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HOLOCAUSTO NUNCA MAIS (PSICity) ROTEIRO DE CINEMA (3ª REDAÇÃO) 3
26) INT. QUARTO. MOTEL — NOITE              

LEANDRO
(está no quarto com uma garota de programa com idade de ser sua filha).

   GAROTA
           (insinuando-se)

A Lígia está com saudades de você. Ela está em Búzios, pegando um bronze para vir com tudo em cima.

   LEANDRO
              (interessado)

Este fim de semana falo com ela.

    GAROTA
      (intermediando a ligação)

O novo n° do celular dela está em cima da mesa. Digita o nome dela que você vê.

LEANDRO
(preocupado, senta-se à mesa, abre correspondência de um hemocentro da Avenida Angélica)

GAROTA
   (dirigindo-se ao banheiro)

A MELISSA, não dá conversa para ela não. Está soro positiva e transando como nunca. Pirou. Está com medo de sair dessa dimensão e não ter ninguém que ela conheça na outra. Quer infectar todo mundo que ela conhece. Fazer um pé-de-meia e voltar para o interior... Enquanto o bicho não pega de vez.

LEANDRO
            (meio apavorado, murmura de si para consigo)

A mutação do vírus dela é o PUF. E se eu estiver infectado? A camisinha rompeu da última vez que estive com ela.

    GAROTA
      (penteando-se frente ao espelho, vira-se e sai do banheiro)

Isso aí é o resultado de teu exame? Credo! Vai me dizer que você está bichado.

  LEANDRO
(aborrecido)

Para com isso! Aqui diz que tenho de refazer o exame. —Entrando no banheiro e olhando-se no espelho, murmura: “vai saber ao certo...”


27. INT. APARTAMENTO 15° AND. QUARTO DE SABRINA — DIA

   LEANDRO
(bole nos membros viçosos de SABRINA letárgica sobre a cama. Ele sai do quarto para a sala onde prepara um drink)

                                               NÁDIA
     (a doméstica se despede)

Até a próxima semana “seu” LEONARDO.

   LEANDRO
   (irritado)

Meu nome é LEANDRO, LEO, mais de um ano trabalhando aqui e você ainda erra ao dizer meu nome. — “Que mulher estúpida”, rumina ele.

     NÁDIA
(fechando a porta do apartamento)

Até segunda, “seu” LEANDRO, desculpe. Bom fim de semana! — Entrando no elevador ela fala de si para consigo: “Leandro ou Leonardo, não faz diferença se seu nome for Virgulino. Vê se morre esse fim de semana”.

  LEANDRO
(bebe um gole da dose dupla de Logan´s enquanto olha em direção ao quarto de SABRINA)

Você vai ficar curada filhinha, vai sair desse trauma, papai promete — Entrando no quarto admira-se ao vê o corpo da filha levitar há uns 40 cm acima do colchão.

                LEANDRO
(excitado com a visão, LEO sente-se atraído pelas penugens do púbis juvenil. Movido por pulsão de dissoluta libido, lança os lábios em direção aos grandes lábios da adolescente com suas vestes transparentes e o corpo de filha de Zeus)

(A levitação e o clima de amorosidade sugeridos pela visão, assim como um murmurar de cânticos monacais mal digeridos, por sua excitada percepção auditiva, serviram para ele de incentivo à volúpia. Usufruir da beleza e juventude de SABRINA na situação incestuosa, era tudo que desejava).


28. INT./EXT. QUARTO. SACADA. ESPAÇO ABERTO ENTRE OS EDIFÍCIOS DE APARTAMENTOS

LEANDRO
(a pressão das coxas de SABRINA se faz sentir nos lados de  seu pescoço, enquanto o corpo se desloca em direção ao teto. A ponta dos dedos dos pés, de dentro dos sapatos se distancia do piso do quarto. As pernas se debatem no vazio)

(Ele tenta falar, se desculpar, gritar, pedir socorro, mas da garganta pressionada não sai nenhum som de palavras. A força estranha que abarca toda a atmosfera ambiental não quer saber de diálogo. O corpo de SABRINA levita em direção ao pequeno terraço que separa o quarto do vazio, da queda).

               LEANDRO
(de olhos esbugalhados ele enxerga as janela de vidro que separam o quarto do terraço. Ele sente uma ponta de esperança ao vê-las trancadas. Mas elas começam a deslizar nos trilhos para os lados, escancarando-se à direita e à esquerda)

(Um vento frio e milhares de gotas de garoa gelada adentram rapidamente o quarto a umedecer os cabelos, as roupas e os lados de suas faces).

