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MADAME ENTREFERAS
MADAME ENTREFERAS

Dona Ruth pega o ônibus para fazer um programa diferente. Deseja sair da rotina, mostrar a si mesma seu alto senso social. Ela precisa estar mais e mais atualizada.

Na realidade ficou entediada à espera do carro. O motorista deveria chegar em meia hora. Saíra da consulta mais cedo. Não custava nada fazer uma incursão rápida pelas calçadas. Observar a careta sofrida e aflita do povaréu ao redor. Uma aventura. Depois, rapidamente voltar para a segurança do automóvel. Seria divertido sair da rotina protegida. Ela pensou sempre no resguardo, na blindagem de seus botões:

— “Sim, pegar um ônibus, por que não? Uma oportunidade de chegar perto dessa gentinha, esnobar de perto essa cambada de filhos da mãe. Filhos da mãe, sim, aceitam salários medíocres para se estressarem a vida toda. A vida inteira se extenuando, prostando-se no desassossego das ruas, praças e avenidas ameaçadas pela pulsação interminável do ter. Ter sempre mais. Na realidade deles, ter sempre menos”.

Dona Ruth, sentindo-se empoderada por sua superioridade política, econômica e social, ponderou com seus botões: “Todos querendo ter mais, com direito a avançar sobre as posses dos demais. Esse é o transe nas ruas e avenidas de São Paulo. A vida deles é como um metrô que nunca chega à estação final. Sempre indo e vindo indo e voltando: a mesma roda-viva. Todo santo dia. E eu sou da classe que os esnoba, os escraviza”.

Foi entrar no coletivo e logo murmurar de si para consigo: “Nossa! Quanta cara de frustração e ansiedade. Esses passageiros mais parecem habitantes de um manicômio deserdado pelas verbas do Fernandinho. Credo, a coisa está mesmo feia. A coisa aí está preta, como diz a canção”.

—"As expressões passam desolação, ameaça, raiva, ira ou enfado, parecem prontas para revidar a qualquer tentativa de aproximação, com um chute, um malefício brusco, intimidativo. Ainda dizem que brasileiro é povo hospitaleiro. Esse folclore é turístico”.

“Ainda bem que ela não tem saco, o mesmo pode dizer do marido, senão poderia levar um pontapé neles. Rodar de coletivo por necessidade, nem morta, disse3 de si para consigo. Não se sentiu bem no interior do veículo, próxima ao odor desses desodorantes de sovacos baratos”.

— “Gente de Deus” dona Ruth exclamou. “Chegam em casa vão ver o programa do Ratinho, a novela do horário nobre, que de nobre só tem o nome. De alguma forma vão se plugar no universo do entretenimento para os animais adormecidos do sofá”.

Começa a sentir-se mal. O mal-estar comentado por Freud. O mal-estar d civilização. O mal-estar ao contemplar essas caretas de eleitores, frustradas, em parte, pelas promessas de palanque do marido, dos políticos de maneira geral. Muitas dessas pessoas do povo parecem estar usando máscaras de desempregados, doentes, mal-amados. Têm todos uma frustração que não conseguem esconder.

—"Céus, não deveria ter saído sem a companhia de seus seguranças”.

A aparência de necessidade ampla, total e irrestrita dos passageiros. “Que náusea sartreana”. Mal tinham passado dois pontos de ônibus, estava quase arrependida. Uma trombadinha se esfregou nela, enquanto outra mulher tratava de puxar seu colar amarelo, no que foi impedida, por seus gestos de defesa. A estocada do canivete da marginal, de menor, lhe feriu a testa.

O motorista do coletivo para ela descer. Madame dá meia volta e desce pela porta da frente, sem pagar a passagem, não se aventura a chegar até a roleta em meio a tantas intenções hostis.

A moleca abre o canivete e olha para a mulher que está no comando dos roubos dentro de coletivo. Ela faz uma leve movimentação no canto do olho, ele entende que não é para descer atrás, e cortar a garganta daquela dona não. A mulher que controla a trombadinha sonda-se. Nem sabe aonde, mas já tinha visto ela em algum lugar, talvez até já tivesse assaltado ela, consolando-se, diz de si para consigo que ela deve estar usando bijuterias, joias de aparência, sem valor.

A mal-amada mulher ainda hesitou:

— Deixava, ou não, aquela mulherzinha "chic", apavorada, pelada das bugigangas??? Ela se acha prestes a reconhecer a primeira dama. Esse colar é ouro de tolo, esse relógio quem sabe vale alguma merreca. Não, shiishii, será ela mesmo???

—"Vou livrar a cara da madame, senão vai sobrar pra mim, vai até dá notícia no JN, sensacionalismo na Folha de São Paulo. Vai sobrar pra mim, o pau vai quebrar no meu terreiro. Ela tem poder, eu vou me foder. Prefiro acreditar que a madame vai se dá por agradecida, ao sair dessa só com um ferimento na testa.

Dona Ruth agradece ao motorista por ter parado. Ao descer, esbarra no meio-fio e dá de cara nos joelhos de um negão. As pernas dobram e encostam no chão imundo, escarrado e urinado por cães de calçada. “Que trauma”. Riram dela.

— “Esse provim é um nojo”. O negão ajudou-a a levantar-se.

