Textos

"A Metamorfose": Metáfora Da Rotina
“Toda a educação assenta nestes dois princípios: primeiro repelir o assalto fogoso das crianças ignorantes à verdade. E depois iniciar as crianças humilhadas na mentira, de modo insensível e progressivo.” (Franz Kafka)


1.INTRODUÇÃO
PRIMEIRO TEMPO
1.1. “A METAMORFOSE” NOVELA DE KAFKA:
UMA HISTÓRIA DE TERROR/HORROR?

O mais aterrorizante livro de todos os tempos no gênero terror/horror chama-se “A Metamorfose”? Escrito em 1912, editado em 1915, esse livro inicia com este parágrafo incomum: “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

A novela se desenvolve a partir desse enunciado simples e informal. Gregor Samsa havia substituído seu pai enquanto funcionário da companhia de tecidos. A loja do pai havia sido assaltada, ele ficou sem condições de manter a sobrevivência da família, até então rica e a usufruir dos privilégios da classe dominante.

A loja da família Samsa fora assaltada. Seu pai perde tudo e se enche de dívidas. Gregor Samsa transforma-se em caixeiro viajante da firma que fornecia as mercadorias para a loja paterna, na tentativa de pagar os débitos da falência da empresa familiar e poupar a família das consequências dessa falência. Na época os alemães eram a classe dominante em Praga, capital do reino da Boêmia. A maioria dos habitantes era tcheca, a classe dominada.

A novela antecipa os horrores da Iª Guerra Mundial e a dominação dos países do leste europeu. Dominação que seria exercida posteriormente pelos alemães durante a ditadura militar, política, econômica e jurídica sob o comando, comunicação e controle do psicótico Adolfo Hitler na IIª Grande Guerra.

A dominação econômica do personagem Gregor Samsa pela empresa alemã que abastecia de mercadorias a loja assaltada do pai, antecipa a dominação política e militar do país tcheco. Os débitos do fornecimento dos produtos roubados deviam ser pagos. Gregor Samsa é instado pelos patrões e fornecedores a trabalhar de vendedor externo para cobrir os prejuízos da loja paterna.

Gregor Samsa submergiu em responsabilidades, profissionais e familiares que produziriam, em sua percepção paralela da realidade, a perplexidade a que fora induzido ao presenciar os patrões alemães aliarem-se à classe média judaica reforçando dessa forma a supremacia autocrática do dominador. Os tchecos, oprimidos pelo sistema, passaram a hostilizar os judeus em manifestações isoladas e coletivas: “Fora daqui judeus”, gritavam.

Gregor Samsa prepara-se para assumir a manutenção da família com seu trabalho de vendedor.  Pressionado pelos patrões a pagar as dívidas do pai, coagido por este e pela família a assumir, com determinação, as responsabilidades do pagamento de suas  dívidas, Gregor Samsa abandona sua educação e seus sonhos, e começa a trabalhar de vendedor da fábrica de tecidos.

Que mais poderia Gregor Samsa fazer, uma vez oprimido pela máquina política do opressor e pelas circunstâncias do trabalho assalariado e as cobranças familiares, senão sentir-se transformado em inseto? E o discurso literário do personagem continua a complementar o enunciado citado no primeiro parágrafo deste artigo.

2 MEIO DE CAMPO
DESENVOLVIMENTO
2.1 A ESSÊNCIA DO HUMANO:
METÁFORA DO SER INSETO

O autor da novela “A Metamorfose”, Franz Kafka, descreve e desvenda não apenas um homem, Gregor Samsa, e a família à qual pertence, mas a humanidade com suas características biológicas (antropologia biológica) e socioculturais (antropologia cultural) com ênfase no comportamento condicionado pelas necessidades de sobrevivência da espécie (trabalho) e as metamorfoses com que essa espécie (Homo sapiens/demens) sob as influências deletérias da cultura, da economia política e da civilização ditas humanas, influencia suas transformações: psicológicas, culturais, antropológicas e fisiológicas.

Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre o qual a coberta, prestes a deslizar de vez, apenas se mantinha com dificuldade. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, vibravam desamparadas ante seus olhos.

“O que está acontecendo comigo?” Ele pensou. Não era sonho. Seu quarto, um quarto humano, apenas um pouco pequeno demais, encontrava-se silencioso entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se espalhava, desempacotada, uma coleção de amostras de tecidos, estava a imagem que ele havia recortado havia pouco de uma revista ilustrada e posto numa moldura bonita e dourada (KAFKA, 2001).