  SABRINA
(o corpo retesado na horizontal passa quase atritando na parte superior da meia-lua da janela de formação convexa, arredondada)

LEANDRO
(francamente apavorado, o rosto colado aos pentelhos da filha ele olha para baixo e sente as coxas de SABRINA abrir-se lentamente. Os belos e longos cabelos castanhos de SABRINA esvoaçam dos lados da cabeça, enquanto o corpo hirto desliza em direção ao vão de 60 metros que separa os edifícios de apartamento)

(Os vidros das janelas dos apartamentos adjacentes estouram estrepitosamente. Lascas de vidro abrem cortes profundos na testa, nos braços, no troco e na cabeça dele e no corpo hirsuto de SABRINA. O sangue escorre dos ferimentos. LEANDRO vê estupefato que as feridas no corpo dela logo se fecham e os sangramentos param).

       VIZINHA A ESPREITAR
(acompanhada de enfermeira, uma senhora que está a contemplar a paisagem do entardecer vê a estranha,  inusitada e atemorizante imagem surreal de LEANDRO debatendo-se com a cabeça entre as coxas de SABRINA que, para seu desespero se abrem mais. Ele tenta a todo custo se manter agregado ao corpo da moça. As mãos lutam por agarrar suas coxas, suas pernas e, por último, o frágil tecido que a veste. Mas a força da gravidade é mais forte. LEANDRO despenca no vazio em direção à laje na área reservada ao playground do prédio)

          SENHOR IDOSO
(trêmulo, da janela de um apartamento defronte, ao lado do neto, um senhor de idade olha para o rapaz como quem quer uma confirmação de que aquele acontecimento de rara e trágica surreal idade está mesmo a acontecer. — “Não é mesmo um delírio”? Pergunta-se ele. Mas a estupefação da expressão facial do rapaz não deixa dúvidas de que aquele acontecimento inusitado não foi provocado por imoderada excitação mental)

      VIZINHA A ESPREITAR
(o olhar pasmado e os membros trêmulos da mulher persignam-se enquanto ele balbucia uma prédica litúrgica: “pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus Nosso Senhor dos nossos inimigos”)

      CASAL DE NAMORADOS
(beijam-se sentados num banco do playground vazio. Súbito o corpo de LEANDRO cai próximo. O rapaz está tão envolvido no chupão de língua que nem ouve o baque do corpo, enquanto a moça arregala os olhos e fica tentando se desvencilhar da boca e da mão do namorado que segura sua cabeça presa ao rosto dele)

MOÇA NAMORADA
(tentando desvencilhar-se do amasso)

Hãaãããã! Hummauhamããam!

RAPAZ NAMORADO
(desprende-se afinal do aconchego)

(Ambos olham para o alto tentando identificar de onde o corpo caiu. Boquiabertos, ambos veem o corpo horizontalizado e hirto de SABRINA adentrar de volta à janela do quarto do apartamento em que habita).


29) INT. SALÃO DE REDAÇÃO. JORNAL — DIA

ROSSI LEE
(apreensivo com o surto de CHE, telefona para a filha Jussara visando obter informações vicinais para uma série de reportagens)

Evidente que CHE não pode ser fenômeno transmitido por contágio. Você tem o novo endereço da família dele?

JUSSARA
(do outro lado da linha, falando pelo celular)

Os pais dele mudaram exatamente para que não fosse motivo de especulação da imprensa. Não querem publicidade nenhuma.

ROSSI LEE
            (persuasivo)

JU, você era namorada dele. Faziam planos juntos, rapel, escaladas... Não és nenhuma estranha querendo explorar um acontecimento sinistro. Veja se consegue uma entrevista.


                 JUSSARA
(considera por momentos a argumentação do pai)

A morte dele não terá sido inútil, se conseguirmos fazer algum progresso na investigação desse flagelo. Também penso desse jeito.

ROSSI LEE
            (afirmativo)

É isso! Te vejo mais tarde. Se não, ligue quando tiver uma resposta, certo?


30) INT. APARTAMENTO — NOITE

     LISABETH
                                (repreende a filha SABRINA)

Há mais de duas horas você está no telefone. Vê se pára com esse lero-lero.