— “Que gentinha mais mal educada. Dona Ruth avia-se, esquece por um momento o background ateu daquela gentinha, e clama, de si para consigo, por um táxi pelo amor de Deus. Quer voltar logo à porta do consultório do ginecologista. São apenas cinco ou seis quadras, mas daria todos os meus salários desse semestre, com décimo terceiro e tudo, para sair o mais rapidamente possível dessa ratoeira violenta que é o interior de um coletivo na metrópole paulistana”. Não quer permanecer indefesa à mercê de outros marginais na calçada, nem por mais um minuto.

Afinal, a “tiazinha do FMI”, como é conhecido o presidente, não está investindo nada em saúde, educação, habitação, nessas coisas sem as quais a cidade explode em todos os lugares, em violentas manifestações sociais da necessidade e da paranoia coletiva. O Fernandinho devia estar no meio deles pelo menos duas horas por dia. Essas duas horas modificariam sua sensibilidade social, ele seria tentado a investir nestes setores, dissesse o que dissesse o bê-á-bá do Fundo Monetário Internacional.

Ela murmura, ainda zangada: “Para o Fêfê, investir no social é sair na coluna do Zózimo, pelo menos uma vez por semana”.

Acredita-se, dona Ruth, uma mulher de coragem, fazendo pesquisa de campo. Ainda que se censurando por ter saído e tido o pulso de expor a garganta para o canivete afiado da maldita pivete, aquela criminozinha filha da puta da cidade de São Paulo.

As manchetes seriam um escândalo: “Mulher do presidente assaltada num ônibus da linha Anhangabaú/Vila Mariana”. Uma irresponsabilidade arriscar fazer mais propaganda negativa do governo. Uma mulher fina como ela, não pega bem estar em meio ao povão mal banhado em cosméticos baratos. Dona Ruth se autocensura:

— “Você cresceu Ruth, essa coisa de ônibus era no tempo de estudante. Você é uma dama da alta sociedade. É mais do que uma cidadã, é uma burguesa, faz parte da elite econômica desse país globalizado pelos patrões do Fernandinho. O tempo passou, você agora é sexagenária. Dá um tempo nos condicionamentos joviais de juventude”.

O táxi a deposita, agora não mais tão aflita, na porta de entrada do edifício do consultório médico. Vai de passinho miúdo, mas apressadinho, até à sala de espera. O porteiro faz um agrado:

— “Dona Ruth, quando o motorista chegar eu aviso pelo interfone”.

— “Obrigada. E repete para o próprio ouvido: Tivesse de ficar mais tempo naquela roda viva... Afinal, de volta ao lugar dela, ao bem-bom da sala com ar refrigerado e reproduções de pinturas cubistas do médico”.

Aqueles poucos minutos no burburinho neolítico da cidade, na certa poderiam ter causado um mal-estar bem maior: sofrer um assalto, um sequestro ou outro tipo de sinistro. Povo é um conceito sociológico que só fica suportável nos tratados de Sociologia, nos planos altruísticos que gerencia como mulher do chefe do Executivo. Julgou-se uma grande e corajosa heroína. Não precisava ter-se embrenhado na selva de pedra, mas queria ter tido essa experiência, pelo menos uma vez, saber como é estar no meio do povinho.

Uma vez só basta: Cansou a beleza nessas incursões perigosas para o outro lado do muro da vergonha, muro que separa os discursos bem-intencionados da realidade, do contexto onde pipocam as manifestações sociais virulentas da grande cidade. Numa Democracia todos têm direito ao ato constitucional de ir e vir.
—Certo, pensou ela, mas dentro de seus competentes nichos sociológicos.

Dona Ruth vai até o banheiro enquanto aliviar a comoção intestina. Na sala de espera continua dialogando com seu álter ego:

—"Sim, porque com o que a renda familiar desses desgraçados pode comprar, sobra muito pouco após o supermercado da cesta básica, para comprar um livro, ir ao teatro, ou fazer uma lipoaspiração nos ventres avantajados dessas mulheres”.

— “A classe média está no caminho da proletarização. Enquanto o Fernandinho viaja, fazendo turismo diplomático. Aceitando a corte dos bundões do colarinho branco internacional, a puxar os cordões fáceis de seus sorrisos de tubarão simpático”.

Vai contar a aventura no chá das cinco, escandalizar as amigas. Comentarão por longo tempo sua incrível coragem em submeter-se à aventura de, por breves momentos que pareceriam intermináveis, ter estado neste safari heroico, por esta África neolítica da selva de pedra paulistana.

Na reunião do chá no Alvorada, uma amiga íntima, que havia feito por duas vezes inclusões de silicone para aumentar o tamanho das mamas e da bunda, comentou ser ela muito corajosa:
— Não tenho peito para isto, queridinha.
— Não se arrisque tanto, minha querida, comenta a Cláudia Crowley.
— O Fêfê não vai gostar de saber, exclama em tom de censura a Denise Gestalt. E todas, por consenso, a elegem a Indiana Jones feminina, mulher de extraordinário valor, a dama Society que desafiou a socio patologia da nacionalidade, desceu aos infernos por quinze longos minutos.
— Santas amenidades, exclamou, estou finalmente em casa. Ente suas amigas íntimas, dona Ruth se sente outra vez uma Madona: inteligente, plástica, corajosa, irreverente, sensível, invisível e protegida.
DECIO GOODNEWS
Enviado por DECIO GOODNEWS em 03/04/2010
Alterado em 02/04/2026
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