A trama se constrói e desenvolve a partir dessa percepção. A Metamorfose seria uma punição por ter abandonado seu projeto pessoal de vida para assumir as responsabilidades do pagamento das dívidas do pai e a subsistência da família? Tarefas que não eram suas, mas que fora pressionado a aceitar, em prejuízo de sua formação escolar? Em prejuízo da realização de seus sonhos pessoais!

O terror e o horror dessa novela são soberanos e imbatíveis? Não há autores outros que possam ser mais definitivamente verossímeis ao comprovar pela experiência profissional da personagem principal (Gregor Samsa) caixeiro-viajante vendedor de tecidos, que inexiste assassinato mais absurdamente sanguinário, ou “serial-killer” mais ameaçador e assustador do que os patrões do vendedor ambulante Gregor Samsa aliados a seus familiares. Eles usufruem incansavelmente dos resultados de seu trabalho. E o pressionam tanto que, ao tentar humanizar-se pelo trabalho e pela convivência familiar,  sente-se metamorfoseado em repulsivo inseto.  Ele não pode humanizar-se e ao mesmo tempo ser uma peça na engrenagem da fábrica de tecidos. E da cultura familiar. E social.

A conclusão do autor não é de simples afecção. Afecção em sentido filosófico. Os escolásticos estabeleceram a distinção entre afecção externa (procedente de causas exteriores) e afecção interna (derivada de princípios interiores ou íntimos). Ambas as afecções impulsionavam Gregor Samsa em direção à emoção e à sensibilidade que a situação de dependência, familiar e profissional, o submetia, num espaço e num tempo fora do universo fantasioso da fabulação e da mitologia.

A metamorfose de Gregor Samsa acontece no mundo “normal” da família e do trabalho. Do trabalho assalariado e burocrático. A metamorfose acontece dentro de seu quarto no ambiente da vida familiar e social da pessoa comum, do funcionário submerso na rotina inflexível de uma empresa privada: um auxiliar de escritório que, primeiramente, se metamorfoseou em vendedor de tecidos.

“Oh Deus”, pensou ele, “que profissão extenuante que fui escolher! Entra dia, sai dia, e eu sempre de viagem. As agitações do negócio são muito maiores do que propriamente o trabalho em casa, e ainda por cima impuseram sobre mim essa praga de ter de viajar, os cuidados com as conexões de trem, a comida ruim e desregulada, contatos humanos sempre cambiantes, que nunca serão duradouros e jamais afetuosos. Que o diabo leve tudo isso!” [...] Ele mostrava-se tomado por uma série de pontinhos brancos e pequenos, que não logrou avaliar donde vinham. Quis tocar o local com uma das pernas, mas logo puxou-a de volta: o contato lhe dava calafrios (KAFKA, 2001).

O mundo de seus sonhos e objetivos pessoais não era mais dele. Grego Samsa perdera a individualidade que passou a estar direcionada para a satisfação dos interesses empresariais, do sentimento de satisfação da cobiça e avidez dos patrões e de preguiça e autoafirmação do pai que lhe dizia ser seu trabalho inferior ao dele, que trabalhava com a inteligência e não apenas batendo pés todos os dias. O mundo dele, Gregor Samsa, não era mais dele, sua força de trabalho era direcionada enquanto vontade e representação da vontade de terceiros.

Afirmava Schopenhauer: “Importante não é ver o que ninguém nunca viu, mas sim, pensar o que ninguém nunca pensou sobre algo que todo mundo vê”. Segundo este filósofo, o primeiro ponto de vista do mundo como representação da vontade submetida ao princípio da razão, é objeto da experiência e da ciência. Em segundo vem a objetivação da vontade, em terceiro, a ideia platônica objeto da arte. Por último, se estabelece a Ética: ao atingir-se o conhecimento de si mesmo, afirma-se ou nega a objetivação da vontade. Pessoal.

Impossibilitado de afirmar a objetivação de sua vontade pessoal, Gregor Samsa se metamorfoseia num espécime da espécie antropomorfa Homo sapiens/demens/inseto. Antropoide na forma física, mas realmente insignificante e desprezível inseto, quando se torna uma peça-pessoa coisificada no mecanismo mercantil da empresa para a qual trabalha. Ele sente na própria pele a dicotomia presente entre forma (humana) e conteúdo (hexápode): Homo sapiens/demens/inseto.

