aparece no espaço. O sujeito já não é meramente empírico, e sim transcendental: converte-se no legislador que estabelece, enquanto conhece, a necessidade lógico-transcendental do mundo. O homem não é um ente intramundano, porque o intramundano é legislado por ele, enquanto sujeito transcendental (POLO, 2007).

Se enquanto sujeito transcendental Gregor Samsa está impossibilitado de legislar o mundo de sua vontade e torná-lo efetivo, então somente lhe resta a regressividade de sua vida às formas que não dizem respeito ao humano. Desde que os fenômenos do mundo externo a ele, e à sua vontade, estão tão definitivamente cristalizados pela tradição, pelos que o influenciam, precedem, pressionam e acompanham, de tal forma, e com tal força e intensidade pulsional, que ele, na tentativa de se humanizar torna-se igual em essência àqueles que sobre ele exercem comando, comunicação e controle: a sociedade dos insetos é invisível e invencível. Não admite, de forma alguma, sua humanização. Nem seu caráter pessoal, ou sua vontade de expressar a humanidade nele existente.

Segundo Heidegger, filósofo alemão acusado de simpatizante nazista, uma percepção não se torna intencional quando algo físico correlaciona-se com algo psíquico. Nem tampouco a percepção repele a intenção se o correlato da percepção não é real. A percepção, quer seja de um fato real quer de um “fato” apenas subjetivo ou imaginário, é, em si mesma, intencional. A intencionalidade do autor Kafka, de sua literatura, não consiste em uma propriedade que vem por acréscimo apenas à sua percepção pessoal. Em sendo dessa forma, sua percepção da realidade enquanto tal, é intencional.

O comportamento autoral de Kafka, através de seu personagem Gregor Samsa, é “um dirigir-se a”. Não é necessário que ocorra primeiramente um processo psíquico num estado não intencional. O complexo de sensações, associações de memórias e pensamentos pode tornar-se intencional em decorrência da vontade dirigida ao processo pessoal de representação de seu propósito literário, filosófico, psicológico, ou outro.

A impossibilidade de Gregor Samsa tornar-se humano e transcendente às limitações de comportamento que a rotina do trabalho impõe pelo condicionamento, faz com que Gregor Samsa somatize, ou transfira para o plano físico, o fenômeno psicológico pulsional da metamorfose. Ser inseto é a verdadeira natureza dos labores e aflições humanas. É sua mais íntima, invisível, insensível e imbatível essência. Heidegger denominou esse fenômeno de vida ou existência fáctica de Dasein (Ser-aí). Ele expressa a forma fática de um estímulo à sociabilidade e à comunicação. Ou seja: o imediatismo inevitável da condição existencial. O “aí” do Dasein é seu movimento de integração ao mundo agora revelado e inteligível.

Para Gregor Samsa não há como vencer a luta em prol de sua humanização numa sociedade de insetos pulsionais. A manifestação do inconsciente coletivo da verdadeira natureza das coisas pulsionais da cultura ancestral, assim como da natureza dos atavismos da civilização atual, é uma força invencível.

A significação mais profunda do espírito não é humana: pertence à ideia principal da existência lógica intencional do homem, isto é: a coisa mais fundamental do ser humano é ser, realmente, constituído da natureza insétil. Ambas as naturezas, humana/inseto são indivisíveis. Gêmeas univitelinas. Em suas pulsionalidades.

O pensamento racional, consciente, do suposto ser antropomorfo a quem chamam de humano, é simplesmente tênue, passageiro, rápido. Não é consistente, nem se afirma no cotidiano de suas ações. O que vale mesmo no condicionamento neural dos seres ditos humanos é seu comportamento coletivo pulsional de inseto. Os grandes líderes mundiais não veem essas verdades que saltam aos olhos. Ou melhor, veem, mas tiram delas apenas proveito político, financeiro, econômico. Abusam da coisificação coletiva dos insetos antropomorfos em proveito de sua economia política. Escravizando-os. Coisificando-os.