     SABRINA
          ("cheia de razão")

Dá um tempo! O Jamil está fruindo um lance da hora! Sobre um "inúteen" que virou cinzas ontem a noite em cima da cama. Sacal o lance. Nem os lençóis da cama em que o cara estava deitado queimaram. Nem as páginas do livro que ele estava lendo. Muito loucos esses surtos de CHE.

    LISABETH
    (reagindo)

Escuta filha, esse negócio de CHE não é mais novidade. Daqui a pouco a notícia vai estar no Jornal Nacional. Teu pai está chegando. Ele está de pavio mais curto do que de costume.

              SABRINA
(teimosa)

Falar pelo interfone não impede de me vestir.

LISABETH
         (pelo videofone)

Estamos descendo, Leo.

LEANDRO
           (informativo)

O JAMIL telefonou. Está chegando ao shopping. — Leo desce as escadas em direção ao subsolo onde vai liga o carro à espera da mulher e da filha. LEANDRO sai da garagem e estaciona o auto em frente ao prédio enquanto mentaliza:

("SABRINA precisa desencalhar logo. A faculdade é apenas um pretexto para fisgar um trouxa. E esse trouxa pode ser esse JAMIL. Esse FICADOR é cheio dos dotes. O pai é construtor, sócio de uma empreiteira. Quem sabe esse ela pega, mata e come. Quero dizer: pega, come, noiva e casa").


31)  INT. PRAIA DE ALIMENTAÇÃO. SHOPPING — NOITE

(A família reunida, conversa animadamente)

JAMIL
          (rememora)

Esse filme lembra aquele da retrospectiva de filmes da década de noventa do século XX.

             LISABETH
             (curiosa)

Sei! Como é mesmo o nome?

     JAMIL
             (com enfado)

"O Paciente Inglês".

   SABRINA
            (lembrando-se)

Sim! Sei! Vi contigo!

   LEANDRO
(provocativo)

Vimos nesse mesmo cinema. — Você gostou mesmo, não? Tem uma opinião sobre ele?

                                           SABRINA
(serelepe tipo “loura burra”)

O cara era um gato. O aviador. Trágico, mas eu gostei.

JAMIL
  (irônico, olhando cúmplice para LISABETH)

Isso é que é avaliação inteligente.

LISABETH
     (O filme não te disse mais nada, sério?)

LEANDRO
(a livrar a filha do vexame)

Quanto a mim, dormi. Estava de ressaca — (risos).

JAMIL
         (simplificando)

A história de um marido traído que se vinga da esposa e do amante forjando um acidente na aterrissagem de um monomotor no Saara.

LISABETH
      (mostrando-se atenta)

O paciente inglês, o ator Ralph Fiennes, interpreta um desconhecido com queimaduras generalizadas, tratado pela enfermeira canadense...

JAMIL
     (complementando)

Interpretada pela musa Juliette Binoche.

LISABETH
            (continuando)

...Em um hospital. Ele conta como se envolveu amorosamente com a mulher de um colega de aviação...De como essa paixão foi correspondida.

                  JAMIL
     (exibindo boa memória)

O piloto está desfigurado pelas queimaduras. As lembranças vão se recompondo, mas ele bloqueia a memória dos acontecimentos que motivaram o sinistro aéreo. Filme fera. 12 indicações ao Oscar. Ganhou nove.

LEANDRO
     (olha para SABRINA como que a motivá-la a falar alguma coisa)

Quantas coisas as guerras podem destruir. Amizades, relacionamentos, amores. Quantos milhões de pessoas que poderiam estar vivas deixaram de maneira violenta e perversa, de existir. Quanta crueldade vem à tona. E sonhos que se frustraram... Bom, eu não dormi o filme todo. —(risos).

   JAMIL
     (mostrando-se cinéfilo)

Direção ANTHONY MINGHELLA... Vocês estão sabendo.

              SABRINA
(como que querendo inserir-se na conversa)

Chorei o filme inteiro. — LISABETH sorri amarelo como quem diz: “você hem Sá? Cadê os neurônios?”.

LEANDRO
            (olha para a filha, a voz em of.)

Você, hem, Sá? Chorar não é motivo para se achar um filme bom ou ruim. Se toca, minha filha. Vai ver esse rapaz gosta de você porque representa o arquétipo da mulher desprovida de QI. Mas que na cama compensa a falta de massa cinzenta.

LISABETH
      (mudando de conversa)

Esse agora é um drama passado na III Guerra do Golfo. Li que o personagem principal também foi vítima de uma aterrissagem desastrada, provocada pelos ciúmes de um marido traído.