Ao se destacar enquanto excelente funcionário vendedor de tecidos, Gregor Samsa sente a alteração da sensibilidade e do entendimento (afecção) produzida pelas exigências tanto da empresa para a qual trabalha, quanto proveniente dos membros de sua família que dependem de seu trabalho para sobreviver. Seu ânimo de ser humano é afetado pelo condicionamento e a mecânica coisificante da sua rotina profissional.

Gregor Samsa, ao reagir à coisificação familiar, profissional e social, entra em conflito com os interesses de seus patrões e de seus familiares. Sente-se preterido em seu livre arbítrio pelas exigências sociais e culturais da coisificação. Quanto mais ele tenta humanizar-se e compreender a mecânica “quântica” de sua existência, mais se aproxima de conteúdos próprios de um inseto.

Apesar de pertencer à espécie Homo sapiens/demens do homem portador de uma forma humana, em sua essência, sabe que sobrevive para suprir, com seu trabalho mecanizado, as enzimas do estômago sistêmico, antropofágico, do capitalismo cromagnon. Em sua essência coisificada pela rotina alienante, seus gestos se equivalem aos procedimentos, hábitos e costumes da espécie dos insetos.

Essas enzimas e ácidos do estômago mercadológico do capitalismo selvagem digerem qualquer possibilidade de humanização do ser humano (Homo sapiens/demens) metamorfoseado Gregor Samsa. Grego Samsa sente-se transformado num inseto quando tenta humanizar-se através do trabalho e da dedicação à cultura familiar. À cultura ideada e à lógica da rotina de trabalho do sistema capitalista. Coisificador.

A subjetividade de Gregor Samsa tornou-se hegemônica, determinista, especializada. Seus diversos campos cognitivos, sempre reiterados, fizeram-no embarcar na mais impressionante conclusão a que uma história de terror/horror poderia chegar: sua tentativa de se humanizar o transforma em inseto. Quanto mais ele tenta justificar sua condição humana, mais a humanidade se revela: a rotina humana do inseto Gregor Samsa desprovido de maquiagens e adereços, assim como dos pincéis, perucas, desodorantes e demais perfumarias e xampus das oficinas da vaidade nos salões de cabeleireiros:

Por mais desesperada e sincera fosse sua tentativa de se humanizar, o mais que conseguiu, em sua aflição extrema por ser, de alguma forma humano, fora concluir que pertence, real e literalmente, à espécie antropomorfizada dos insetos. O conteúdo mental, emocional, os condicionamentos das rotinas estabeleceram nele a mecânica profissional de seu trabalho. E as adaptações neurológicas e orgânicas de sua rotina não são diferentes da mecânica neural das rotinas dos insetos. Trabalhadores.

Do sistema nervoso dos insetos fazem parte a cabeça, um cordão neural localizado ventralmente com gânglios em cada segmento. A comunicação entre células nervosas é semelhante à humana. As células nervosas de um inseto se comunicam através das sinapses com ação dos neurotransmissores tais como a acetilcolina e os impulsos neurológicos transmitidos através de mudanças na carga elétrica das sinapses. Em tudo semelhante ao humano, o humano Gregor Samsa se revela em sua essência, inseto.

Ele estava a viver um paradoxo: o de afirmar sincronicamente a vontade de conviver em níveis mais elevados de integração familiar e social, mas, em oposição a essa sua vontade pessoal de usufruir uma vida que fosse dele (livre arbítrio), estavam todas as inclusões de interesses contrários e manifestos na intenção de submetê-lo ao regime escravocrata da rotina de vendedor da empresa e de pagador das dívidas do pai.

Quanto mais Gregor Samsa exercita a tarefa de desejar humanizar-se, quanto mais ele se desespera no esforço de conseguir alcançar uma condição, pessoal e coletiva, que seja humana, que o convença de que ele, suas percepções, seus objetivos, sua intencionalidade, seus sonhos, sua cultura... são humanos. Quanto mais tenta se diferenciar da essência dos insetos, mais se aproxima da imagem insignificante e desprezível de sua metamorfose. Ele, Gregor Samsa, não passa de um artrópode. Antropomorfizado.  

A consciência transcendental em sendo coletiva e parte do inconsciente familiar de Gregor Samsa e da sociedade supostamente humana da qual faz parte, só o prestigiará à proporção que sua humanidade for descartada em proveito das convenções e rotinas familiares e sociais semelhantes às de um inseto. O humano pessoal, a individuação, existe apenas e exclusivamente nas teorias das ciências do comportamento, nos estudos  dos fenômenos culturais humanos: filosofia, psicologia, sociologia, história, pedagogia, antropologia, letras.