No dizer de Freud: “os poetas e autores literários são valiosíssimos aliados, cujo testemunho deve-se estimar em alto grau [...] estão muito adiante de nós, homens comuns, eles bebem em fontes inacessíveis à ciência”.

2.3. INTERTEXTUALIDADES: terror (suspense)/horror

Histórias de metamorfoses homem/vampiro, lobisomem, monstros e fantasmas são considerados arquétipos literários dos contos, novelas e romances de terror. Como começaram a aparecer sob a forma de livros, após séculos de oralidade compulsiva? Há certa sincronicidade entre a data do surgimento do Romantismo, do romance e da literatura de terror:

A novela “O Castelo de Otranto” do autor inglês Horace Walpole, editada em 1764 é considerada o momento, no século XVIII, em que surgiu o romance. O Romantismo alemão emergiu na literatura em 1770.

No Século das Luzes, Otranto despertou a imaginação da geração romântica com seus mausoléus e túmulos próximos a castelos aliciados pela paisagem na turvação atmosférica proveniente de nevoeiros e brumas ao redor de fortalezas góticas raiadas por chamas e fogos fátuos que atiçavam gases gélidos e/ou incandescentes no imaginário de seus habitantes.

Assustados, os habitantes desses lugares mórbidos, os que ousavam descer e subir (quando conseguiam voltar de seus subterrâneos), porões e cavernas (infestadas de morcegos), disseminavam entre seus pares as sensações causadas pelas criptas e passadiços povoados de gritos, sussurros e pelos ruídos de metais e correntes. Sabemos que morcegos são insetívoros.

Os sobreviventes contavam, via oralidade, de geração em geração, as histórias sobre as escadarias sombrias que serviam de ponte entre as dimensões humana e espectrais, e propagavam a existência de paredes tumulares das quais surgiam esqueletos e esculturas de gárgulas e demônios ancestrais.  

O leitor estará, talvez, a se perguntar qual a diferença entre as sensações causadas pelo terror e o horror. O terror produz a apreensão motivada pelo desconhecimento de uma situação real ou virtual, a exemplo da personagem que teme a aproximação de um assassino, ou a pessoa que se acha apreensiva na expectativa do resultado de um exame para detecção do vírus HIV: essas situações caracterizam um estado de apreensão denominado terror.

O horror não suscita uma situação de mistério, uma apreensão desconhecida, receio ou cisma. O horror causa aversão e repugnância do que mostra de imediato. A exemplo de corpos dilacerados em decorrência de um desastre aéreo, as vítimas da insanidade de um serial killer, a atuação criminosa de uma seita que pratica rituais de sacrifício com suas vítimas. Ou as vítimas dos acidentes de trânsito nas ruas, avenidas e estradas interestaduais.

Terror e horror frequentemente andam de mãos dadas. Na série sexta-feira 13 há a presença nas vítimas de Jason, do terror, acentuado pela sensação de impaciência e inquietude (suspense) decorrente da possibilidade das personagens darem de frente com Jason e serem, consequentemente, agredidas, perseguidas, esfaqueadas, degoladas, torturadas e esquartejadas.

Devendra Varma, especialista britânico em literatura gótica, resumiu desta forma a diferença entre literatura de terror e horror respectivamente: “terrível apreensão” e a “horrível realidade”. Stephen King em seu ensaio “Dança Macabra” adiciona a esse mix conceitual a sensação de repugnância, aversão, objeção. Ele sintetiza essas antipatias no substantivo feminino: repulsa.

King afirma que o terror pouco aparece em seus livros, o horror sim, está presente, e a repulsa, um estágio narrativo pra lá do horror, é por ele utilizado para manter o leitor fixado em seu interesse pela leitura. Este objetivo todo autor deseja alcançar: que seus leitores continuem lendo o desenvolvimento da história com o mesmo interesse mórbido suscitado pelo medo.