JAMIL
        (confirmando)

Que também pilotava um monomotor... — Ao olhar para o relógio insinua que a sessão de cinema vai começar.


32) INT. CINEMA. SALA DE PROJEÇÃO. PESSOAS OCUPANDO POLTRONAS — NOITE

(Dentro da sala de cinema as pessoas curiosas uma das outras se olham dissimuladamente. Querem flagrar atitudes, gestos, murmúrios entre os cinéfilos antes da projeção do filme começar. Adolescentes rechonchudas aparecem a mastigar entusiasticamente pipoca com refrigerante. O filme começa).

(Na tela uma mulher pálida e apavorada contempla uma imagem que vai aos poucos se fundindo com ela. À proporção que seu reflexo no espelho desencana, assustada, vai se surpreendendo, aos poucos, com o poder de penetração da Outra. Uma tênue névoa alonga-se da superfície especular até suas pupilas indefesas).

(Uma mulher ao lado de LISABETH levanta o braço na altura dos olhos como a se defender da invasividade do olhar espectral mostrado na tela em 3ª dimensão).


33)  INT./EXT. SALA DE ESTAR. RUAS DA CIDADE — NOITE

(A personagem do écran, numa aflição cada vez mais difícil de controlar, vivencia realidades paralelas. Ao mesmo tempo em que se encontra sentada na poltrona do cinema, surpreende-se na poltrona da sala de jantar. Ao sair de um cinema na Avenida Paulista, um helicóptero, incendiando-se, cai a poucos metros dela. A explosão provoca gritos surpresos e súbitos na plateia).

(SABRINA aperta mais os dedos de JAMIL entre os seus. Ela olha para ele que, virando o rosto sorri para ela, acalmando-a. A tensão arrefece entre os espectadores).

(No écran, a personagem parece-se cada vez mais intensamente com ela. A transferência de identidades se faz intensa e acontece também com relação a outras adolescentes e pessoas adultas na plateia).

(As luzes da sala clareiam o ambiente. O filme termina. As pessoas começam a se levantar para sair. SABRINA levanta-se e chama a mão de JAMIL para si).

(Ela caminha entre as fileiras de poltronas, a princípio sem notar que segura um pedaço do esqueleto da mão do namorado presa ao que restou de seu pulso. Olha apavorada para a imagem do RAPAZ que simplesmente se desfaz em cinzas frente à expressão facial estupefata da moça).

(Ela quer gritar e não consegue. Sua manifestação de pavor confunde-se com a da personagem do filme. Não consegue manter-se desperta e desmaia, caindo sobre as poltronas, despenca em direção ao chão. Seu braço ainda segura a mão descarnada de JAMIL).


34)  INT. SALA. APARTAMENTO — NOITE

(ROSSI LEE aproxima-se da mesa central da sala, pega um pedaço de papel amarelo, tipo lembrete de agenda e lê o recado da filha JUSSARA):
"O caderno de assinaturas de presenças e opiniões das pessoas que frequentaram a primeira semana da exposição de fotografias das ruínas da cidade maia em meio à selva na Guatemala, foi substituído por outro”.

“Um segurança informou que roubaram o original. As câmeras de segurança não registraram o roubo devido a um curto circuito suspeito. O nome de ISAAC RONDON constava do livro, assim como seu e-mail. JL. VOLTAIRE utilizou as pesquisas de campo do fotógrafo enquanto reforço de sua tese de doutorado. Tenha paciência, em breve saberei o novo endereço dos pais dele. Beijo. JU”.


35)  INT. SALA DE ESPERA. SETOR ADMINISTRATIVO. HOSPITAL DAS CLÍNICAS — DIA

(ROSSI LEE entra na sala do superintendente do HC, doutor ALBERTINOTH KARAMURINJA. O médico levanta-se e estende a mão cumprimentando o jornalista).

        DR. KARAMURINJA
         (mostra-se tenso)

Desculpe-me tê-lo feito esperar, em que posso ajudar?

ROSSI LEE
                     (contendo a curiosidade investigativa)

Não quero ocupar seu tempo, doutor. A “stripper” HALLMA, trazida hoje de madrugada. Que aconteceu? Mais uma vítima da Combustão Humana Espontânea? O que a medicina tem a dizer desse fenômeno?
DECIO GOODNEWS
Enviado por DECIO GOODNEWS em 15/05/2013
Alterado em 21/05/2013


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