2.2. A CONSCIÊNCIA ENQUANTO GENERALIDADE
       E SUA IDENTIDADE GÊMEA HUMANO/INSETO

Gregor Samsa supostamente tentou de todas as maneiras possíveis, justificar-se enquanto ser humano. Gregor Samsa conseguiu sonhar, mas não realizar o sonho de ser ele mesmo humano. O sonho de ser ele mesmo, humano: com suas alegrias e tristezas, sentimentos, emoções, nos passeios familiares, na apreciação do mar, das paisagens. Em que essa sua vida de rotina poderia diferenciá-lo de um simples inseto? Os insetos são capazes de aprendizagem e de se afastar do que lhes causa desconforto. Os insetos são resistentes à dor.

Gregor Samsa recolheu-se à sua insignificância de inseto em seu quarto na casa de sua família, já que não poderia justificar-se intelectualmente, cognoscitivamente, enquanto ser humano. Isto para ele era um tremendo incômodo. Seu hábito noético afirmava, acima de qualquer dúvida razoável, que o tipo de consciência humana não era tão dessemelhante da consciência de um inseto. Por que ele, Gregor Samsa, se posicionou ao abrigo da convivência familiar e profissional?

— Talvez porque a dor de saber-se, em essência, tão semelhante a um inseto, e sabedor de que os bloqueios à dor nos insetos são mais eficientes do que em humanos, ele tenha se recolhido à forma artrópode. Os insetos são show em inteligência, propósito, design, engenharia, técnicas peculiares de sobrevivência. Incapaz de ser reconhecido por seus pares sem que estivesse cumprindo suas rotinas e seus hábitos de vendedor de tecidos, ele se recusou ao convívio com os funcionários da empresa aliados a seus familiares. Isolou-se de suas pressões hexápodes. Tomou-lhes a forma sempre esconsa na aparência bípede e antropomorfa. O oculto por detrás das aparências manifestou-se.

De nada resultaram seus esforços intelectuais, sua reclusão em seu quarto, de nada lhe valeu sua Ioga, seu recolhimento, suas meditações, suas vivências, seus cursos de coaching. De que lhe valeram os resultados positivos da atividade profissional que lhe permitiu angariar as altas cotações da performance pessoal de suas vendas de tecido na empresa para a qual trabalhava?! Ele tecia essas vendas como uma aranha tece a teia.

De que lhe adiantou seu valor de mercado? Sua rotina diária de operário privilegiado, de executivo que amanhece outra vez para outro dia de trabalho? Essa sua vida não era diversa das demais rotinas sociais das abelhas, formigas, louva-a-deus, vespas, aranhas, borboletas, baratas, esperanças e cupins. Esses insetos sociais que se ocupam em encorpar seus “currículos” a partir dos conteúdos diários das rotinas de trabalho, do modo de ser das culturas e grupos de insetos treinados pelo hábito da mecânica repetição dos costumes.

Para ele, Gregor Samsa, cultura e a civilização ditas humanas resistem em admitir, por uma questão exclusivamente de narcisismo político, jurídico, e de vaidade político-social, que a cultura, a civilização e a vida em sociedade dos seres humanos são uma metáfora e um intertexto da vida social dos insetos. Por isso “A Metamorfose” é uma novela que deveria figurar entre as mais espantosas histórias nos gêneros terror/horror! Por quê?

— Por quê? Por evidenciar a fragilidade da cultura e da civilização ditas humanas. Por patentear e tornar de fácil compreensão que essa cultura e essa civilização não resistem à evidente confrontação com certa profundidade noética no exercício cognoscitivo exposto pela personagem Gregor Samsa em sua vã tentativa de se humanizar através do trabalho e da dedicação pessoal à família.

Seus patrões, colegas de trabalho, seus familiares, não poderiam jamais ser humanos. Mas poderiam manter a aparência de humanos com a essência de insetos. Gregor Samsa, por ser fiel à verdade de sua condição, por não negociar o que de mais íntimo e valioso possuía, seus valores, sua liberdade, seu inconsciente pessoal, teria de mostrar essa diferenciação de modo diverso da condição coletiva de seus conhecidos: ser inseto na forma, mas humano na essência.

Que sobraria de humano nele a preservar? Se continuasse a agir como uma aranha que tece uma teia em direção aos compradores de suas mercadorias? Teia tecida em direção aos consumidores dos tecidos? Ele conseguia prender seus compradores como se fossem insetos em sua teia. Qualquer vendedor poderia conseguir isso. Oprimido pela frágil condição do homem frente às pressões do cotidiano exercida por seus chefes e pelos membros de sua família, Kafka talvez quisesse questionar a atividade do autor que produz textos. Literários. Seria ele, Kafka, um espécime da espécie Gregor Samsa?