2.4. Outras metamorfoses sombrias nos intertextos do medo

O titã Prometeu (Premeditação) irmão de Atlas, chegou ao planeta Terra.  Prometeu, era descendente da remota espécie destronada por Zeus. Este, dá-lhe a tarefa de criar o homem. Na Terra adormecida estava a semente dos deuses. Prometeu, seu próprio nome diz, premeditadamente esculpiu na argila a imagem do homem para que este viesse a ser senhor da Terra, com as características boas e más dos demais animais. Atena, deusa da sabedoria, insuflou na criação de argila do filho o sopro do espírito divino. Dessa forma nasceram os primeiros homens.

Mary Shelley (1797/1851) — Ela escreveu Frankenstein inspirada nas experiências macabras do médico Erasmus Darwin que, no século anterior havia tentado promover a reanimação de mortos usando o magnetismo criado por campos elétricos.

Edgar Allan Poe (1809/1849) — Expulso da Academia de West Point por indisciplina, autor de Histórias Extraordinárias, onde se podem ler os contos A Queda Da Casa De Usher, O Gato Preto, O Barril de Amontillado, Manuscrito Encontrado Numa Garrafa, e outras obras-primas no gênero terror.

Sheridan Le Fanu (1814/1873) — Contemporâneo de Edgar Allan Poe, pioneiro na abordagem repulsiva de textos sobre vampirismo, assassinatos em série, satanismo, possessão, pedofilia, dilaceração mórbida de corpos, e espíritos com poderes telecinéticos que, sem ação mecânica faziam objetos se deslocarem de um para outro lugar.

Le Fanu, pioneiro do lesbianismo e do vampirismo na literatura gótica, escreveu o conto Carmilla, no qual há a presença de intensa atração sexual de uma vampira por Laura, a mulher que narra o conto numa atmosfera de mórbida sensualidade. Bram Stoker escreveu Drácula influenciado por essa leitura.

H. P. Lovecraft (1890/1937) — Excêntrico “forever alone”, sem tempo hábil para namoros e casos de sentimentalismos físicos, passava as madrugadas escrevendo. “The Call Of Ctthulhu”, conto onde há a primeira aparição dessa entidade, Ctthulhu, publicado na revista Weird Tales em 1928. O baixista da banda americana de heavy metal Metallica, Cliff Burton, gravou no álbum Ride the Lightning a canção “The Call Of Ctthulhu”.

Grande fã de Lovecraft, Cliff Burton morreu num acidente de ônibus na região rural do sul da suécia. O ônibus da banda derrapou no gelo e capotou na grama em Ljungby, próxima a Dörarp. Ele fora jogado de seu beliche para fora do ônibus quando a banda promovia o álbum Master of Puppets. Na faixa To Live Is To Die do album And Justice for All, a canção, quase que totalmente instrumental, tinha por única estrofe traduzida da letra escrita por Burton:

“Quando um homem mente, ele mata uma parte do mundo/Estas são as pálidas mortes as quais os homens chamam de suas vidas/Tudo isso eu não posso aguentar ver por muito tempo/Não poderia o Reino da Salvação me levar para casa?” A última frase, “Cannot The Kingdom of Salvation take me home” está reproduzida na lápide de Cliff Burton.

Anne Rice (1941) — Seu primeiro livro Entrevista com o Vampiro (1976), fora escrito em apenas uma semana. Ela afirmou ter-se inspirado nos filmes clássicos de terror dos anos 30/40, tal como A Filha do Drácula. Uma pessoa de sua intimidade afirmou que uma das protagonistas do filme é uma homenagem dissimulada à sua própria filha, morta por leucemia aos seis anos, em 1972.

Stephen King (1947) — No ensaio anteriormente mencionado, afirma que aos nove anos de idade teve a convicção de que seria um escritor ao ler os contos de H. P. Lovecraft, que pontificava entre os afixados nos livros de gênero terror, qualificando os mesmos com elementos fantásticos nos gêneros fantasia e ficção científica.