Texto quer dizer Tecido, mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por produto, por um véu todo acabado por trás do qual se mantém mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo. Perdido nesse tecido, nessa textura, o sujeito se desfaz nele qual aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia. Se gostássemos de neologismos poderíamos definir a teoria do texto como uma hifologia — hiphos é o tecido e a teia da aranha (BARTHES, 1987).


As instituições burocráticas exploram as necessidades de sobrevivência do homem. O terror/horror contido no livro “A Metamorfose” é inusitado, interno, íntimo, profundo. E ao mesmo tempo muito antigo. Por isso mesmo incomum, porque revelado. Por revelar essa condição, revela simultaneamente a epifania da circunstância de vida e do caráter e condição humana nas três dimensões do conhecimento: abrangência, profundidade e atualidade.

“A Metamorfose” ao desnudar essa condição humana de inumanidade tão esconsa por detrás das máscaras do dia a dia, revela também a subjetividade inumana que subjaz sob as histórias de terror/horror escancarado de personagens psicóticos que dilaceram suas vítimas todos os dias na crônica policial e político-econômica, nos costumes rotineiros do mundo real. A insegurança pública todos os dias revela o horror/terror consequente das vítimas dilaceradas nas histórias de ficção realista. Ou científica.

É o terror/horror da dor de não poder humanizar-se numa sociedade que se constrói e desenvolve sem premissas sociais humanas. É o terror de se surpreender envolvido numa teia de paradigmas político-econômicos e interesses sociais que se resolvem em campos de batalha onde a matança de seres mais demens do que sapiens, atirando pólvora uns sobre os outros, suscita uma cultura e uma civilização de convenções formais onde o assassinato bárbaro de seres supostamente humanos, é ajustado. Diplomaticamente. Como se num conflito de dedetização em massa.

Na Iª Grande Guerra foram, aproximadamente, trinta milhões de mutilados e feridos somados a dez milhões de mortos. Na II Gerra Mundial, somaram-se mais de sessenta milhões de cadáveres. Afora uns cento e cinquenta milhões de mutilados e feridos. As guerras continuam acontecendo: as declaradas e os conflitos não declarados. Quantos são os mortos e inválidos por trás do convívio genocida silencioso das guerras internas em países africanos, latino-americanos, europeus, asiáticos?

As “elites” da comunidade diplomática internacional, através da negociata de armas para que as partes interessadas na conquista do poder possam se matar impunemente a partir das convenções diplomáticas que validam a matança, continuam a manter seu “status” à custa da dor e do sofrimento de suas populações causados pelo descaso com a educação, a saúde, a insegurança, a mobilidade urbana e a habitação sem saneamento básico de grandes comunidades em seus territórios.

Essas “elites” governam em nome de uma suposta humanidade, mas, na realidade, em nome de interesses e negociatas privadas, no interesse de suas representações públicas, ditas republicanas e democratas. Representações do ganho e do levar vantagens pecuniárias em transações onde o dinheiro público é canalizado para as contas bancárias das empresas envolvidas nas maracutaias com o interesse político e jurídico privado. Talvez a sociedade dos insetos enquanto espécie, não chegue a tanto. Em comando, comunicação e controle organizacional. Tecnológico. Globalizado.

Afinal, os incovenientes da rotina de trabalho de Gregor Samsa são metáforas do que há de incômodo nos transtornos e embaraços de qualquer profissional em qualquer emprego assalariado. A percepção de que se transformou num inseto pela rotina, é apenas uma questão de sensibilidade.


REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS

BARTHES, Roland, O Prazer Do Texto, Editora Perspectiva, São Paulo, 1987.
JUNG, Carl Gustav, AION, Estudos Sobre O Simbolismo De Si Mesmo, Editora Vozes, Petrópolis, 1982.
KAFKA, Frank, “A Metamorfose”, Editora L&PM Pockrt, Porto Alegre, 2001.
KAFKA, Franz, “A Metamorfose”, HQ Mangá, Editora L&PM Pocket Book, Porto Alegre, 2013.
SCHOPENHAUER, Arthur, O Mundo Como Vontade E Como Representação, Editora Unesp, São Paulo, 2005.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 24/07/2014
Alterado em 11/09/2014


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