King afirmou no ensaio Dança Macabra que suas principais influências foram os escritores Richard Matheson (Eu sou A Lenda) e Ray Bradbury (Fahrenheit 451), dizendo deste que “sem Bradbury não existiria Stephen King”.


2.5. MEDO DA VERDADE: a realidade e a intertextualidade sinistra das “ficções”

HISTÓRIA REAL (1985) — O antropólogo e etnólogo canadense Wade Davis, Explorador-in-Residence da National Geographic, é um pesquisador das culturas indígenas em todo o mundo. Ele investigou drogas psicoativas preparadas por xamãs do Haiti, principalmente o “pó do zumbi” que paralisa a vítima e produz nela um estado de latência e a faz agir como um morto-vivo. A Maldição dos Mortos-Vivos (The Serpent and the Rainbow), livro editado em 1985, narra a história de suas pesquisas através da magia negra sinistra dos xamãs haitianos. Suas pesquisas serviram de fundamento para um roteiro filmado em 1988.

HISTÓRIA REAL (2005) — A adolescente Anneliese Michel, 16, de família alemã católica, fora dominada por meia-dúzia de espíritos ruins. Seus sofrimentos indizíveis vieram a público através do livro e do filme O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcismo de Emily Rose). Um sacerdote católico é julgado em tribunal por suposta culpa no cancelamento dos medicamentos contra a hipotética doença neurológica da moça. Ela narrou em carta a esse sacerdote ter visto a Virgem Maria em aparição após uma de suas crises e metamorfoses físicas provocadas por uma psique supostamente atormentada por entidades multidimensionais.

A carta de Anneliese fora lida em juízo no julgamento do padre. Nela a moça escreveu que a Virgem Maria teria se materializado frente a ela e perguntado à adolescente se ela resistira a seus sofrimentos por mais tempo em nome da divulgação de seus tormentos que revelariam à sociedade a existência de demônios. A moça teria optado pela continuidade dos sofrimentos físicos em nome da fé. Para que todos soubessem que o demônio é um ser de realidade incontestável.

HISTÓRIA REAL, (1971) — O livro de William Blatty, O Exorcista (The Exorcist), teve por base um artigo lido por ele na Biblioteca da Universidade Georgetown, em Washington. Nele, um padre narrava as sessões de exorcismo que tentavam salvar a adolescente Regan de 12 anos, possessa por entidade maléfica multidimensional. Os fatos tiveram ocorrência numa residência de família da alta sociedade na cidade de Mount Rainier em Prince George´s County no estado de Maryland, fronteira com Washington D. C. nos Estados Unidos. O fato, segundo a narrativa do sacerdote católico teria acontecido em 1949.

HISTÓRIA REAL, (2005) — A residência número 112 da Ocean Avenue em Amityville, Long Island, Nova York, é um lugar realmente assoberbado pela dominação de entidades maléficas multidimensionais. Nela aconteceu o assassinato em massa da família DeFeo, na noite de 13 de novembro de 1974, Ronald DeFeo matou a sangue frio os pais e quatro irmãos com tiros de carabina na nuca. O criminoso fora julgado e condenado pela chacina dos pais, dois irmãos e duas irmãs, a seis penas consecutivas de 25 anos de prisão em 21 de novembro de 1975.

Em dezembro de 1975 a família George e Kathy Lutz com seus três filhos mudaram-se para esse endereço macabro. Ficaram 28 dias. E fugiram aterrorizados. Alegaram terem sido atormentados e ameaçados por fenômenos paranormais produzidos por seres fantasmagóricos, figuras encapuzadas, varejeiras que surgiam do nada, alterações repentinas de personalidade, odores mórbidos e nocivos à saúde, fenômenos telecinéticos, desconexão dos serviços telefônicos, e presença de uma entidade com forma de porco denominada de “Jodie” por um de seus filhos.

“Os espíritos demoníacos”, segundo eles, forçaram a família a fugir da casa para nunca mais voltar. Kathy Lutz alegou ter sido sistematicamente espancada e arranhada por mãos invisíveis e, em certa ocasião noturna, surpreendeu-se levitando na cama. Fenômeno também observado nos acontecimentos mórbidos narrados por Blatty em O Exorcista.

HISTÓRIA REAL, (2009) — Allen e Carmen Snedeker foram morar com os quatro filhos numa casa antiga em Southington, Connecticut. O imóvel fora desocupado por uma empresa funerária. Uma suposta força multidimensional alojou-se no sistema nervoso central do primeiro filho. Pesquisadores do fenômeno paranormal foram chamados e concluíram que o local estava infestado por forças paranormais que não pertenciam, originalmente, à dimensão humana.

2.6. ARTE E VIDA – REALIDADE E FICÇÃO: intertextos de mútua influência

Tanto a vida imita a arte quanto a arte imita a vida. Os filmes Pânico, Assassinos por Natureza, Laranja Mecânica, Jogos Mortais, A Hora do Pesadelo, Psicopata Americano, A Rainha dos Condenados, Entrevista com o Vampiro, Batman, O Cavaleiro das Trevas e Taxi Driver, serviram de inspiração para crimes e atrocidades neles mostradas através de suas personagens na telona.

Thierry Jaradian, 24, matou a namorada Alisson Cambier, 15, com trinta facadas, fantasiado com a máscara da personagem de Pânico (1996). — Fãs de carteirinha do filme Assassinos por Natureza (1994), Eric Harris e Dylan Klebold, foram culpados pela matança de doze estudantes e um professor no massacre de Columbine nos EUA. O filme também serviu de motivação para os jovens Benjamin Darras e Sarah Edmondson matarem Willian Savage e atirarem em Patsy Byers que ficou tetraplégica.

O assassinato de um garoto britânico de 14 anos por um colega de escola e o estupro múltiplo de uma mulher holandesa nos quais os agressores cantavam Singning in the Rain, imitando a personagem principal do filme Laranja Mecânica (1971). — No Tennessee (EUA) duas adolescentes, ao estilo do assassino em série de Jogos Mortais (2004), passaram uma MSN no celular de uma idosa, 52, enquanto uma amiga desta era mantida presa em sua casa e seria morta com gás se ela não agisse conforme suas indicações.

Donald Gonzalez (ao estilo do transtornado assassino de A Hora do Pesadelo 1984), matou quatro pessoas, entre elas um médico de 75 e a esposa, usando um jogo de facas ao estilo da personagem Freddy Krueger. Duas outras pessoas escaparam por pouco do ataque. Após condenado, o esquizofrênico Gonzalez suicidou-se na cadeia. Talvez imaginando que poderia, de alguma forma, penetrar as pessoas por meio de seus sonhos. — Com 14, Michael Hernandez atraiu um colega de classe até o banheiro da escola e o matou com 40 facadas. Comportamento confesso, inspirado no filme Psicopata Americano (2000).

Depois de assistir ao filme a Rainha dos Condenados (2002) um sem número de vezes, esse adolescente escocês, Allan Menzies, 22, assassinou o amigo Thomas McKendrick e ingeriu seu sangue como se fosse um vampiro. No julgamento disse aos jurados ter sido visitado por Akasha que lhe havia prometido que, se fizesse isso, reencarnaria como vampiro. — Daniel Sterling e Lisa Stellwagen, sua namorada assistiram ao filme Entrevista com o Vampiro (1994) em 17/10/1994. As três da madrugada Lisa notou que Daniel a fixava intensamente ao dizer: “Esta noite você vai morrer. Vou te matar e beber seu sangue”. Ela recebeu sete facadas. Ela sobreviveu e disse que Daniel sugou seu sangue por vários minutos.

Os exemplos de Intertexto ficção/realidade são muitos. A relação emocional, por vezes psicótica, que filmes causam em alguns de seus espectadores, são exemplos de Intertexto neural. Há a transferência de conteúdos psíquicos de personagens supostamente fictícios para pessoas do mundo real. A virtualidade se transforma em realidade nessas pessoas. O conteúdo ficcional metamorfoseia-se em formas, as mais diversas, estranhas e perigosas de atuação a partir do mundo ficcional e se formalizam e personificam em pessoas com psique aberta às influências deletérias.

Personagens do universo paralelo da ficção podem capturar e nortear a atenção e a intenção desses espectadores sujeitos à admiração excessiva e à possessão da personalidade de outrem num determinado contexto de influências: estéticas, culturais, políticas e/ou históricas. Essa identificação psicótica entre personagem ficcional e persona real pode ser explicada, em parte, pela atuação dos neurônios-espelhos.

Neurônios-espelhos são grupos de células mentais fundamentais para o exercício da socialização e da empatia. Podemos verificar nos exemplos acima citados, que  personagens de filmes podem sugerir comportamentos altamente antissociais e gerar pulsões de identidade reversa entre personagem ficcional e pessoas do mundo real.

Sabemos que uma imagem vale mais que mil palavras. Um texto imagético sugere mil associações psicológicas, por vezes psicóticas, entre personagem cinematográfico e seus interlocutores da sala de projeção. A leitura de uma obra cinematográfica pode atingir seu interlocutor a quem ela se dirige, de maneira mais do que pertinente ao simples entretenimento. Uma imagem vale mais que mil palavras e influencia, supostamente, mais que mil palavras. Imagens cinematográficas mostram o modo pelo qual se manifestam gestos e intenções, esse movimento influencia e facilita a empatia entre personagem (ator) e personagem (ator) espectador.

O excepcional e o fantástico surgem de uma realidade de atuação de mútua influência bem definida: écran/sala de jantar. Imagem (supostamente) ficcional/espectador do mundo real. Há certa fusão entre essas duas instâncias de uma mesma realidade. O real influencia o imaginário e vice-versa.

O Século das Luzes afirmou a representação da literatura fantástica trazendo à realidade dos leitores dos romances góticos ingleses, assim como dos romances do romantismo alemão, a sombria doação de personagens provenientes da ciência e do positivismo posicionando seus contos e romances em mãos da empatia influenciável de seus leitores.

O fantástico só pode surgir em um plano de fundo de uma “realidade” bem definida. Para que haja oposição entre real e imaginário, e depois, eventualmente, fusão entre os dois: o quadro real deve ser escrupulosamente respeitado. A grande tradição da literatura fantástica surgiu no Século das Luzes (época em que Kubrick vê todos os nossos problemas representados) com o romance gótico inglês e depois com o romantismo alemão. Ele se desenvolveu no século XIX, paralelamente à ciência e ao positivismo, dos quais pode ser considerado como a parte sombria, e é instrutivo observar que, de Hoffmann a Gógol, de Balzac a Maupassant, os maiores autores fantásticos foram também os adeptos do realismo, e até mesmo do naturalismo, antes que Jules Verne e H. G. Wells ilustrassem com a ficção científica o encontro da técnica e da magia (CIMENT, 2013).

Em “A Metamorfose” Kafka expõe as ameaças interiores às quais está sujeito qualquer ser humano que especule as profundidades refletoras da condição humana. É preciso certa audácia para explorar os códigos biológicos da origem da espécie humana. O Homo sapiens/demens é uma estirpe em processo de construção. Ele talvez chegue aos finalmentes de sua cultura e de sua civilização de modo altamente destrutivo. Isto porque sua cultura e civilização estão alicerçadas na condição original pulsional de desejo, rompante e exaltação dos instintos, como bem explicitou o cineasta Stanley Kubrick em seus filmes no gênero fantástico: 2001: uma odisseia no espaço e O Iluminado.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 05/02/2015
Alterado em 18/02/2015


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